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Alfaiate com 60 anos de profissão luta para seu ofício não desaparecer

Alexandre Mirkai, alfaiate com 60 anos de profissão e oficina em Indianópolis, em São Paulo - Fernando Moraes/UOL
Alexandre Mirkai, alfaiate com 60 anos de profissão e oficina em Indianópolis, em São Paulo
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Sibele Oliveira

Colaboração para o TAB, de São Paulo

05/07/2021 04h01

Com uma fita métrica em volta do pescoço, Alexandre Mirkai, 82, se aproxima do balcão. Sobre ele, um tecido tropical inglês super 130 azul-escuro recebe riscos brancos que aos poucos vão dando forma à parte dianteira de uma calça. Nas mãos do alfaiate, giz, esquadro, régua com curva de gancho e uma tesoura grande são articulados numa dança sincronizada, que termina em cortes milimetricamente precisos.

É na alfaiataria, localizada em Indianópolis, bairro da capital paulista, que Mirkai passa a maior parte do tempo. Chega às 6h, uma hora antes dos funcionários, faz e serve o café da manhã. Depois começa a rotina de cortar as peças e prepará-las para a costura. Só vai embora por volta das 17h30. "Antigamente, até uns 70 anos, eu ficava aqui até as onze da noite. Agora, com 82, preciso descansar um pouco", diz. Mas só aos domingos.

Mirkai passou 50 anos sem tirar férias. Só fez a primeira viagem a lazer em 2011. Alexandre Antonio, filho do alfaiate, conta que de sábado à noite, a família toda descia para São Vicente, onde a avó tinha um apartamento. "Domingo ele voltava para São Paulo, trabalhava a semana e só ia no outro fim de semana nos ver."

O trabalho é um elixir da juventude para Mirkai. "Parar pra quê? Para ficar no bar bebendo pinga e mexendo com os outros? Ou ficar em casa enferrujando e esperando a morte? Enquanto der, estou fazendo alguma coisa", garante. Apesar dos cabelos brancos e de já não caminhar tão rápido como no passado, não falta a ele saúde para enfrentar a carga horária puxada.

Quando não está no térreo da Mirkai Alfaiate atendendo clientes, entre prateleiras apinhadas de tecidos nobres e manequins vestidos com trajes chiques, ele é encontrado na oficina, no andar de cima. Passa o dia cercado de máquinas de costura, novelos, moldes de peças para variados tipos de corpos, roupas ainda inconclusas em cabides, tesouras e dedais raros e um ferro de passar à brasa que usava décadas atrás. Para ter acabamento e caimento perfeitos, um terno demora 50 horas para ser confeccionado. Dependendo do modelo, pode custar até R$ 35 mil.

Alexandre Mirkai, alfaiate com 60 anos de profissão e oficina em Indianópolis, em São Paulo - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL
Alexandre Mirkai, alfaiate com 60 anos de profissão e oficina em Indianópolis, em São Paulo - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Na corda-bamba das crises

Quem paga por essas roupas são empresários, advogados, executivos, banqueiros e políticos. Discreto, o alfaiate não deixa escapar o nome de nenhum. Na sexta-feira, dia da reportagem, só um cliente apareceu, quando a luz do dia já tinha se apagado. Reflexo da pandemia, que cancelou eventos e fez muita gente trabalhar de casa. Por isso, a alfaiataria está funcionando com apenas 30% de sua capacidade e metade dos funcionários. Mirkai não se apavora nem com essa crise nem com outras.

Já enfrentou uma braba, depois do golpe de 1964. Vendia muitas roupas, mas alguns clientes não tinham como pagar por elas. Perdeu a conta das vezes que entrou em favelas como a de Americanópolis para fazer cobranças. Às vezes, via as crianças chorando de fome e perdoava as dívidas dos pais. Recentemente, se viu diante de outro problema: a falta de mão de obra qualificada. O desinteresse das gerações mais novas pela profissão e a demora para aprendê-la incentivou Mirkai a ensinar uma auxiliar de limpeza da alfaiataria a costurar nas horas vagas.

De tudo que viveu, o mais difícil foi ver a alta costura perdendo lugar nos novos tempos. "Antigamente os homens iam à missa, ao cinema e visitavam os parentes aos domingos de terno. Iam com as mulheres, que vestiam tailleur ou vestido. Hoje a turma sai de jeans rasgado. Eles acham que isso é moda. Pra mim, não é. É esculhambação", afirma, sem meias palavras. Fica horrorizado quando vê nas ruas um desfile de chinelos e roupas desbotadas ou com buracos.

E também com peças fora de tamanho. "Não existem dois corpos iguais e a indústria faz tudo igual. O corpo do homem de um lado é mais baixo, o outro é mais alto. Um é mais peitudo, outro é corcunda. Essas roupas não ficam legais", sentencia. Mirkai aposta na elegância das peças sob medida o quanto pode. Em 2005, abriu uma escola de alfaiataria. Fez propaganda, mas os alunos não apareceram. Hoje é obrigado a assistir de camarote seus concorrentes — a internet e as roupas vindas da China — vencerem a batalha contra o bom gosto.

