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Por que fãs de kpop estão engajados nos protestos contra o racismo no mundo

Fã do BTS com tiara da banda na fila do show que aconteceu em São Paulo em 2019 - Mariana Pekin/UOL
Fã do BTS com tiara da banda na fila do show que aconteceu em São Paulo em 2019 Imagem: Mariana Pekin/UOL

Letícia Naísa

Do TAB

10/06/2020 04h00

"Alô kpopers, precisamos de vocês", dizia a mensagem da jornalista Débora Lopes no Twitter, seguida de uma imagem de um tuíte de Douglas Garcia pedindo informações sobre ativistas antifascistas que ocuparam as ruas nos dois últimos domingos pelas capitais brasileiras. Lopes fez a postagem na brincadeira e não fazia ideia da repercussão que teria. O chamado rendeu quase 500 comentários, um milhão de impressões e a comunidade respondeu prontamente. Fãs postaram prints com "denúncias" que continham fotos e nomes de artistas de música pop sul-coreana, o kpop.

O ritmo que vibra na cabeça dos adolescentes é marcado por uma comunidade extremamente ativa de fãs nas redes sociais. Eles sobem hashtags para promover seus idols (como são conhecidos os artistas de kpop) favoritos, curtem, postam e compartilham assiduamente clipes novos de suas bandas preferidas e criam fancams — breves vídeos ou gifs dos idols — para tornar os artistas ainda mais populares, mas não é uma comunidade conhecida por ser politicamente ativa; apenas estridente nas redes sociais. Em 2020, entretanto, frente aos protestos antirracistas que se espalham pelo mundo, os fãs de kpop também se posicionaram em prol do #blacklivesmatter.

Nos Estados Unidos, os fãs derrubaram um aplicativo da polícia de Dallas, no Texas, que buscava informações sobre manifestantes, possivelmente para incriminá-los. Dias depois, subverteram o sentido da #whitelivesmatter no Twitter, inicialmente criada por racistas, mas que acabou sendo usada para promover fandoms e postar mensagens contra o racismo. No Brasil, houve um movimento parecido nas redes sociais de fandoms (grupos de fãs), apoiando a #vidaspretasimportam.

Érica Imenes, jornalista e escritora, autora de "K-Pop: Manual de Sobrevivência" e "K-Pop: Além da Sobrevivência", conta ao TAB que há histórico de fandoms engajados em causas sociais — como doação de dinheiro para comunidades carentes ou causas ambientais. Mas o fator político dentro dos grupos de fãs é novo, apesar de não ser uma surpresa. "As redes sociais são um habitat natural da comunidade kpop, e são movidas por algoritmo e engajamento. É um público conhecido por ser muito digitalmente ativo. É orgânico que eles façam uso e articulação nas redes também para propósitos assim", diz Imenes.

Na rede

A internet foi decisiva para que a cultura coreana ganhasse a visibilidade que ganhou nos últimos anos. A legião de fãs nasceu dentro do meio digital — e esse é um dos fatores que explica o "levante kpoper" nos protestos de 2020. "O ambiente virtual deu visibilidade a certas pautas, da mesma forma que deu visibilidade ao kpop e aos fãs que ficavam na obscuridade num momento pré digital", explica ao TAB Krystal Urbano, professora e pesquisadora em comunicação da UFF (Universidade Federal Fluminense) e coordenadora adjunta do grupo MidiÁsia, que estuda cultura asiática contemporânea. Hoje, os jovens têm acesso a discursos e narrativas muito mais diversas do que a comunidade Otaku (de fãs de cultura japonesa) teve, por exemplo, por causa da internet, e conseguiu se propagar mais facilmente.

A onda bateu tão forte no mundo ocidental que até a Lady Gaga, em seu último álbum, gravou uma música em parceria com um grupo de kpop, o Blackpink. Graças à era da internet, a Hallyu (onda da cultura coreana) se consolidou pelo mundo e, por isso, também ganhou dimensão política. "Há um movimento do pop sendo utilizado como ferramenta política. Temos que lembrar que existe o ativismo de fãs para fins de entretenimento, mas isso não impede que esse ativismo perpasse por pautas ideológicas e políticas da sociedade", observa Urbano."A utilização de hashtags e movimentação dos fãs de kpop e cultura asiática pelo mundo — especialmente na América Latina, no sentido de movimento político —, é uma consequência natural da onda coreana no Brasil. Há um desenvolvimento próprio e uma apropriação à brasileira, mas está consolidada."

