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Da IA ao espaço: especialistas comentam obra póstuma de Stephen Hawking

AFP
Stephen Hawking escreveu sobre o universo ao longo de sua carreira Imagem: AFP

Kaluan Bernardo

Do TAB, em São Paulo

29/11/2018 04h00

"Para meus colegas, sou apenas outro físico, mas para o público em geral, me tornei possivelmente o mais conhecido cientista do mundo", avisa o pouco modesto Stephen Hawking no prefácio de seu livro póstumo "Breves Respostas para Grandes Questões" (Ed. Intrínseca), lançado no Brasil no final de outubro.

Mas há uma explicação, como tudo em sua obra: "Isso acontece, em parte, porque cientistas, exceto Einstein, não são rockstars amplamente conhecidos; e em parte porque me encaixo no estereótipo de gênio deficiente. Eu não posso me disfarçar com uma peruca e óculos escuros — as cadeiras de roda me entregam", brinca.

Em seu novo livro há textos, entrevistas e trabalhos não finalizados, reunidos e completados por familiares e amigos, sobre grandes questões da humanidade.

Ao todo, são dez perguntas que o cientista desafia: "Existe um Deus?", "Como tudo começou?", "Há outras vidas inteligentes no universo?". "Nós conseguimos prever o futuro?", "O que há dentro de um buraco negro?", "Viagem no tempo é possível?", "Nós sobreviveremos na Terra?", "Deveríamos colonizar o espaço?", "Inteligência artificial vai nos superar?" e "Como devemos moldar o futuro?".

Não são questões triviais. Porém, Hawking sempre responde, abertamente, sob a ótica da ciência. "Não só é importante fazer perguntas e encontrar respostas, mas, como cientista, me senti obrigado a comunicar para o mundo o que estávamos aprendendo", escreve.

A linha condutora de "Breves Respostas para Grandes Questões" é seu otimismo e forte crença na ciência para garantir o futuro da humanidade. Ele faz sua parte, deixando como legado os caminhos que traçou em busca de respostas.

Zero Gravity/AP
Em 2007, Hawking realiza, aos 65 anos, um de seus sonhos: flutuar. A experiência ocorreu na Flórida (EUA) em vôo num jato da Nasa que simula ausência de gravidade Imagem: Zero Gravity/AP
O legado de Stephen Hawking

Stephen Hawking foi autor de best-sellers de ciência e físico na Universidade de Cambridge. Seu livro mais conhecido, "Uma Breve História do Tempo", vendeu mais de 20 milhões de cópias em 40 idiomas.

Hawking nasceu exatos 300 anos após Galileu Galilei e faleceu, aos 76 anos, em 18 março de 2018 — aniversário de Albert Einstein.

Vítima de esclerose lateral amiotrófica, uma rara doença degenerativa que paralisa os músculos, viveu em uma cadeira de rodas elétrica e era capaz de se comunicar graças a um software que lia pequenos movimentos musculares e traduzia em palavras.

A imagem de um cientista com tantas limitações físicas, mas com uma mente genial que ia aos mais longínquos lugares do universo e nos ajudava a compreendê-lo, ganharam admiração e alimentaram o imaginário de muitas pessoas interessadas em ciência.

Para Rodrigo Nemmem, professor de astrofísica no IAG-USP (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências da Universidade de São Paulo), Hawking teve importantes papéis tanto como cientista quanto como comunicador. "Foi um grande popularizador da ciência. Enquanto figura pública, conseguiu atingir grande parcela da população com seus livros, abrindo espaço para a divulgação da física", diz. "Suas principais contribuições científicas foram a respeito da nossa compreensão da gravidade, em particular dos buracos negros", conta.

Marcelo Gleiser, professor de física e astronomia na Universidade Darthmouth e colunista da Folha, destaca a descoberta da chamada Radiação Hawking. "Ele determinou que buracos negros podem emitir radiação, algo que não se imaginava possível antes. Ainda não verificamos se esta previsão está correta. Mas é um conceito importante, pois explica que buracos negros não vivem indefinidamente, mas vão evaporando aos poucos", comenta.

Nem os buracos negros são eternos. E essa descoberta nos ajuda a entender o começo do universo.

Hawking discutia, a partir dos buracos negros, a singularidade. "Trata-se de uma concentração de energia, em um único ponto no espaço. Se ela existe, é um ponto onde as leis da física como conhecemos deixam de ser válidas", diz Nemmem. "E Stephen Hawking, junto com Roger Penrose, demonstrou que a mesma singularidade do início do universo pode estar dentro de um buraco negro", comenta. É a partir daí que Hawking sugere o Big Bang como início de tudo, inclusive do tempo e do espaço — afinal, o tempo também tem um nascimento.