Alexandre Mirkai, alfaiate com 60 anos de profissão e oficina em Indianópolis, em São Paulo - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Tempos áureos

Filho de húngaros, Mirkai começou a costurar aos 12 anos ajudando o pai, dono de uma alfaiataria na Pompeia, bairro da zona oeste de São Paulo. Tomou tanto gosto pela alta-costura que abandonou a escola antes de terminar o ensino fundamental. Casou-se aos 22 anos com uma professora de piano. "Nesse mês completo 60 anos de casado. Com a mesma mulher", faz questão de frisar.

Naquela época não faltava serviço, pois os homens viviam na estica — como seu sogro, que vestia terno, gravata e chapéu para ir trabalhar na Metalúrgica Matarazzo. Ao final do expediente, tirava o macacão sujo de graxa, lavava-se e entrava no bonde impecável para fazer o caminho de volta.

Mirkai abriu sua primeira alfaiataria em 1961, numa sala alugada na avenida Ibirapuera. Logo apareceu um cliente à procura de um paletó para usar no casamento. Ficou desconfiado quando viu, pela janela, o cliente voltar no mês seguinte. Pensou que ele não tinha gostado da roupa. Não era isso. O homem queria que o alfaiate confeccionasse uniformes para funcionários da Sadia Transportes Aéreos, onde trabalhava. A companhia aérea cresceu e virou Transbrasil. E o alfaiate continuou costurando uniformes para a tripulação, cada vez mais numerosa.

Para dar conta, alugou cinco salas e depois um sobrado grande ali perto. Nunca mais saiu do bairro. A maré boa continuou na década de 1970. A alfaiataria de Mirkai produzia uniformes para pilotos, comandantes e comissários de bordo da Transbrasil, VASP (Viação Aérea São Paulo) e, mais tarde, TAM, hoje Latam. Fazia cerca de 60 uniformes de piloto por semana. Quando a Transbrasil e a VASP faliram, o alfaiate segurou as pontas com a clientela particular, que era farta.

Agora, a realidade é outra.

Alexandre Mirkai, alfaiate com 60 anos de profissão e oficina em Indianópolis, em São Paulo - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL
Alexandre Mirkai, alfaiate com 60 anos de profissão e oficina em Indianópolis, em São Paulo - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Fantasias de alta-costura

Mirkai andou se aventurando em outras áreas. Já trocou propriedades por uma fazenda em Araguaína, no Tocantins, mas desistiu do negócio depois de muita dor de cabeça com posseiros e caseiros. Também construiu sobradinhos, mas o que sobrava de uma venda não dava nem para comprar um terreno, com a inflação em torno de 50% dos anos 1980. Então decidiu se manter apenas em seu porto seguro. Em 60 anos de trabalho, nunca se cansou de fazer a mesma coisa. O dia a dia é capaz de lhe reservar boas surpresas.

Como um cliente que encomendou um traje de rei para participar de um concurso de carnaval, incluindo coroa e capa cravejada de pedrarias. Dois anos depois, voltou querendo a vestimenta do D'Artagnan, com direito à espada. Também fez uma batina idêntica a de um padre franciscano para um amigo, o vice-presidente da Transbrasil, usar numa festa, num cruzeiro. Ainda hoje ele recebe esse tipo de encomenda. Dias atrás, um cliente pediu que ele fizesse a fantasia do personagem de anime Ulquiorra Cifer. Já está trabalhando na veste de samurai.

Presidente da AACESP (Associação dos Alfaiates e Camiseiros do Estado de São Paulo), Mirkai fica triste ao ver os colegas morrendo ou abandonando o barco. Hoje restam apenas 40 membros na instituição, dos quais ele é um dos mais velhos. "Do jeito que está indo a carruagem, não vejo muito futuro", diz, desanimado.

Restam poucos clientes da época de ouro das alfaiatarias. Por isso, o alfaiate procura conquistar os jovens com peças modernas, como blazers e camisas. Também atende mulheres, que representam 10% do público da loja. Às vezes, tira as medidas na casa dos clientes, embora não goste muito, já que para isso precisa deixar a alfaiataria fechada.

Mirkai não se considera saudosista. Por trás dos óculos, seus olhos brilham quando recorda os tempos de menino, quando brincava na rua, ralava o joelho ao andar de carrinho de rolimã e via os vizinhos puxando a cadeira na calçada para conversar.

Mais ainda ao se lembrar de pessoas vestidas com elegância e dos homens tirando o chapéu para cumprimentar as mulheres. Mesmo disposto a conviver com a modernidade, conserva um pedaço desse mundo bom dentro da alfaiataria. O expediente de hoje está acabando e o alfaiate planeja o de amanhã. Pretende fazer um bolo para receber os funcionários e começar o sábado bem.