PUBLICIDADE

Topo

Covid-19 ameaça idosos e doentes crônicos nas favelas e periferias do Rio

22 Ago. 2018 - Vista geral da favela do Alemão no Rio de Janeiro - Fabio Teixeira/picture alliance via Getty Image
22 Ago. 2018 - Vista geral da favela do Alemão no Rio de Janeiro Imagem: Fabio Teixeira/picture alliance via Getty Image

Breno Henrique

Do data_labe, colaboração para o TAB

10/04/2020 04h00

"Sei que com essas doenças crônicas que tenho, só Jesus." A afirmação de Kátia Gomes, moradora da Baixada Fluminense, reflete uma aflição comum em milhões de brasileiros periféricos. Em nenhum outro momento ouviu-se tanto termos como "grupo mais vulnerável" e "doenças crônicas" como em tempos de covid-19. Estudos comprovam que a maioria dos óbitos no mundo por causa da pandemia do novo coronavírus são de pessoas que já apresentavam uma saúde fragilizada, seja por conta da idade avançada, acima de 60 anos, seja por já possuírem outros males, como as doenças crônicas — que são doenças, como diabetes e hipertensão, que se desenvolvem no organismo ao longo do tempo, podendo ter origem em fatores genéticos ou nos hábitos de vida.

Quando pessoas que não fazem parte de nenhum dos dois grupos repetem esses dados, tentando minimizar os estragos do vírus, se esquecem que no Brasil vivem 21,872 milhões de idosos, mais gente do que a população de países como Chile e Holanda. Vale lembrar que de acordo com os dados da VIGITEL 2018, 31,2% da população adulta do estado do Rio de Janeiro sofre de pressão alta. Entre os idosos, esse número cresce: 60,9% possui diagnóstico de hipertensão. Além disso, a cidade do Rio tem 8,2% de sua população adulta diagnosticada com diabetes, sendo que 39,9% dessas pessoas tem acima dos 55 anos.?

Na Itália — que concentra atualmente 25% dos óbitos por covid-19 no mundo —, os dados do Instituto Superior de Saúde da Itália (ISS) mostram que 85,5% das mortes por covid-19 no país foram de pessoas que já tinham doenças prévias. A tendência segue na China, país com 6% dos óbitos no mundo, onde o CCDCP (sigla em inglês do Centro Chinês para a Prevenção e Controle de Doenças) revela que 67,2% das pessoas mortas por covid-19 no país já conviviam com problemas cardiovasculares, diabetes, doenças respiratórias e hipertensão — doenças comuns também entre os óbitos na Itália.

No Estado do Rio de Janeiro, até o dia 02 de abril eram confirmados 41 óbitos, dos quais 83% eram de pessoas acima de 60 anos e 73,17% de pessoas com algum tipo de comorbidade. "Se a covid-19 já é ruim para pessoas ricas, famosas e com boa saúde, como Tom Hanks e Preta Gil, imagine para pessoas idosas e doentes crônicas que moram nas favelas brasileiras."

Onde os fracos não têm vez?

Kátia Gomes, de 46 anos, mora no bairro Centenário, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense. A dona de casa sofre de diabetes e problemas respiratórios como bronquite, sinusite e rinite. "Aqui tem um postinho e eu recebo os remédios que preciso na farmácia popular. Alguns remédios que o governo me dá não me fazem bem, mas eu tenho que tomar porque no momento me encontro desempregada [e não posso comprar outros]".

Kátia, que cuida da neta de 10 anos, tenta seguir as recomendações de ficar em casa, mas nem sempre é possível: "até porque só tem eu e minha neta, então eu sou obrigada a sair. Mas eu tomo meu banho, comprei o meu Protex [sabonete antibacteriano] mas não consegui comprar álcool em gel porque não tem mais em lugar nenhum".

Não é só Kátia que tem tido dificuldade de cumprir o isolamento recomendado pelas autoridades. A própria arquitetura das favelas colabora para essa dificuldade, como conta o agente comunitário de saúde Eden José dos Santos, de 51 anos, que trabalha na Clínica da Família Maria do Socorro Souza e Silva, na Favela da Rocinha — área de maior densidade demográfica do Rio: "a favela é um aglomerado de pessoas, de vielas, de becos, de espaço mínimo dentro das residências, onde ficam às vezes dez pessoas num espaço de dois cômodos". A maior dificuldade neste momento, segundo Santos, é conscientizar as pessoas da necessidade de cumprir as orientações.

A favela não dorme; tem bares, mercado e atrações 24 horas por dia; diante disso, é muito difícil fazer com que as pessoas priorizem se cuidar para que possam cuidar das pessoas que são mais vulneráveis à doença
Eden José dos Santos, agente comunitário de saúde

Severino Manuel Izidro, de 63 anos, é morador antigo do Complexo da Maré, na comunidade Bento Ribeiro Dantas, onde vive com sua esposa, também idosa. Na Maré, a população acima de 50 anos corresponde a 15,67% dos moradores, sendo este o grupo de pessoas com maior frequência de diagnóstico de diabetes. Izidro é um deles. Ele convive com diabetes e dores na coluna. Mesmo assim, tem ido trabalhar em seu comércio de bebidas diariamente. "Em relação ao meu trabalho, no momento eu estou dando continuidade. Pelo que a gente vê [as notícias sobre a covid-19], é claro que a gente se preocupa, mas eu tenho que trabalhar, não posso ficar em casa, não tenho outra fonte de renda. Então, tenho que arriscar."

A Clínica da Família Augusto Boal, que atende à população do Bento Ribeiro Dantas, vem enfrentando nos últimos anos falta de insumos, medicamentos e demissão de profissionais. "Os meus remédios às vezes eu pego na Clínica da Família, mas também estou sempre comprando", relata Izidro. "Eu ia muito lá na Clínica, mas não tem mais médicos. Eu fui no mês de julho, o doutor marcou uma consulta pra novembro, só que mandaram ele embora", lamenta.

