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Moradores do Rio se unem para conter pandemia nas favelas cariocas

O Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, abriga um dos maiores conjuntos de favelas da cidade - Yasuyoshi Chiba/AFP
O Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, abriga um dos maiores conjuntos de favelas da cidade Imagem: Yasuyoshi Chiba/AFP

Matias Maxx

Colaboração para o TAB, do Rio

01/04/2020 04h48

O avanço do novo coronavírus no Rio de Janeiro soou um alarme nas favelas. Lideranças do Complexo do Alemão saíram à frente montando um Gabinete de Crise e indo à imprensa apontar que a economia informal, a concentração demográfica e principalmente o abastecimento irregular de água dificultariam medidas preventivas como o distanciamento social e a higienização nessas áreas.

Neste fim de semana, o diretor da Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro), Guilherme Campos, se reuniu na comunidade, prometendo aumentar de dois para nove o número de manobreiros de água (responsáveis por abrir e fechar manualmente os registros que abastecem o local) e disponibilizar carros pipa dentre outras medidas a médio prazo. Ainda assim, a falta d'água e conscientização continuam sendo problema nas mais de 700 favelas e comunidades carentes do Rio de Janeiro. Enquanto a União, o Estado e os municípios não chegam a um consenso nas medidas de combate ao vírus, a própria favela se organiza para realizar ações solidárias e campanhas de arrecadação.

No morro do Santa Marta, na Zona Sul, pias foram instaladas no principal acesso à comunidade, e só sobe quem lavar as mãos. "A comunidade toda tá preocupada com a higienização né? No mínimo, tem que lavar as mãos", explica o presidente da associação de moradores do morro do Santa Marta, José Mário Hilário dos Santos. "Estamos fazendo ação de pedidos de doação de alimentos não perecíveis, material de limpeza e higiene pessoal, que estamos distribuindo para nossa comunidade, minimizando aí o grande colapso financeiro do morador do Santa Marta. Até que as coisas voltem à sua normalidade o impacto econômico é muito grande, pois muitos trabalham na informalidade ou em casas de famílias como diaristas."

Pias e sabão foram disponibilizadas nos principais acessos ao morro do Santa Marta, em Botafogo - Divulgação - Divulgação
Pias e sabão foram disponibilizadas nos principais acessos ao morro do Santa Marta, em Botafogo
Imagem: Divulgação

Falta de tudo, menos campanha de conscientização

No dia 24 de março, foi publicada uma pesquisa realizada pelo Instituto Data Favela em 262 comunidades de todo o país, sob encomenda da CUFA (Central Única das Favelas). A pesquisa aponta que 97% dos moradores já mudaram a sua rotina por conta da pandemia. Segundo a pesquisa, quase 9 entre 10 moradores teriam dificuldades para comprar alimentos caso fiquem impossibilitados de trabalhar. Desses moradores, 53% têm filhos, numa média de 2,7 filhos cada. A suspensão de aulas nas escolas elevaram em 47% os gastos com alimentação nessas casas.

Famílias com idosos, mães solo, desempregados e casas com muitas crianças são prioridade na campanha "Mobilização Coletiva da Favela do Aço", uma comunidade de 10 mil pessoas no extremo da Zona Oeste carioca. A estudante de direito Moanan Couto é uma dos oito jovens do coletivo Levanta Aço, que além de recolher doações — que serão entregues diretamente nas casas dos moradores a partir desta semana, também realizam um trabalho de conscientização utilizando carros de som.

"Pretendemos, alertar a comunidade, mas o alimento será a primeira coisa que os manterá em casa nesse momento", explica a estudante que se queixa da falta de transparência. "Já há casos de covid-19 na comunidade e as clínicas da região estão mantendo em sigilo. Não estamos entrando nos números que estão sendo citados". Moanan também comenta que os comércios continuam abertos e, as ruas, cheias de crianças.

A situação é semelhante no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio. Bruna Gomes, moradora da região que responde pelas mídias da Marcha das Favelas — movimento que leva a discussão antiproibicionista para o lugar onde há maior impacto — também lançou uma campanha de arrecadação. Segundo ela, as aglomerações diminuíram em comparação com os dias antes do vírus, mas ainda existem. "O churrasquinho na calçada, o aniversário das crianças, tá tudo rolando normal. Enquanto na pista as ruas estão vazias e as pessoas estão em suas devidas casas, o pessoal aqui precisa trabalhar para comer. Isso leva ao movimento e circulação do vírus aqui, ou seja: quando estourar, sabemos onde o impacto será maior", opina.

Bruna Gomes (à esquerda) e outros colaboradores da campanha da Marcha das Favelas no Complexo da Penha, Zona Norte do Rio - Divulgação - Divulgação
Bruna Gomes (a esquerda) e outros colaboradores da campanha da Marcha das Favelas no Complexo da Penha, Zona Norte do Rio
Imagem: Divulgação

A falta d'água sempre esteve no cotidiano da Penha. "Em determinadas áreas só cai duas vezes na semana, em outras mais vulneráveis a água nunca nem chegou" explica. Gomes é autônoma, trabalha vendendo bebidas e balas na praia de Ipanema, que, assim como toda orla, está interditada por decreto estatal desde 21 de março. "Estou impossibilitada de ganhar o pão de cada dia. Muitos aqui se encontram na mesma situação. Mas é aquilo: falta políticas públicas, saneamento básico, acesso à energia, água, cultura e educação, como iremos nos preocupar ou precaver de um vírus sem esses direitos básicos? A política pública não chega aqui. No máximo a gente vê ela passar na TV."

