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Refugiada no Brasil, jornalista venezuelana ganha a vida como agente do SUS

A venezuelana Eliezka Soto, 30, trabalha como agente de saúde há 2 anos e meio na UBS República Fernanda Sante Limeira - Edson Lopes Jr./Uol
A venezuelana Eliezka Soto, 30, trabalha como agente de saúde há 2 anos e meio na UBS República Fernanda Sante Limeira
Imagem: Edson Lopes Jr./Uol

Sibele Oliveira

Colaboração para o TAB

23/05/2021 04h00

São 10 horas da manhã. O frio de 17 graus impede o sol de aquecer a Praça do Patriarca, no centro de São Paulo, onde cerca de 50 pessoas de 50 a 59 anos com comorbidades e idosos com 60 anos ou mais que aguardam a vez de tomar a vacina contra a covid-19. A fila formada na calçada larga começa na entrada da UBS República e ocupa todo o quarteirão. Em volta dela, há três agentes comunitários de saúde. Entre eles, Eliezka García Soto, 30. Com voz suave e palavras bem pronunciadas, ela se aproxima de alguns com um "bom dia", pergunta a idade deles e confere se os que têm doenças preexistentes estão com a receita médica carimbada em mãos.

Também tira dúvidas, chama a atenção de quem não quer usar máscara e diz aos que têm medo de tomar a vacina de um determinado laboratório que há mais benefícios do que riscos, qualquer que seja o imunizante. Vira e mexe, ela é abordada por gente pedindo informação para chegar a lugares perto dali. Mas logo volta sua atenção à fila. "De onde você é?", pergunta um senhor, curioso ao ouvir o sotaque de Eliezka. "Sou da Venezuela". "Ah! Que legal", comenta o homem. A convivência amistosa com os paulistanos deixa a refugiada à vontade.

Eliezka em ação no centro de São Paulo - Edson Lopes Jr./Uol - Edson Lopes Jr./Uol
Eliezka em ação no centro de São Paulo
Imagem: Edson Lopes Jr./Uol

Natural de Caracas, na infância ela se mudou para Puerto Ordaz, onde terminou a escola e fez faculdade de jornalismo. Depois, voltou para a capital. Elieska amava seu país. Fazia parte de um grupo de danças tradicionais — com o qual chegou a se apresentar em países como a Grécia e a Hungria. Ainda guarda a foto de uma apresentação, em que aparece no palco segurando a bandeira da Venezuela. Tinha uma vida tranquila até a crise econômica, social e política estragar tudo. Em pouco tempo, a situação ficou sem controle. O salário que ela ganhava numa agência de comunicação ia quase todo no aluguel de um quarto em uma casa de família.

Como os proprietários não hospedavam casais, o marido de Eliezka precisou alugar um quarto em outro imóvel. Trabalhando como gerente de uma pizzaria, o contador Oscar Carrasco Pavon ganhava mais do que a esposa. Mesmo assim, o que sobrava mal dava para a comida. Comiam em duas semanas o que era suficiente para uma. E não podiam ficar doentes, porque o sistema público de saúde estava um caos. Com o valor do bolívar venezuelano mudando o tempo todo e os produtos e serviços cobrados em dólar, o país se converteu num mar de pessoas sem esperança, deprimidas e até violentas.

A qualquer momento, a então jornalista não teria nem como pagar o aluguel. Ela não aguentava mais. "Às vezes eu tinha um sentimento de raiva. De que seja o que for, faça o que fizer, nunca poder construir uma vida estável, digna e com segurança", conta ao TAB.

A única saída era deixar o país. "A gente quer ter uma família. Um futuro. Aqui não vai ser", falou para o marido. Ambos cogitaram ir para o Peru, mas desistiram por causa da xenofobia. A Argentina era outra opção, mas seria preciso ter mais dinheiro. Acabaram optando por Roraima, onde Eliezka tinha passado um Natal com os pais, que moravam no estado desde 2015.

A dor de ir embora

Não era fácil partir. Sem dinheiro para pagar a passagem em dólar, muitos venezuelanos atravessavam a fronteira para algum país vizinho a pé. Eliezka e o companheiro não passaram por isso. Conseguiram, a duras penas, economizar dinheiro comprar passagens de Caracas a Puerto Ordaz e de Puerto Ordaz a Pacaraima. Ela precisou transferir seus sonhos de juventude para um país em que não conhecia nada além do Carnaval e do futebol, pois sempre torcia para a seleção brasileira nas Copas do Mundo. Ainda assim, estava entusiasmada. Quando esteve em Boa Vista, anos antes, calculou que o salário mínimo era o suficiente para recomeçar a vida.

Mas em setembro de 2017, a situação era outra. Havia muitos venezuelanos nas ruas pedindo dinheiro. "Quando a gente chegou, o pessoal de Roraima estava de saco cheio dos venezuelanos", lembra. Eliezka saía de casa cedo. Quando via anúncios de vagas nas portas e vitrines dos comércios, entrava. "Posso deixar o meu currículo?", perguntava. "Não. Não tem vaga", a resposta era sempre a mesma quando seu sotaque era identificado.

