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'Sem futuro', jornaleiro mais antigo de SP se despede da profissão

Salvador Neves, 85, jornaleiro mais antigo de São Paulo, em sua banca no viaduto Nove de Julho - Mariana Pekin/UOL
Salvador Neves, 85, jornaleiro mais antigo de São Paulo, em sua banca no viaduto Nove de Julho
Imagem: Mariana Pekin/UOL

Tiago Dias

Do TAB, em São Paulo

17/06/2021 04h00

"Oi, sumido!". Não demora para Salvador ser reconhecido naquela banca de revistas. Ele cumprimenta o cliente com um soquinho de mão e ri por trás da máscara. "Opa! Sumido nada, tô aqui". São 9h de uma terça-feira nublada e úmida de garoa tipicamente paulistana. Durante toda a manhã, a cena se repetiria muitas vezes, como se aquele senhor baixinho, com olhar expressivo e leve sotaque português fosse uma espécie de celebridade.

Para quem mora e trabalha há anos na região central de São Paulo e passa todo dia pelo viaduto Nove de Julho, altura do número 185, Salvador Neves é, de fato, um personagem ilustre. Cris, morador de rua da região, é um dos que param em frente à banca ao avistar a cabeça calva com curtos fios brancos na lateral. "Não tem quem não o conheça por aqui. Seu Salvador é o queridão de todo mundo."

As reações afetuosas tinham uma razão especial para existirem naquele dia. O jornaleiro havia desaparecido da banca desde aquela semana de março de 2020, quando a pandemia fez a cidade que nunca dorme entrar em quarentena. O filho Otávio decidiu, no mesmo dia, que o dono e garoto-propaganda do principal negócio da família tinha que ficar numa casa no interior, isolado das pessoas.

Foi a primeira vez que a Banca Estadão, famosa entre os notívagos por ser 24 horas, não abriu suas portas. E a primeira vez, desde 1957, que o jornaleiro mais antigo de São Paulo (como ele se autointitula) passou mais de um mês sem trabalhar.

Seu Salvador, 85, jornaleiro mais antigo de São Paulo, em sua banca no viaduto Nove de Julho - Mariana Pekin/UOL - Mariana Pekin/UOL
Imagem: Mariana Pekin/UOL

Salvador Neves volta a banca Estadão, onde deixou de trabalhar diariamente com a chegada da pandemia - Mariana Pekin/UOL - Mariana Pekin/UOL
Salvador Neves volta a banca Estadão, onde deixou de trabalhar diariamente com a chegada da pandemia
Imagem: Mariana Pekin/UOL

Apesar da ocasião, Salvador está sem o jaleco azul com bolsos fundos para as moedas de troco, item essencial para sua jornada madrugada adentro. "E cadê o chapeuzinho?", pergunta outro cliente que o reconhece. Salvador ri alto e espaçado: "Tá descansando, estava cansado".

A camisa social amarela guarda o RG e o cartão do banco, sinal do que realmente importa em seus 85 anos. "Eu só vim hoje pra provar que eu estou vivo no banco, senão minha aposentadoria não cai", diz. Parece desapegado do negócio de uma vida.

"Saudade?", ele repete a pergunta do repórter. O filho Otávio, do lado de dentro do caixa, olha o pai, também à espera da resposta. Salvador responde, olhando de volta: "Agora é com ele. O que eu tinha que fazer eu já fiz."

O poste

Salvador Neves chegou de navio em São Paulo em 1957, vindo de Portugal com o pai, a mãe e sete irmãos. Logo de cara, arranjou emprego no centro da cidade, como jornaleiro. "Fiz minha vida aqui ao redor", ele diz, olhando para os prédios em torno do viaduto, seu local de trabalho há quase 50 anos. "Plantei milho na avenida Consolação, deu cada espigão!", conta.

A família vendeu um caminhão de batata e alguns quilos de feijão para vir ao Brasil em busca de prosperidade. Mas o país hoje, ele diz, lembra muito a situação em Portugal. "O povo estava passando fome. É o que está acontecendo aqui. Nós não temos presidente e os latifundiários estão comandando o país. Vão lá fora, compram arroz e feijão por 5 e vendem por 200 pro povo", explica.