Não é só a falta de remédios e o medo da covid-19 que marcam a vida dos idosos da Maré. Sua expectativa de vida é muito menor que a das áreas ricas do Rio de Janeiro. Segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade em 2019, a idade média dos idosos mortos na Maré é de 77 anos, enquanto na Área de Planejamento (AP) 2.1, que concentra alguns dos bairros mais ricos da cidade, essa média é de 84 anos. Uma diferença de 7 anos que evidencia a desigualdade na cidade do Rio de Janeiro.

Eden José dos Santos que trabalha na Clínica da Família Maria do Socorro Souza e Silva na Favela da Rocinha - Arquivo pessoal
Eden José dos Santos que trabalha na Clínica da Família Maria do Socorro Souza e Silva na Favela da Rocinha
Imagem: Arquivo pessoal


"O mundo é diferente da ponte pra cá"

"Eu estou desempregada. Então pra mim está muito difícil. Eu tomo medicamentos que são dados pelo governo. Agora, no caso de alimentação, algumas pessoas têm me ajudado. A madrinha da minha neta deu esses dias alguma coisa pra ela e assim eu estou vivendo, porque não posso sair pra trabalhar. Então, é desse jeito, vivendo de doações".

O relato acima foi feito por Kátia Gomes. Não importa onde morem, pessoas mais vulneráveis, como Gomes e Izidro, não devem ter contato com o vírus. Por isso, é importante que cumpram o isolamento social, muitas vezes isolados de outros moradores da própria casa. A este grupo tem sido recomendado estocar os remédios diários para evitar que saiam na ruas. Para as compras no mercado, o ideal é que outras pessoas deem suporte comprando produtos e levando até elas — que, ao receberem os itens, devem higienizá-los com água e sabão.

Mas qual a diferença de pertencer a um perfil mais fragilizado em Milão ou Madri (cidades europeias duramente afetadas pela pandemia) e de ser parte do mesmo grupo nas favelas da Rocinha ou da Maré? Nessa situação, além de estratégias para evitar sair na rua, é preciso ter acesso a água potável, bom arejamento dos cômodos, possibilidade de isolamento dentro de casa e renda suficiente para acessar comida, remédios e material de higiene pessoal adequados.

"A primeira dificuldade é a ambiental. A favela é um ambiente inóspito, é impossível guardar a quarentena nos moldes estipulados pelo Ministério da Saúde. Se analisarmos a condição das moradias vemos residências muito próximas umas das outras, com ventilação precária e extremamente quentes, a pessoa é estimulada a sair e a residência ficar só como dormitório. A segunda questão é do ponto de vista econômico, pois a favela é formada em sua maior parte por trabalhadores autônomos. A pessoa fica entre a cruz e a espada, isso acaba empurrando os moradores para fora, agudizando as condições clínicas já existentes", diz o agente comunitário de saúde Jorge dos Santos Nadais, de 35 anos, que trabalha no Centro de Saúde Escola Germano Silva Faria, na fundação Oswaldo Cruz, em Manguinhos, favela da zona norte carioca que já possui cinco casos confirmados de covid-19, segundo o painel Data.Rio.

Ficar em casa — mas tomar a vacina da gripe

Pessoas mais vulneráveis ao vírus vão precisar quebrar o isolamento em algumas localidades. Isso porque a Campanha Nacional de Vacinação contra os três principais vírus transmissores da gripe no Brasil em 2019 (Influenza A (H1N1), Influenza B e Influenza A (H3N2)) foi antecipada, começando no dia 23 de março. Embora a vacina não tenha efeitos sobre o novo coronavírus, ela contribui dando agilidade no diagnóstico da nova doença, através da exclusão dos outros tipos mais comuns de gripe. Neste primeiro estágio de vacinação, o foco são os grupos de idosos e profissionais da saúde.

"Houve um desespero e certa angústia como se a vacina atual da gripe fosse eficaz contra o novo coronavírus", relata o agente comunitário de saúde Jorge, que participa da campanha há sete anos. "Inicialmente, as pessoas mais fragilizadas estavam mantendo a rotina delas como se nada tivesse acontecendo, como se a pandemia estivesse muito longe da realidade delas, então mantinham um fluxo normal de ida ao posto. A circulação da informação pelos meios de comunicação fez com que as pessoas se recolhessem. Elas estão bastante assustadas, com a saúde mental um pouco afetada devido ao bombardeio de informação", relata Nadais.

Jorge dos Santos Nadais e a equipe de mulheres que trabalham na CSE Germano Silva Faria na favela de Manguinhos - Aqruivo pessoal
Jorge dos Santos Nadais e a equipe de mulheres que trabalham na CSE Germano Silva Faria na favela de Manguinhos
Imagem: Aqruivo pessoal

Gomes não tem vacina, nem trabalho, mas — como muitos dos brasileiros que pertencem a grupos mais vulneráveis e moram em periferias e favelas — tem medo. "Estou esperando chegar a vacina contra a gripe aqui no posto pra eu me vacinar, quero evitar ficar indo ao posto no centro de Caxias. (...) Em relação ao coronavírus, eu tenho pavor. Tenho pavor porque tenho minha neta pra criar. É o fim dos tempos", lamenta.

Colaborou Fred Di Giacomo (coordenação e edição), da data_labe

Esta reportagem faz parte da parceria entre data_labe, Gênero e Número, Énois e Revista AzMina na cobertura do novo Coronavírus (covid-19) com recortes de gênero, raça e território. Acompanhe nas redes e pelas tags #EspecialCovid #COVID19NasFavelas #CoronaNasPeriferias