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Brasil tem seu Vale do Silício com urna eletrônica e "sinhá visionária"

A 400 km ao sul de Belo Horizonte, Santa Rita do Sapucaí é a versão mineira do Vale do Silício californiano - Fabiana Maranhão/Colaboração para o TAB
A 400 km ao sul de Belo Horizonte, Santa Rita do Sapucaí é a versão mineira do Vale do Silício californiano Imagem: Fabiana Maranhão/Colaboração para o TAB

Fabiana Maranhão

Colaboração para o TAB, de Santa Rita do Sapucaí (MG)

04/10/2019 04h01

Era uma vez uma pequena cidade do interior de Minas Gerais que tinha sua economia baseada na agropecuária. No fim da década de 1950, a mudança chegou com a inauguração de escola técnica de eletrônica, a primeira do Brasil e da América Latina.

Santa Rita do Sapucaí, a 400 km ao sul de Belo Horizonte, é a versão mineira do Vale do Silício californiano, um pólo de tecnologia e inovação reconhecido mundialmente que abriga 153 empresas de tecnologia. Juntas elas faturam R$ 3,2 bilhões ao ano, segundo o Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Vale da Eletrônica.

Para se ter uma ideia, o Porto Digital, no Recife, que é considerado o maior pólo tecnológico do Brasil, abriga 328 empresas com cerca de 10 mil colaboradores. No ano passado, o faturamento estimado dessas empresas foi de R$ 1,9 bilhão. Santa Rita do Sapucaí é maior.

Outro dado relevante: o salário médio dos trabalhadores formais em Santa Rita do Sapucaí estava em 2,4 salários mínimos (R$ 2.248,80) em 2017, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em MG, o rendimento mensal domiciliar per capita era de R$ 1.322 em 2018.

Como tudo começou

Pacata e de gente gentil, a cidadezinha foi transformada por iniciativa de uma mulher. A ideia de construir a ETE foi de uma sinhá, Luzia Rennó Moreira, conhecida como Sinhá Moreira, sobrinha do ex-presidente Delfim Moreira. "Naquele momento, o pai de Sinhá Moreira era o homem mais rico do Brasil. Era um banqueiro. Eles vêm de uma família muito poderosa", conta o jornalista e escritor Carlos Romero, autor de seis livros de histórias sobre a cidade.

Sinhá Moreira viajou o mundo com o marido, que era secretário de embaixada. Voltou a Santa Rita ao se separar e trouxe com ela a vontade de fazer algo por sua cidade natal. "Ela tinha um amigo médico, chamado Walter Telles, que tinha ido aos EUA assistir a uma palestra com [Albert] Einstein, que falou que o futuro giraria em torno de algo que ninguém sabia o que era ainda, que era a tecnologia. Então ela resolveu criar uma escola de nível médio voltada para esse setor".

Como na época não havia classificação de escola de nível técnico, Sinhá Moreira apelou para o então presidente Juscelino Kubitschek. "A família dela era de um partido contrário ao Juscelino. Só que a família era muito respeitada no meio político. E ela conseguiu autorização dele [do presidente] para construir essa escola."

A ETE começou a funcionar em 1959, e Sinhá Moreira morreu três anos depois. "[A ETE] teve um impacto muito forte na sociedade na época, principalmente para os jovens, porque, da noite para o dia, começou a desembarcar gente de todos os lugares, hippie, político, músico, para estudar aqui."

Dois anos mais tarde, em 1965, surgiu o Inatel (Instituto Nacional de Telecomunicações) e, no começo da década de 1970, a FAI (Centro de Ensino Superior em Gestão, Tecnologia e Educação).