Para piorar a situação, tinha apenas noções de português. Passava o dia procurando emprego. À noite, ia com o marido para a Praça das Águas vender batom e acessórios para crianças.

Como a concorrência era grande, tanto de venezuelanos quanto de brasileiros, muitas vezes não vendia nada. O trajeto diário era feito a pé, debaixo do sol forte de Boa Vista, pois Eliezka não tinha dinheiro para o transporte. Encontrava caras e portas fechadas e evitava se relacionar com os brasileiros por medo de ser maltratada. "Chegávamos a chorar muito em casa, pensando em voltar para a Venezuela. Mas era isso. Chorar, acordar, renovar a energia e sair para procurar emprego". Quatro meses depois, a filha da dona de um restaurante convenceu a mãe a dar trabalho para o casal. "Deixa eles", pediu.

Eliezka ficou feliz com o emprego de ajudante de cozinha, embora o pagamento costumasse atrasar. Com as gorjetas, ajudava nas despesas de casa e juntava dinheiro para se mudar para São Paulo, onde anos atrás Oscar tinha participado de uma semana de discussões acadêmicas e se impressionado com as oportunidades de trabalho. Ele deixou Roraima primeiro. Trabalhando numa creche, mandou dinheiro para Eliezka, que viajou depois de sete meses em Boa Vista. Grávida do primeiro filho.

Eliezka Soto, 30, no ambiente de trabalho do SUS - Edson Lopes Jr./Uol - Edson Lopes Jr./Uol
Eliezka Soto, 30, no ambiente de trabalho do SUS
Imagem: Edson Lopes Jr./Uol

A sensação de estar em casa

Em São Paulo, Eliezka retomou o pré-natal na UBS República. Uma vez passou mal, foi até lá e viu o anúncio de uma vaga para agente comunitário de saúde. Decidiu se candidatar. Fez a prova com cuidado para não errar no português, mas estava confiante, pois fazia um curso no Adus (Instituto de Reintegração do Refugiado). Dias depois, foi chamada para uma entrevista. Por sorte, a dinâmica de grupo pediu que os candidatos simulassem o atendimento a uma família de bolivianos. Eliezka nem acreditou quando soube que foi aprovada.

Caiu de amores pelo SUS com o atendimento que recebeu na gravidez e, hoje, veste a camisa da instituição. Quando não está orientando as pessoas na fila da vacina, vai às casas dos doentes, a maioria idosos, na região do centro. Pergunta se estão com sintomas ou dor, se precisam de remédios, de renovar a receita ou de encaminhamento para um especialista. Mas não só isso. "Falo um pouquinho com eles. É muito legal a sensação. Como se eles tivessem me acolhendo, abrindo suas portas, suas falas para mim, para eu me sentir integrada. Mas também às vezes é como se eles precisassem mais de mim, da minha fala", diz. Na pandemia, ela se comunica seus pacientes, como costuma chamá-los, por interfone ou telefone.

Eliezka trabalha orientando e tirando dúvidas das pessoas que irão se vacinar, além de participar do Programa Saúde da Família, que assiste e orienta às pessoas que necessitam de cuidados de enfermagem a domicílio - Edson Lopes Jr./Uol - Edson Lopes Jr./Uol
Eliezka trabalha orientando e tirando dúvidas das pessoas que irão se vacinar, além de participar do Programa Saúde da Família, que assiste e orienta às pessoas que necessitam de cuidados de enfermagem a domicílio
Imagem: Edson Lopes Jr./Uol

Além de agente de saúde, Eliezka também é professora de espanhol no Adus. Mora no centro com o marido e o filho de dois anos e meio. Os pais, irmãos e sogros também vivem na cidade. Apesar de tudo, sente falta da Venezuela. "Sinto muita saudade do meu país. Mas uma coisa é certa. A gente sente saudade do que lembra. O que tenho na minha memória são as coisas boas da Venezuela, a melhor época do meu país, não a Venezuela que existe atualmente". Por isso, não pensa em voltar. "Estava conversando com a minha avó esses dias. Ela é aposentada e ganha um salário mínimo. Sabe o que esse dinheiro alcança? Um cartão [cartela] de ovos", diz, indignada.

Oscar, que trabalha como recepcionista de hotel, cobre a esposa de elogios. "É uma mulher maravilhosa, sonhadora, que acima de tudo, gosta de ser mãe. Além dessas virtudes, se importa com as pessoas que estão numa situação precária". Eliezka vê o Brasil como um país diverso, aberto, acolhedor e amigo de quem vem de fora. Aqui encontrou o futuro que esperava. "O futuro já está acontecendo quando eu posso alugar um apartamento vazio e, aos poucos, ir preenchendo não só de coisas, mas de experiências.

Estamos conseguindo, aos poucos, construir o nosso lar. Isso era o que queríamos", afirma. Hoje pode oferecer uma vida digna ao filho. E para ela, isso basta.