A maioria das descobertas de Hawking em relação a buracos negros são descritas no prefácio do livro por Kip Thorne, colega de Hawking e um dos responsáveis pela detecção de ondas gravitacionais em 2015. Ele fala do final da década de 1960 e 1970, que ficou conhecida como 'era de ouro dos buracos negros'.

Nemmem descreve: "Foram tempos em que houve um grande avanço na nossa compreensão de como é o funcionamento das leis físicas que regem os buracos negros. Houve uma metralhadora de descobertas que ajudaram a compreender o papel dos buracos negros na astronomia. Começaram a entender que não são meramente ornamentos nas equações, mas que desempenham papel muito importante no universo que observamos", comenta.

Sarah Lee/Science Musem/AP
Stephen Hawking faleceu em março de 2018 Imagem: Sarah Lee/Science Musem/AP

Olhando para o futuro

Embora reconheça que, matematicamente, parece ser impossível prever o futuro, Hawking arrisca pensar e propor soluções para possíveis futuros. Quando fala em colonizar o espaço, por exemplo, acredita que é uma questão de sobrevivência da espécie. "Uma vez fui citado dizendo que eu temo que a raça humana não terá um futuro se não formos para o espaço. Eu acreditava nisso, e ainda acredito".

Para ele, é apenas uma questão de perspectiva. Se a espécie humana surgiu há aproximadamente 2 milhões de anos e a civilização há 10 mil, não é difícil pensar em humanos colonizando o espaço nos próximos milhões. "Nosso futuro está em, ousadamente, ir até onde ninguém foi antes. Eu espero pelo melhor. Eu preciso. Não temos outra opção", diz.

Esse movimento de olhar para o futuro e imaginá-lo é um exercício que Hawking faz diversas vezes. Ele nos alerta sobre o risco de criarmos uma raça de super-humanos; de desenvolvermos inteligências artificiais que nos aniquilem ou mesmo de não sobrevivermos às mudanças climáticas. Tais exercícios hoje podem ser compreendidos como parte de uma ciência chamada futurologia.

"A futurologia não é uma disciplina que prevê o futuro, mas sim que consolida tendências de modo a auxiliar a construir um futuro desejável", explica Lídia Zuin, futuróloga e doutoranda em Artes Visuais na Unicamp. "A maioria dos futurólogos não focam em dizer quando determinada tecnologia será inventada, mas sim em fazer análises do cenário presente, de projetos e de pessoas que já estão desenvolvendo novas tecnologias e que podem impactar a sociedade", diz.

Zuin vê relação estreita entre a ciência defendida por Hawking e a desenvolvida por futurólogos. "Quando tratamos de ciência, falamos de uma noção filosófica de produção de conhecimento, e quando o futurólogo pesquisa tendências que ocorrem tanto no âmbito social quanto científico e tecnológico, ele está produzindo conhecimento que nos orienta a construir de cenários ideais para o futuro".

Dentro desse espectro, Hawking age como um futurólogo. Ele nos avisa dos possíveis impactos da tecnologia e da ciência no futuro, para nos orientar a viver em um mundo no qual a raça humana ainda possa continuar existindo de forma harmônica. E, para ele, a ciência é a força motriz de tudo isso. "Somos todos viajantes do tempo, viajando juntos ao futuro. Mas vamos trabalhar juntos para fazer do futuro um lugar que queremos visitar", comenta no livro. No entanto, há alguns desafios grandes pela frente.

AP Photo/Lefteris Pitarakis
Stephen Hawking na abertura das Paraolimpíadas de 2012 Imagem: AP Photo/Lefteris Pitarakis

Teremos que regular o futuro?

Hawking acredita que, a princípio, computadores podem emular inteligência humana. E que, seguindo a lógica da evolução, toda nova inteligência será mais avançada de que a de seus antecessores. Se nós somos mais evoluídos do que nossos ancestrais primatas, quem será mais inteligente que nós? Talvez as máquinas.

Para seu argumento, Hawking recorre à Lei de Moore, que prevê computadores capazes de dobrar sua velocidade de processamento e memória a cada um ano e meio. A lei hoje é contestada, mas é fato que os computadores continuam a evoluir muito rapidamente. Se for mantido esse ritmo, Hawking aposta que a inteligência artificial irá ultrapassar a humana ainda no próximo século.

