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É bonito ser feio? Estética imperfeita é pop e diz muito sobre nós

Bruna Maia, cartunista da Estar Morta - Juliana Fonseca/ Divulgação
Bruna Maia, cartunista da Estar Morta Imagem: Juliana Fonseca/ Divulgação

Natália Eiras

Colaboração para o TAB, de Lisboa

31/05/2020 04h00

Bruna Maia, a dona do Instagram Estar Morta, começou a desenhar em 2017, por uma sugestão de sua psicóloga. "Estava muito depressiva, passava o tempo inteiro obcecando com as coisas", conta a ex-jornalista e atual artista plástica ao TAB. Na época, ela não tinha técnica. Ainda assim, decidiu retratar momentos familiares para mulheres de 30 e poucos anos -- que precisam lidar com a ansiedade, a carreira e os "boys lixos". "Via alguns tutoriais, mas sem ficar muito preocupada se ia ficar feio ou não". E foi com linhas vistas pelos mais puristas como tortas que ela começou a tocar a sensibilidade de muitos de seus seguidores. "Não esperava fazer algum sucesso, mas as pessoas se identificaram com as situações que eu mostrava."

A artista é uma das representantes de um movimento que se popularizou na timeline do Instagram, mas que também está nas roupas que nós usamos -- o bucket hat e a calça cargo, por exemplo, eram vistos como feios até cinco anos atrás, mas agora estão no guarda-roupa de qualquer pessoa mais descolada. A WGSN, consultoria de tendências de consumo, chamou essa onda de "The Ugliness Rebellion" ("A Rebelião do Feio", em tradução literal para o português).

Mas o que é feio? O crítico de design e comentarista cultural Stephen Bayley escreveu, em seu livro "Ugly:The Aesthetics of Everything" ("Feio - A estética de todas as coisas', em tradução literal), de 2012, que a feiúra nasce do que vemos como ofensivo para a gente. "A palavra inglesa vem do nórdico antigo 'uggligr', que significa 'agressivo'. Coisas feias são aquelas que nós achamos perturbadoras. Mas, ao mesmo tempo, coisas perturbadoras também costumam ser interessantes", explica.

Assim, você entende como, por exemplo, axilas peludas ou a virilha sem depilar -- elementos que, por acaso, também estão presentes nas gravuras de Bruna Maia -- podem ser considerados feios pelos mais sensíveis. Em entrevista ao TAB, Marcelo Denny de Toledo Leite, pesquisador, curador e professor da ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), afirma que é tudo uma questão cultural. "No Ocidente, temos uma tradição greco-romana do que é belo."

Na Grécia antiga, matemáticos como Pitágoras e Euclides chegaram à teoria da Proporção Áurea, um padrão estético considerado agradável naquela época (e até hoje), encontrado em folhas, flores, animais e outros seres vivos da natureza. Mais tarde, a Proporção Áurea foi traduzida em uma sequência numérica chamada Fibonacci. Portanto, a nossa noção de beleza rigorosamente simétrica é uma equação matemática. Nem por isso, no entanto, ela é exata para todo mundo. "Ao redor do mundo, vamos encontrando outras belezas. Por exemplo, uma moça da tribo Maasai é considerada bonita ao ter várias argolas no pescoço. Este é o belo para esse povo. Enquanto a Gisele Bündchen pode ser feia para eles", afirma Leite. "Cada um tem uma ideia diferente do que é ideal."

Contravenção

Uma tatuagem de morcego mudou a carreira de Helen Fernandes. O desenho foi feito no ex-namorado, em sua casa. A antiga engenheira mecânica ficou conhecida como Malfeitona nas redes sociais, por conta de suas tatuagens cômicas -- cujos traços são semelhantes aos de desenhos infantis, com um pé no "tosco" dos anos 90 -- e cheios de referências da cultura pop. Mas a arte dela não agradou aos colegas mais conservadores. "Já fui ameaçada por causa do meu estilo", fala. Uma vez, teve que abrir mão de uma convenção de tattoo porque outros artistas fizeram um abaixo-assinado contra a participação dela. A resposta tão agressiva levou a artista a se subestimar. "Minha autoestima melhorou depois, por conta da validação externa, quando fui convidada para dar um curso no Sesc, para ajudar artistas a soltarem o traço. Foi quando comecei a me respeitar mais."