Salvador Neves, na frente da primeira banca em 1964 - Mariana Pekin/UOL - Mariana Pekin/UOL
Imagem: Mariana Pekin/UOL

Salvador Neves em 1964 e 2021: apenas o "poste da Light" resistiu ao tempo - Mariana Pekin/UOL - Mariana Pekin/UOL
Salvador Neves em 1964 e 2021: apenas o "poste da Light" resistiu ao tempo
Imagem: Mariana Pekin/UOL

Cinco anos depois, Salvador teve sua própria banca — que, na época, era de madeira e se resumia a dois cavaletes e uma tábua na porta de um bar. Ele mostra uma foto amarelada em que aparece encostado ao lado dos jornais, enquanto um cliente lia as notícias do dia.

Tinha pinta de galã, com o bigodinho na régua, que mantém até hoje. "Eu ficava 14 horas de pé. Trazia no lombo mil exemplares. De manhã era uma fila que se fazia para comprar. Minha banca estava em primeiro lugar nas vendas", diz orgulhoso.

O lugar exato está a alguns metros dali. Salvador dá passos firmes na calçada esburacada e anda curvado em direção à praça Desembargador Mario Píres, onde se encontram a avenida Consolação e a rua Martins Fontes. Naquela manhã, funcionários da prefeitura quebravam o pavimento no cruzamento.

Ao som das britadeiras, ele segue com o dedo em riste em direção ao poste de luz antigo. O chamado "poste da Light", que iluminou São Paulo de uma forma ampla em 1927, é o único elemento da foto que ainda está ali: cheio de adesivo e alguns chicletes ressecados. "Não tinha nenhum desses prédios, era tudo casinha", diz.

Uma mulher de cabelos grisalhos passa e o reconhece. Simpático, logo mostra a foto da época. "Foi exatamente aqui, foi quando eu comecei", aponta.

Salvador Neves fala com antiga cliente - Mariana Pekin/UOL - Mariana Pekin/UOL
Imagem: Mariana Pekin/UOL

Salvador Neves no centro de São Paulo - Mariana Pekin/UOL - Mariana Pekin/UOL
Imagem: Mariana Pekin/UOL

Salvador Neves no centro de São Paulo - Mariana Pekin/UOL - Mariana Pekin/UOL
Imagem: Mariana Pekin/UOL

Notícias de ontem

As notícias que mudaram a vida das pessoas nesses últimos 50 anos foram matéria-prima para Salvador prosperar. Casou, teve dois filhos e duas bancas. A esposa Teresinha o acompanhou em boa parte dessa trajetória, inclusive no dia em que ele mais vendeu jornal. Foi no incêndio do edifício Joelma, em 1974.

Daquele mesmo viaduto, dava para ver as chamas e os vultos de pessoas que se jogavam do prédio, mas era na banca que todos esperavam a edição da tarde para entender aquilo que viam de longe. "Vendi 100 jornais por minuto. Eu dava os jornais e ela pegava o dinheiro". Teresinha morreu em 2018.

Ele interrompe a história ao ver que uma mulher espera ser atendida na banca: "Pois não, senhora?". "Tem jornal pra cachorro?"

Otávio aponta para a pilha de pacotes de jornais cheios de notícias antigas. São mais procurados e mais caros do que a edição daquele dia. Dois quilos por R$ 17. "Agora a gente recompra para essa nova finalidade", diz.

Homem compra jornal na banca de Salvador Neves - Mariana Pekin/UOL - Mariana Pekin/UOL
Imagem: Mariana Pekin/UOL

Homem compra cigarro na banca de Salvador Neves - Mariana Pekin/UOL - Mariana Pekin/UOL
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Homem compra chiclete na banca de Salvador Neves - Mariana Pekin/UOL - Mariana Pekin/UOL
Imagem: Mariana Pekin/UOL

O filho tem 54 anos e é jornaleiro há 35, quando deixou de trabalhar na área de cobranças do banco Itaú para acompanhar o pai. "Era uma época em que o povo chegava antes aqui para saber o resultado do jogo do bicho, do jogo do campeonato de ontem. Que o pai vinha na sexta comprar gibi para o filho e revista para a mulher. Não tinha internet. Agora ela acabou com tudo", diz, com indignação.

As revistas ainda estão expostas nas prateleiras dos fundos e na parte mais visível da entrada da banca, mas Otávio diz que é por uma questão técnica. "A prefeitura diz que a gente é obrigado a ter 60% de revistas, mas se for só revista a gente fecha". Ele avisa o pai da última novidade: "A 'Época' parou de circular esse mês". "É mesmo? Parou, parou?", pergunta Salvador.