A cidade mineira foi pioneira nas pesquisas em 5G, a futura geração de internet móvel - Fabiana Maranhão/Colaboração para o TAB
A cidade mineira foi pioneira nas pesquisas em 5G, a futura geração de internet móvel
Imagem: Fabiana Maranhão/Colaboração para o TAB

Cidade estudantil e sem empregos

Com o tempo, Santa Rita ficou conhecida como uma cidade estudantil. "Estudantes vinham do Brasil inteiro, formavam-se e imediatamente iam embora porque não tinha emprego pra eles em tecnologia", lembra Rogério Abranches da Silva, coordenador do Núcleo de Empreendedorismo e Inovação do Inatel.

O cenário começou a mudar no começo da década de 1980, quando um prefeito da época, inconformado com a "fuga de cérebros", mobilizou as instituições de ensino, conhecidos seu da área de publicidade e as poucas empresas de tecnologia que existiam na época, dando origem ao "Vale da Eletrônica".

"Foi um momento muito fértil em Santa Rita, nos bares, nas repúblicas, só se falava em criação de empresas", recorda Silva.

'Vale do Silício brasileiro'

Uma das tecnologias que nasceu em Santa Rita foi a da TV Digital. A primeira solução de transmissão digital do Brasil foi criada lá. A primeira transmissão experimental no país, também.

A cidade também foi pioneira nas pesquisas em 5G (só Florianópolis teve a tecnologia antes), a futura geração de internet móvel, que vai substituir o 4G que usamos hoje. "O Inatel foi o primeiro a pesquisar o 5G de forma estruturada, com objetivos claros e voltados para o Brasil", afirma Luciano Leonel, coordenador do Centro de Referência em Radiocomunicações do instituto.

Os estudos começaram em 2015, com o foco em encontrar soluções voltadas a áreas remotas, onde o acesso à internet é limitado. Um protótipo desenvolvido pelo instituto, para levar internet para zonas rurais, chegou a ser premiado internacionalmente.

"Em 2017, fizemos a primeira demonstração de viabilidade técnica em Brasília, mesmo faltando uma série de funcionalidades. Também em 2017 levamos esse receptor a uma competição na Finlândia. Fomos um dos finalistas. No total, foram oito projetos selecionados para essa final, sendo sete europeus e o nosso, e saímos com o primeiro lugar, como solução mais flexível para atender as demandas do 5G", conta Leonel, com orgulho.

Em maio de 2019, o sistema de transmissão desenvolvido pelo instituto possibilitou que os cerca de 80 alunos da Escola Municipal Mariquinha Capistrano, localizada na zona rural de Santa Rita, a 8 km do centro da cidade, pudessem acessar à internet pela primeira vez dentro da escola e com cobertura 5G. "Também construímos três canteiros de horta inteligente. Cada canteiro tem sensores de umidade do solo, e os alunos podem ligar o sistema de irrigação, usando a internet, para garantir que a quantidade de água que cada cultura necessita sempre esteja presente."

Luciano Leonel, coordenador do Centro de Referência em Radiocomunicações, e o transmissor 5G - Fabiana Maranhão/Colaboração para o TAB
Luciano Leonel, coordenador do Centro de Referência em Radiocomunicações, e o transmissor 5G
Imagem: Fabiana Maranhão/Colaboração para o TAB

Montagem de urna eletrônica

A maioria das pessoas com quem conversei na cidade usou a palavra "colaboração" para explicar o sucesso de Rita do Sapucaí. "Enquanto escrevia o livro [sobre a cidade], entrevistamos mais de cem pessoas, de todas as idades, e percebi que a história era sempre muito parecida; era sempre a cidade se mobilizando em torno de um projeto ou de uma ideia", afirma Carlos Romero.

A colaboração foi decisiva para a formação e desenvolvimento do arranjo produtivo local que existe ali. "No passado, Santa Rita tinha empresas que faziam coisas diferentes. Elas não eram concorrentes entre si. Então, elas começaram a dizer 'Ah, você tem tal componente? Tenho. Eu também tenho. Vamos comprar junto para comprar em escala maior? Vamos!''. Surgiram então empresas que desenvolviam partes de um produto para fornecer para várias empresas. E formou-se, ao longo dos anos, um arranjo produtivo local", detalha Carlos Nazareth, diretor do Inatel.