Por isso, a comunidade também é muito heterogênea e marcada por pessoas que buscam fugir de padrões ocidentais, sejam de beleza ou de estilo de vida. "Uma coisa que une os fãs é que a maioria são pessoas que não se identifica com os padrões ocidentais. Elas não se sentem representadas pelas músicas brasileiras e americanas que a gente consome. São pessoas que gostam de conteúdo mais visual, com dança, com letras muitas vezes consideradas inocentes", diz Lucas Jotten, produtor cultural do ramo, em entrevista ao TAB.

Nessa heterogeneidade, há muitos fãs negros, principalmente entre os brasileiros, e o racismo é um debate presente — tanto o que afeta pessoas negras quanto o que ofende os asiáticos. "Ter acesso a uma cultura diferente cria uma nova perspectiva do que é o normal e faz as pessoas questionarem o preconceito sobre o diferente. É uma comunidade que também sofre racismo e homofobia, eles não se encaixam e têm uma visão diferente sobre a diversidade", aponta Jotten.

Na pele

Imenes é negra e conta que o racismo é uma pauta constante em sua produção de conteúdo, inclusive quando o assunto é o kpop. "A comunidade é formada por pessoas que estão inseridas em uma sociedade. Se essa sociedade é racista, é normal — apesar de não ser ideal — que ela reflita esse comportamento. Como acontece em qualquer outro lugar, a gente vai ter situações de preconceito e racismo", lamenta. "Falando como uma mulher negra na comunidade, vejo que não é comum as pessoas entenderem que é um espaço também para pessoas negras, o que é um conceito racista, como se existissem tipos específicos de música que podemos gostar e lugares que podemos frequentar. Mas temos direito a cultivar gostos diferentes."

Fã do BTS com tatuagem de henna da banda coreana - Mariana Pekin/UOL - Mariana Pekin/UOL
Fã do BTS com tatuagem de henna da banda coreana
Imagem: Mariana Pekin/UOL

Para ela, pessoas negras dentro da comunidade adicionam pluralidade à cultura do kpop, o que é uma vantagem. "É possível ocupar esse espaço e curtir, ter orgulho da própria negritude enquanto fã de kpop e acrescentar algo. Nossa identidade racial é nossa — e a gente não deixa de ser menos negro porque curte kpop. Nossa negritude não pode ser colocada em xeque nem por nós mesmos nem por ninguém", diz.

Na prática

Outro fator que favoreceu a mobilização da comunidade "kpopeira" nos protestos de 2020 foi o posicionamento dos idols. O BTS, conjunto de kpop mais popular do mundo, incomodou alguns fãs que já haviam criticado o grupo por uma polêmica envolvendo Suga, um de seus membros, que gravou uma música que citava o discurso de um supremacista branco estadunidense. A gravadora se desculpou. Outros grupos também já haviam sido acusados de praticar o blackface (quando pessoas brancas pintam o rosto para escurecer a pele e se passar por uma pessoa negra).

Após alguns dias de silêncio, o BTS defendeu a #blacklivesmatter no Twitter e anunciou uma doação para a causa. "Eles são influenciadores também. Tudo o que fazem impacta as pessoas que os seguem e os admiram", afirma Imenes. "O posicionamento de figuras de idols em assuntos sociais, raciais e políticos é um pontapé inicial para apresentar temáticas em que muitos fãs podem nunca ter se engajado, iniciar diálogos. É importante posicionamento, contanto que venha com ações — no kpop ou fora dele", conclui.

É curioso observar, também, como a legião de fãs subverte valores da realidade sul-coreana. No país, a busca por cirurgias plásticas e por ideais de beleza que passam pelo embranquecimento é alta. "Não podemos dizer que é uma sociedade com ideários de diversidade, mas alguns artistas vêm arriscando até sua popularidade para defender causas", afirma Urbano. "Poucos têm coragem, ainda há muita resistência na sociedade sul-coreana nesse sentido. Mas é interessante observar como os fãs dos Estados Unidos e do Brasil estão se utilizando de um produto de entretenimento para fins políticos e narrativas de pautas políticas locais", aponta. A pesquisadora lembra a presença de figuras da cultura otaku (japonesa) nos protestos no Chile em 2019, que também chamou a atenção da mídia e de outros fãs da cultura asiática.

Por serem influenciadores principalmente de pessoas jovens, Jotten espera que o posicionamento dos idols também mexa com a cabeça e com os valores das novas gerações para o lado positivo. "Acho que começaram a entender a importância da juventude. O jovem é muito forte e pode ocasionar mudanças na sociedade", opina o produtor cultural.

Para Urbano, o BTS representa um grande modelo de sucesso e é exemplo para a juventude do mundo todo. Por isso, o apoio das "armys" (fandom do BTS) pode ser positivo para o movimento antirracista. "Há um benefício a longo prazo. A comunidade do pop é imensa e, no recorte asiático, há um universo de fãs globais. Essas manifestações se tornam visíveis para um público não diretamente envolvido", afirma.