Bianca Peçanha, da campanha "Jacarezinho contra o Coronavírus" conta que, na comunidade da Zona Norte carioca, o abastecimento de água também é irregular. "Estamos falando em barracos de madeira na linha do trem onde a fonte de água é um cano quebrado da Cedae que jorra água o dia todo, no meio da linha. Existem partes do Jacarezinho em situação muito precária". Ainda que não tenha havido baile funk no fim de semana passado, o comércio segue aberto e muitas crianças brincam na rua. "Vale ressaltar que essa é a dinâmica econômica do morro: muitas pessoas vivem do comércio local, dos eventos e tal. Além disso, muitas mães trabalham fora e com os filhos fora da escola, é a rua que abraça as crianças", relata.

"A galera continua jogando bola na rua, as praças estão cheias, as pessoas ficam conversando no portão de casa. Parece férias, na verdade. E temos de trabalhar na conscientização de forma árdua", conta o estudante de direito Thiago Alves, que também faz parte da campanha — e aponta que não tem rolado operações policiais dentro da comunidade. "O movimento ao redor do morro, porém, continua constante."

A rotina dos ativistas

A conscientização não é só sobre as formas corretas de higienização, mas também para desmentir as notícias falsas que colocam vidas em risco. Esse é o foco da campanha #Covid19nasFavelas, da rede Meu Rio, em prol do Coletivo Fala Akari e outros coletivos do Complexo da Maré, Complexo do Alemão, Duque de Caxias, Santa Cruz e Niterói. "Vamos pendurar faixas pela favela e deixar panfletos em comércios como padarias e farmácias, e também colocá-los por baixo das portas dos moradores", conta Buba Aguiar, do coletivo Fala Akari. O coletivo já participou da construção de dois pré-vestibulares comunitários e realiza ações culturais objetivando fomentar a cultura popular e de matriz africana no Complexo de Acari.

Ficar sem sair de casa não é novidade para Aguiar, que, em 2016, sofreu um sequestro relâmpago por três policiais militares por conta da sua militância denunciando violações de direitos humanos por parte do 41º Batalhão — apontado como o mais letal do Rio, segundo o relatório "Você matou meu filho", publicado em 2015 pela Anistia Internacional. "Tive minha rotina completamente alterada, morei em vários lugares, meu guarda-roupa eram duas malas sempre prontas pra alguma mudança repentina."

Após a execução de Marielle Franco, em 2018, Aguiar foi novamente retirada de casa. Os últimos posts da vereadora foram justamente denunciando as ações do Batalhão da Morte. "Fui afastada do trabalho, impedida de ir à faculdade, não podia ir numa padaria sozinha ou frequentar manifestações. Eu não podia simplesmente ficar na janela do quarto de onde eu estava. Em um dos lugares, um vizinho achava que eu era garota de programa, porque ninguém me via, e as poucas pessoas que iam me ver pareciam estar sempre escondendo alguma coisa. A coisa que eles escondiam era eu."

Hoje, não sair de casa não é uma opção para Aguiar e seus colegas do coletivo. "Os produtos não vão se comprar sozinhos", desabafa. "Temos que ir ao mercado, encomendar coisas e tudo mais. Além de arriscado, numa pandemia, é também muito cansativo."

Artistas periféricos também são impactados

Da necessidade em incentivar o suporte aos artistas que encontram-se em extrema vulnerabilidade por causa da desigualdade social associada à pandemia do coronavírus, surgiu a "Rede Rap Resistência Viva". A campanha foi lançada na última semana, com apoio de B.Negão e Drika Barbosa. Ela contempla seis artistas como prioridades e mais quinze a longo prazo.

Nayara Diniz, do Jacarezinho, conta: "A gente não tá explanando os artistas pois alguns se sentem desconfortáveis de falarem de suas dificuldades, principalmente se notarmos que, principalmente nos últimos anos, o hip-hop no Brasil valoriza muito um determinado padrão de vida, que não é a realidade da maioria dos artistas."

Segundo Diniz, uma artista beneficiada pelo projeto é mãe de uma menina de 11 meses. Elas chegaram a ficar dois dias sem alimentação. A artista se apresentava no transporte público, já não tinha creche para deixar a filha e, agora, está sem trabalho. "Um outro artista, mestre de cerimônias de uma roda cultural de grande relevância, digo que não está morando na rua literalmente porque ele tem passado a noite dentro de um carro", lamenta.

A rede também apoia um MC de batalha de 16 anos que era o principal provedor da família. "Teve uma fase em que ele quase entrou pro tráfico, mas decidiu se dedicar ao hip hop enquanto era atendente de um bar e complementava a renda vendendo empadas na roda cultural." Com o cancelamento do evento e o fechamento do bar, sua família ficou sem alimentos.

Preocupante também é o caso da DJ que perdeu cinco compromissos de trabalho agendados e ficou dias sem comida em casa. "O marido dela se preocupa com as filhas de outro casamento, que também precisam de ajuda. No momento, nem a pensão alimentícia tem sido possível de pagar, o que também o coloca em risco perante a Justiça", conta Diniz.

Faixa extendida no Jacarezinho, na Zona Norte do Rio de Janeiro - Divulgação - Divulgação
Faixa extendida no Jacarezinho, na Zona Norte do Rio de Janeiro
Imagem: Divulgação

A campanha tem rifa de artes doadas e programação diária de shows no Instagram, sempre às 16h20. "Uma oportunidade irada de assistir apresentações de rap todos os dias, de graça. Pedimos pra quem curte o trabalho fortalecer com as doações."

Questionados sobre a circulação de mensagens de WhatsApp atribuídas a traficantes decretando toque de recolher, apenas um dos entrevistados desta reportagem se absteu de comentários, enquanto os demais disseram que são fake news. "Pelo menos aqui onde eu moro é caô, mas valeu a risada" afirmou um.