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Como investir com um robô pode mexer com o seu bolso e o seu emocional

Di Vasca/UOL
Imagem: Di Vasca/UOL

Letícia Naísa

Do TAB, em São Paulo

2019-04-23T04:02:00

23/04/2019 04h02

Em tempos de crise, qualquer trocado pode ser fortuna. Educação financeira ainda é uma prática pouco comum no paraíso das poupanças e das dívidas, mas se surgisse uma ferramenta que pudesse de gerir o seu dinheiro com ganhos maiores e mais facilidade? Com ajuda da tecnologia, há quem garanta essa promessa: os robôs de investimento. Seja para quem tem muita grana ou para quem tem pouca, a certeza da máquina é apenas uma: controlar os impulsos de quem investe.

"O investidor é muito impactado pelas emoções. Principalmente o investidor não profissional. Ele está investindo o dinheiro que juntou, ele está ralando e investindo o que ganhou ali. Você não quer perder dinheiro, e o tempo todo você tem medo", afirma Mateus Lana, fundador do robô trader SmarttBot, que coloca o pequeno investidor no mercado de gente grande: a Bolsa de Valores.

O jogo do mercado é muito impactado pelas emoções dos jogadores, dizem os especialistas. E investir dinheiro funciona quase como uma aposta, nada é garantido. Um dia você ganha e no outro pode perder. Por isso, a tecnologia surge como um ajudante na missão de fazer quem quer investir perder o medo e pensar em boas formas de investimento.

Autômato não tem estresse

"Um robô não lida com fatores emocionais, ele pode ser programado para esperar determinadas reações do mercado. Então para pessoas impulsivas, vale a pena essa ajuda", afirma Vera Rita de Mello Ferreira, especialista em psicologia econômica e professora da B3 (a antiga Bovespa). "Só é preciso respeitar a decisão do robô. Na hora do vamos ver, a pessoa entra em desespero e tenta alterar a programação do robô", diz.

"O medo é um sentimento que atrapalha muito, mas o contrário também é ruim. A ganância atrapalha. Quando você ganha uma, duas vezes, você pensa que podia ter colocado mais, pega dinheiro emprestado e acha que isso significa casa nova, viagem e começa a se endividar, pega um dinheiro que não pode e coloca na renda variável e perde tudo"

Matheus Lana

Há, portanto, um embate forte sobre o conflito de interesse, uma vez que quem opera os robôs são humanos como todos nós. "Toda vez que você tem um mercado controlado por algoritmo, você vai conviver com vieses de um pequeno grupo de decisores, de como vai ser a estratégia desse algoritmo e, em algum momento, isso vira uma caixa preta, você começa a ter resposta, mas não entende como isso chegou", diz Arthur Igreja, especialista em tecnologia, inovação e finanças da FGV (Fundação Getúlio Vargas). "Entregar totalmente a decisão ao algoritmo, tem uma dose saudável. Quando está no suporte é bacana, mas totalmente é um risco", avalia.

Maior a aposta, maior o desastre

Confiar cegamente no robô pode ter seu preço. Em 2013, uma postagem no twitter da agência de notícias Associated Press (AP) foi capaz de abalar o mercado financeiro americano. Uma mensagem de 71 caracteres conseguiu causar um estrago em Wall Street e fez a Bolsa de Valores norte-americana despencar. O tweet dizia que havia acontecido uma explosão na Casa Branca e que o presidente Barack Obama estaria machucado.

Bastaram poucos minutos para que a notícia fosse desmentida e a AP admitisse que havia sido hackeada. A agência recuperou sua conta e apagou a notícia, mas o impacto no mercado foi intenso. O índice Dow Jones industrial caiu 143 pontos, e o índice S&P 500 perdeu capital de US$ 136,5 bilhões.

Reprodução
Tweet hackeado da agência de notícias Associated Press que afetou a Bolsa de Valores dos EUA Imagem: Reprodução

Em apenas seis minutos, o estrago foi feito e desfeito. Os grandes players do mercado voltaram a ganhar dinheiro rapidamente. Para especialistas, o fato mostra que o mercado norte-americano foi dominado por robôs responsáveis por investimentos. "Foi tão instantâneo que claramente foi robô. Foi muito rápido para alguém ler aquilo ali e tomar alguma ação", afirma Lana.