"Quando isso acontecer, precisaremos garantir que os computadores tenham objetivos alinhados com os nossos. É tentador tratar a ideia de máquinas muito inteligentes como mera ficção científica, mas isso seria um erro, e possivelmente nosso pior erro de todos", alerta, enquanto diz que a inteligência artificial pode ser a maior ou a pior criação humana de todos os tempos

Mas, como garantir essa "evolução responsável" da inteligência artificial? Para Dennys Antonialli, doutor em direito constitucional pela USP e diretor do InternetLab, organização que estuda relações entre direito e tecnologia, é necessário ficar atento a regulações, mas com ponderação. "O potencial disruptivo dessas tecnologias é imenso. Por essa razão, muitas vezes, a sua chegada pode vir acompanhada de pânico e pressão de determinados segmentos da sociedade. O legislador não deve se deixar guiar apenas por isso", comenta.

A saída está em produzir estudos que prevejam os impactos de tais tecnologias. "É impossível saber como se deve agir a respeito de algo que ainda não surgiu, e se preparar para o futuro também passa por gerar bons diagnósticos a respeito do presente. Isso não significa que não existam casos em que o legislador não possa atuar de forma rápida. Muitas vezes, essas decisões podem se basear em experiências análogas com outros tipos de tecnologias ou em outros segmentos, ou na experiência de outros países. O ponto é que essas decisões devem sempre estar lastreadas em evidências e não em especulações ou mera futurologia. A intervenção legislativa deve ser precisa e zelar pela preservação de direitos. Mas é preciso reconhecer o potencial da inteligência artificial para além do pânico e da distopia. O legislador não pode ser tecnofóbico", defende.

Um futuro desejável

Para Hawking, um futuro melhor passa obrigatoriamente pela ciência. O problema, segundo ele, é que "educação, ciência e pesquisas em tecnologia estão mais em risco do que nunca" graças à falta de investimentos de diferentes governos. O cientista, inclusive, critica diretamente Donald Trump e o Brexit, classificando-os como ameaças ao futuro da educação.

Outros cientistas ouvidos pelo TAB mostraram preocupações semelhantes. É o caso de Nemmem. "Às vezes sou pessimista, às vezes otimista em relação ao futuro. A ciência e a tecnologia têm grande potencial, mas o problema tem sido o comportamento de políticos e populações que negligenciam a importância da ciência", comenta.

Para Nemmem, é importante grandes nomes, como Hawking, alertando sobre a importância da ciência. "Me tornei astrofísico graças a leituras de nomes como Isaac Asimov e Carl Sagan. Faço minha parte para a divulgação da ciência por acreditar que é essencial inclusive para nossa evolução enquanto espécie. Já estamos indo para o apocalipse das mudanças climáticas, por exemplo", comenta.

Hawking também tem tais preocupações. "Sem especular muito, há tendências que vemos e problemas que sabemos que precisamos lidar, hoje e no futuro. Entre eles, posso enumerar o aquecimento global, encontrar espaço e recursos para a crescente população humana na Terra, a rápida extinção de outras espécies, a necessidade de desenvolver fontes de energias renováveis, a degradação dos oceanos, o desmatamento e doenças epidêmicas — só para nomear alguns", diz.

Mas há otimismo em relação ao futuro que nos aguarda. "Eu não acredito em limites, tanto para o que podemos fazer em nossas vidas pessoais quanto para o que a vida e a inteligência podem alcançar no universo. Estamos no limiar de importantes descobertas em todas as áreas da ciência. Sem dúvidas, o mundo vai mudar muito nos próximos 50 anos. Iremos descobrir o que aconteceu no Big Bang. Iremos entender como a vida começou na Terra. Poderemos até descobrir se a vida existe em algum outro lugar no universo. Embora as chances de nos comunicarmos com vidas inteligentes extraterrestres pareçam pequenas, a importância de tal descoberta significa que não podemos parar de tentar. Nós continuaremos a explorar nosso habitat cósmico, enviando robôs e humanos para o espaço. Não podemos continuar a olhar para nós em um planeta poluído e superpopuloso. Pelas iniciativas científicas e inovação tecnológicas, deveremos olhar para fora ao grande universo, enquanto tentamos corrigir os problemas da Terra. Eu sou otimista que poderemos criar habitats viáveis para a raça humana em outros planetas. Iremos transcender a Terra e aprender a existir no espaço", defende Stephen Hawking no final de sua última obra.

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