Este é o caso da fábrica das urnas eletrônicas usadas durante as eleições, montadas em Santa Rita. "[A colaboração esteve presente] na criação das escolas, entre as décadas de 1950 e 1970. Depois repetiu-se na industrialização, quando a cidade ainda não estava preparada para isso e, da noite para o dia, empresas de todos os portes começaram a chegar aqui, e isso tem acontecido no Cidade Criativa, Cidade Feliz", diz Carlos Romero.

O Cidade Criativa, Cidade Feliz é um movimento colaborativo criado há sete anos. "Começou com o propósito de estabelecer a economia criativa e melhorar a qualidade de vida das pessoas, com ampla liberdade para os atores atuarem e em um modelo, que eu entendo que tem um certo grau de inovação, no qual o poder público senta na mesa com todos e coletivamente decide as coisas, sem querer se apropriar disso", explica o prefeito Professor Wander, um dos idealizadores do movimento.

Taya Simões, uma das idealizadoras do serviço de uso de pulseiras cashless  - Fabiana Maranhão/Colaboração para o TAB
Taya Simões, uma das idealizadoras do serviço de uso de pulseiras cashless
Imagem: Fabiana Maranhão/Colaboração para o TAB
Uma ideia na cabeça

Santa Rita tem pouco mais de 150 empresas de tecnologia e outras dezenas estão se formando nas três incubadoras da cidade, que são espaços que oferecem estrutura para o desenvolvimento de empresas.

"Incubada" há dois anos no Inatel, a Nowigo oferece serviço de uso de pulseiras e cartões para controle de acesso a eventos e consumo com pagamento sem dinheiro, cartão de débito ou de crédito (cashless). Além disso, a empresa fornece análise dos dados coletados por meio desse sistema.

"Conseguimos diminuir em 40% o tempo de espera nas filas por ser uma tecnologia muito rápida, tanto para consumir quanto para as entradas. E para o organizador tem toda essa parte de gestão. No Hacktown (festival de comportamento, inovação, música, educação, tecnologia e empreendedorismo, que aconteceu no início de setembro), eles viam em tempo real quantas pessoas estavam em cada palestra, horários de pico, lotação de cada uma", detalha.

A startup Aurem, dos estudantes Bruno Costa Candia e Thamires Vasconcelos, está na fase de pré-incubação, etapa na qual os empreendedores recebem apoio para transformar suas ideias em empresas. Bruno e Thamires desenvolveram um software de reconhecimento de voz que converte o que é falado em texto para ajudar alunos surdos em sala de aula. O programa capta a voz do professor e transforma em texto, que é projetado, por meio de um datashow, no quadro.

A ideia surgiu quando Bruno percebeu a dificuldade que um colega de turma da faculdade tinha para acompanhar as aulas com a ajuda de intérpretes. Bruno estuda no Inatel (Engenharia de Controle de Automação) e é de Corumbá (MS). Foi morar em Santa Rita para fazer faculdade. Thamires, que é de Itajubá (MG), estuda administração no Centro de Ensino Superior e Gestão, Tecnologia e Educação (FAI).

"Muitos intérpretes não têm conhecimento técnico do assunto abordado em sala de aula e isso acaba atrapalhando o desenvolvimento do aluno surdo. Muitos dos alunos com que conversamos já tinham reprovado matérias, cinco, seis, sete vezes, e às vezes até desistiram do curso", explica Bruno.

Bruno e Thamires afirmam que o software da Aurem se diferencia de outros programas e aplicativos de reconhecimento de voz para surdos por possuir banco de dados de termos técnicos."Se um professor entra para dar uma aula de cálculo, o [programa ou app de] reconhecimento de voz não tem as palavras técnicas que usamos num curso de engenharia. No nosso caso, estamos criando um banco de dados com essas palavras técnicas. Então, quando o professor fala essa palavra, o software busca no nosso banco de dados."

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