Durante o período de três horas, apenas cinco jornais haviam sido vendidos. Os outros pedidos foram cigarro (solto), chocolate, chiclete e uma recarga de celular (não efetuada). "Caiu o sistema", avisa Otávio para um cliente.

"A pandemia também ceifou muita coisa", ele diz. "Antes, eu vendia 50 [exemplares do jornal] 'Agora', hoje vendo uns 10. Não tem futuro", diz. O fato é que o número de estabelecimentos cadastrados como "banca de jornal" tem caído ano após ano na capital paulista. Entre 2009 e 2019, a queda havia sido de 17%. Otávio faz as contas: na zona leste, onde mora, não há mais banca para comprar jornal. No dia que isso se tornar realidade também no centro, o que ele vai fazer? "Não faço ideia", diz, deixando os óculos pendurados por uma cordinha no pescoço.

"Como é que eu ia imaginar essa situação naquela altura?", analisa Salvador. Entre bolsas, cachecóis, guarda-chuvas e pastas para documento pendurados na banca, ele é pragmático: "Acho que o brasileiro lê menos hoje, e é o que a gente tem que fazer. Tem que vender."

Uma jovem para na banca e pega o jornal "O Amarelinho", publicação que reúne classificados de empregos. Ela conta as moedas, diz que está procurando vagas: "Tem que manter a fé, né?"

Seu Salvador, jornaleiro mais antigo de São Paulo - Mariana Pekin/UOL - Mariana Pekin/UOL
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Salvador Neves anota vendas na Banca Estadão - Mariana Pekin/UOL - Mariana Pekin/UOL
Imagem: Mariana Pekin/UOL

Salvador Neves com o filho Otávio na banca Estadão, localizada no viaduto Nove de Julho - Mariana Pekin/UOL - Mariana Pekin/UOL
Salvador Neves com o filho Otávio na banca Estadão, localizada no viaduto Nove de Julho
Imagem: Mariana Pekin/UOL

Quanto é?

Apesar de estar sem o uniforme, Salvador assume a banca enquanto Otávio vai pagar contas na lotérica. Uma mulher logo entra e pergunta por óculos. "O meu quebrou vindo para cá e eu tenho que ir trabalhar", diz, ansiosa. Salvador mostra os modelos. "Quanto é?". Não há nenhuma etiqueta. Ele chuta: "R$ 20". "Eu prefiro vender revista porque eu sei o preço de cor", diz, quando a moça sai. Cada compra naquele momento é registrada à mão num papelzinho. "Não sei mexer nisso", diz olhando para o computador que registra cada venda.

No interior, em Campo Limpo Paulista, vive sem internet ou celular. Mesmo após tomar as duas doses da vacina contra a covid, ele não pretende voltar e enumera com entusiasmo as coisas que manuseia no lugar dos jornais: "Eu trituro café, planto couve, estou fazendo até colorau."

Salvador conta que vislumbrou a aposentadoria na prática em 2017, quando a prefeitura proibiu que a banca continuasse na esquina do viaduto com a Consolação, seu principal ponto desde os anos 1960. Segundo o poder público, a estrutura dificultava a passagem de pedestres, mas Salvador põe a culpa no empreendimento imobiliário que avançou o espaço da calçada. Aos 81, comprou briga no gabinete do prefeito e foi notícia em um dos jornais que mais vendia. Ele vê a foto do governador João Doria pegando sol, estampada na capa da edição do dia. "Culpa dele." Ao relembrar do episódio, repete: "Já ganhei meu dinheiro, dei casa pra todos meus filhos, já deu pra mim."

Ele confessa que sente saudades de conversar com as pessoas. Quando esse sentimento aperta, pega o carro e vem para a capital. Mas não costuma ficar muito tempo e, antes do anoitecer, já está em casa, onde vive com galinhas, um casal de patos, seis gatos e a nova companheira. "Me divirto mais lá", diz, convicto.

Seu Salvador, 85, jornaleiro mais antigo de São Paulo, em sua banca no viaduto Nove de Julho - Mariana Pekin/UOL - Mariana Pekin/UOL
Imagem: Mariana Pekin/UOL