Cerca de 70% das operações americanas hoje são feitas por meio dos chamados robôs traders. No Brasil, as operações de alta frequência (feitas por algoritmos) representam cerca de 33% das operações da B3, a Bolsa de Valores brasileira. Assim como os bancos se digitalizaram, a bolsa brasileira também passou por um processo de informatização nos últimos 20 anos. O pregão com um monte de gente gritando e correndo para negociar ações ficou para trás.

Velocidade como trunfo

Para especialistas da B3, foi um processo de evolução até aqui. "Uma das consequências diretas foi o aumento do número de ofertas enviadas para o ambiente da B3 e aumento do número de negócios realizado nosso ambiente. Hoje, o número de negócios é muito maior do que há cinco anos", afirma Mario Palhares, diretor de operações da B3.

Neste contexto, velocidade pode ser um trunfo. Tem mais chance de ganhar quem tiver o robô mais rápido para fechar negócio. "Tem uma história de grandes bancos nos EUA brigando por um prédio que ficava perto de um instituto que dava um índice de desemprego porque quando mais perto desse prédio, mais rápido eles iam receber a informação e poderiam processar uma operação no mercado", afirma Igreja.

No Brasil, a velocidade de alcance dos robôs ainda não é prioridade para todo tipo de investidor da Bolsa, segundo Palhares. "É importante para quem tenta arbitrar mercados diferentes. O robô serve para uma facilidade operacional para o investidor", diz.

Capta os sinais e o dinheiro

Para além da velocidade, a chave de ouro para quem quer ganhar dinheiro está no processamento de informações. "Os robôs percebem movimentos que um analista não consegue. Eles estão tentando ler notícias e captar sinais perigosos, como um escândalo com político, eles ganham a capacidade de ler notícias justamente para atuar no mercado de forma mais rápida", afirma Igreja.

Segundo especialistas, ainda não há robô que possa prever o futuro. Há, porém, aqueles que podem aprender com o passado. Professor de engenharia de softwares do IFMG (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais), Alexandre Pimenta desenvolveu sistemas computacionais de estratégias automatizadas para conseguir dinheiro com investimento na Bolsa durante seu doutorado. Apesar de não fazer milagre, o projeto, batizado de Capital Inicial, apresentou ganhos "razoáveis", diz Pimenta. "É difícil para um robô fazer uma previsão diária. Existem os insiders, que são pessoas que sabem o que está acontecendo no mundo e tomam decisões, mas o nosso robô trabalha apenas com a série histórica e, por meio dessa série, toma decisões", explica o pesquisador.

Neste contexto, dizem os especialistas, é difícil um robô prever o que acontecimento geopolítico pode fazer com os índices do mercado, mas poderia prever uma queda de ações da Vale levando em conta o que aconteceu em Brumadinho (MG), para citar um exemplo mais recente.

"Não tem como um robô prever o futuro e a variação do mercado. Qualquer coisa pode fazer o mercado cair ou subir. O [Rodrigo] Maia falando que o [Jair] Bolsonaro tá de brincadeira é um motivo para cair o mercado", afirma Tito Gusmão, CEO da Warren, plataforma online de investimentos. "Ninguém, a não ser o Maia, pode saber o que vai dizer para influenciar o mercado. O que os robôs podem fazer, assim como boas estratégias de investimento, é preparar o portfólio de investimento para dias terríveis de chuva e dias de sol."

Meu robô, meu conselheiro

Para ajudar a bolar uma boa estratégia, a tecnologia também já está à disposição na forma dos robôs chamados advisors (orientador, em inglês). Por meio de uma análise de perfil do investidor e dos objetivos do cliente, o robô determina para onde deve ir cada fatia do dinheiro aplicado, dividindo-o entre opções de maior, médio e menor risco.

Este tipo de robô está mais acessível para quem tem pouco dinheiro para operar. A teoria base, chamada de Teoria Moderna do Portfólio, para esse tipo de robô data de muito antes da sequer existência dos computadores como os conhecemos hoje e foi vencedora de um Prêmio Nobel de Economia nos anos 1990. Basicamente, os advisors usam a tecnologia para aplicar a fórmula da teoria e dividir os ovos em diferentes cestas.