Em grupos mais especializados, o estilo de Fernandes é conhecido como "homemade tattoo" (tatuagem caseira) ou "ugly tattoo" (tatuagem feia). Apesar de ela não gostar de nomear o que faz, Malfeitona não fica ofendida com a rotulação. "Gera a discussão sobre o que é uma tatuagem bonita. É apenas um estilo. Por exemplo, a Mônica, da Turma da Mônica. Se você for ver, ela tem uma cabeçona esquisita, mas não é considerada feia, porque sua estética já é socialmente aceita. Então, por que um gato com cores chapadas é feio?", questiona.

Ela acha que a resposta está na história da tatuagem. A arte na pele surgiu e se popularizou com grupos marginalizados. Para tornar-se mais comercial, os tatuadores se profissionalizaram e os desenhos ficaram cheios de técnica e polidos. Porém, a tatuagem tem, em seu DNA, a rebeldia. "Mas, agora, está tão comum que o estranho é você ser descolado e não ter nenhuma tatuagem", diz.

Seu estilo se popularizou, segundo ela, porque as pessoas querem sair do lugar comum. "A gente quer sempre se destacar por algo. Queremos comunicar algo, mesmo rompendo uma estética tradicional. Tem quem goste de surfar e tatue o mar, e tem quem goste muito de miojo de tomate. As pessoas querem ser originais e gerar discussões."

Mais do que bonito, sublime

Apesar de ainda ser uma trajetória dolorosa, brincar artisticamente com o que é "feio" não é algo novo. O pintor norte-americano Jackson Pollock e a arte contemporânea inteira mostram isso, já que foram criticados por não refletirem técnicas que necessariamente seriam mais valorizadas.

De acordo com Marcelo Denny, é exatamente essa vontade de se posicionar que faz surgir a arte contemporânea. "Ela não está procurando o que é belo no sentido simétrico, de proporção. Ela está procurando novos sentidos, no campo simbólico, do pensamento". Assim, o que era feio acaba ganhando um novo sentido. "Porque aquilo suscita o pensamento, a poesia. É uma beleza mais como expressão do que uma imagem dada. Mais do que bonito, sublime."

No século 18, o filósofo alemão Immanuel Kant trouxe à tona uma nova categoria estética. "O conceito de sublime rivaliza com o belo. É uma beleza filosófica, muito mais subjetiva, e maior do que o simplesmente belo", opina Denny.

Em tempos de Covid-19, cenas como a de um rapaz com roupas de hospital, sendo aplaudido por médicos e enfermeiros de aventais, luvas e máscaras são consideradas bonitas porque são sublimes. "A situação, a cena, podem ser feias, mas há uma beleza subjetiva que é muito maior do que a ideia de belo."

Assim, o posicionamento entra em pauta até mesmo no tipo de arte que você gosta de compartilhar. Faz sentido: vivemos em uma época em que consumimos de marcas alinhadas com as nossas visões de mundo -- e em que empresas que não escolhem um lado estão fadadas ao fracasso.

O discurso entra, então, em uma camada tão importante quanto a assimetria ou técnica dos traços. Bruna Maia acredita que foi assim que conseguiu seu espaço. "O conteúdo pode ser até mais importante do que os meus desenhos, mas a arte faz a sua parte ali. Principalmente os desenhos sobre depressão, quando mostro a pessoa em posição fetal, ou em retratos como o de um homem de camisa florida. Todo mundo conhece alguém assim", afirma a artista.

E vai além: as pessoas abrem mão de consumir o que é bonito porque querem inserir novos corpos, novos cabelos, novas identidades de gênero. "O mundo se fragmentou muito depois dos anos 1960. Não havia mais um único modelo de comportamento jovem, por exemplo. Foram criadas várias gavetas. Mas, tem uma hora que aquela caixinha em que estou não contempla mais a minha subjetividade. Vou buscar, então, novas estéticas", conclui Leite.