"Era muito caro aplicar essa fórmula, ela é muito complexa, precisa de muitos dados, muito conhecimento, então pra ter esse tipo de investimento era um cara que tinha muito dinheiro, muito investimento. Tudo era feito na unha, precisava de um capital intelectual muito forte pra fazer isso. Os robôs advisors pegaram o benefício da tecnologia para permitir fazer isso com pouco dinheiro, automatizou todo esse processo"

Matheus Lana

Os advisors são uma opção para quem tem menos grana e quer investir como pessoa física. Há, no Brasil, pelo menos cinco empresas que oferecem esse tipo de serviço. Não existe uma contagem certa de quanto dinheiro de quantos clientes todos esses robôs juntos operam no país, mas não é pouco. A Rico Investimentos, corretora de investimentos que opera o robô R8, hoje opera cerca de R$ 270 milhões. A Warren, que não se considera um advisor, mas usa algoritmo para operar dinheiro, tem sob gestão R$ 300 milhões e quer bater a meta de R$ 1 bilhão até o fim do ano. No caso de ambos os serviços, os clientes são pessoas físicas e o investimento mínimo é de R$ 100.

A eficiência do robô, no entanto, está mais nas mãos de quem o programa do que do investidor. "A inteligência que está por trás não é artificial, é humana ainda. O algoritmo vai ser tão eficiente quanto for o ser humano que o programou. Ele pode aprender a partir de novos dados, mas a inteligência ou a eficiência vai depender do programador", afirma Caio Ramalho, coordenador do FGVnest - Núcleo de Estudos em Startups, Inovação, Venture Capital e Private Equity da FGV.

Para Luciano Tavares, fundador da Magnetis, um serviço de robô advisor, o futuro reserva uma divisão de tarefas no mercado financeiro entre especialistas humanos e a tecnologia. "Por trás de robôs têm seres humanos, estamos pegando o que o humano faz e deixando mais eficiente", afirma. "Uma analogia: procurar um livro ou dar um Google para tirar uma dúvida? O Google é mais rápido, te dá uma resposta em milissegundos. O paralelo para os investimentos é semelhante."

A regra não é clara

Há um debate nos maiores mercados do mundo sobre como legislar sobre os robôs que cuidam do dinheiro como o conhecemos. No Brasil, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) é um dos principais órgãos reguladores do setor de administradores de carteiras. E nem mesmo a própria tem uma resposta específica sobre a lei perante os robôs. Em nota, afirma que a regulação se aplica dependendo do papel desempenhado pela máquina (seja consultor, tomador de decisão ou apenas intermediário), mas que acompanha os debates a respeito do tema.

Nos Estados Unidos, alguns episódios envolvendo manipulação de mercado, levantaram o debate sobre regulamentação dos robôs de investimentos. Em 2010, as operações por algoritmos foram acusadas de causar uma queda trilionária na Bolsa americana. Em um relatório, a CTFC (Comissão de Negociação de Futuros de Commodities, na sigla em inglês) e a CVM norte-americana afirmaram que um algoritmo usado por um operador não funcionou da forma esperada.

Para Igreja, os desastres causados pela automatização do mercado financeiro podem ser tão graves quanto um acidente de avião. "Quando você confia mais no software, como o que está acontecendo com a Boing, por exemplo, no geral, o sistema se torna mais confiável. Mas quando acontece uma falha, ela é muito grave. Essa metáfora me parece caber no mercado financeiro. Para o investidor, vai gerar ganhos maiores, mas o potencial de falha se der algo errado, é assustador", afirma.

Para contornar o problema, dizem os especialistas, é preciso repensar as regras do jogo. "É importante que o mercado seja bem regulado. No Brasil, há um monopólio. A B3 é a única Bolsa e não dá liberdade para fazer atividades consideradas perigosas", opina Cristiano Arbex, especialista em finanças quantitativas. "As pessoas vão aprendendo com os erros, e os mercados vão aprendendo com os erros."

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