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'Cigano não tem medo de trabalho': Babi conquista fãs com receitas e fofoca

A youtuber Babi conquistou mais de dois milhôes de inscritos no seu canal do YouTube compartilhando receitas de bolos e fofocas - Camila Svenson/UOL
A youtuber Babi conquistou mais de dois milhôes de inscritos no seu canal do YouTube compartilhando receitas de bolos e fofocas
Imagem: Camila Svenson/UOL

Marie Declercq

Do TAB

28/07/2021 04h00

À primeira vista, o Canal Babi se confunde com milhares de outros no YouTube que apresentam receitas de bolos e outros quitutes comuns ao paladar brasileiro. Basta olhar de novo para começar a entender o porquê de um canal tão simples e pouco produzido possuir mais de 2 milhões de inscritos.

Um dos vídeos mostra Babi, a dona do canal, passando uma dica infalível para deixar a massa do bolo macia — ao mesmo tempo, narra sobre a vez em que quase foi presa ao usar um cartão clonado em um supermercado. A youtuber paulistana uniu duas grandes paixões do brasileiro: doces com muito açúcar e fofocas.

"O pessoal fala bastante que gosta mais de me acompanhar pelas histórias do que pelas receitas", conta a youtuber sobre a fama, que já soma milhões de visualizações. Babi é o apelido de Thamires da Cunha Ferreira, 34, que criou o canal em 2016 — pouco depois de começar a vender bolos no pote pelas ruas de São Paulo.

A maioria das histórias contadas no canal pareceriam banais se resumidas por qualquer outra pessoa, mas o segredo está na habilidade de narração da confeiteira. Os vídeos curtos dão ao espectador a impressão de estar dentro da cozinha de Babi, fofocando, enquanto toma um café e anota dicas culinárias.

O clima descontraído dos vídeos e a sinceridade ao revelar truques para fazer bolos de qualidade usando ingredientes baratos rompeu a bolha do YouTube. Os vídeos se tornaram memes.

Até Babi responder a mensagem do TAB foi um mês de espera. "Nossa, meu zap tá cheio de repórter", escreveu, depois de pedir uma confirmação de que o pedido de entrevista não era uma tentativa de golpe. Tantas mensagens são resultado do sucesso de trechos dos vídeos no Twitter. Respeitando a ordem de chegada no WhatsApp, Babi nos chamou para acompanhá-la nas compras na Zona Cerealista, em São Paulo.

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Thamires da Cunha Ferreira, conhecida como Babi, faz compras na Zona Cerealista na companhia do marido, Gledson Marques. Babi ficou famosa no YouTube por compartilhar receitas de quitutes e contar histórias inusitadas
Imagem: Camila Svenson/UOL

Cria do Brás

Em um dos extensos armazéns na Zona Cerealista, Babi circula com rapidez. A youtuber trabalha e frequenta a região há anos. Diversos trabalhadores a cumprimentam enquanto enchem sacolas de plástico com temperos coloridos ou castanhas brilhosas.

Ferreira é uma mulher vaidosa. Mesmo embaixo do sol, o cabelo loiro está bem penteado e a maquiagem retocada, e as pulseiras douradas reluzem no começo de tarde. Alternando entre pedir um saco abarrotado de cerejas em conserva e conversar com um motoqueiro na fila das castanhas, Babi passou a contar a sua história — que começou nos acampamentos ciganos de São Paulo.

"Morei em muitas partes de São Paulo, em Santos e uma época em Pernambuco", revela. A cultura nômade em que nasceu deixou algumas marcas. Uma é o apego por trabalhar duro e a outra é se esforçar para ter a melhor vida possível. "Quero viver bem, me vestir bem, comer bem e viver o hoje", resume Babi, ajeitando o pingente dourado com a letra "B" gravada.

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Babi nasceu na comunidade cigana de São Paulo e morou em acampamentos até se casar, ainda adolescente. Segundo ela, parte da filosofia da cultura cigana é viver o presente e trabalhar bastante para comprar tudo o que desejar. "Cigano não tem medo de trabalhar", conta
Imagem: Camila Svenson/UOL

Ferreira saiu do acampamento cigano depois de se casar pela primeira vez, aos 14 anos, com um jovem de 16 da mesma comunidade. "Cigano casa cedo", explica a confeiteira, prevendo o choque inicial com as idades. O casamento acabou quando ela tinha 19 anos. "Tive um sonho que me disse que era pra eu sair com a roupa do corpo. E eu saí", relata. Os pais ainda vivem em acampamentos. "Não tenho nenhuma vergonha de dizer que sou cigana".

Para ela, o trabalho incessante é a única forma de conseguir ser independente, se sustentar e comprar as coisas que quer. E desde muito cedo aprendeu que não teria outra maneira de fazer isso. "Cresci pedindo esmola. Sei como é ter que pedir para sobreviver", conta. Por causa disso, recusa ofertas de presentes. "Já sei o que preciso fazer para conseguir o que eu quero".

Antes de criar o canal, Babi começou a vender bolos no pote pelas ruas do Brás, em 2015. No primeiro dia de trabalho, mal sabia o que fazer com os bolos empilhados em um dos carrinhos adaptados pelo atual marido, o vendedor Gledson Marques, 42. Por sorte, um vendedor de frutas deu a dica: falar alto, chamar a atenção e se destacar na multidão do bairro. Deu certo. Babi vendeu todos os 45 bolos no primeiro dia.

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Babi e o marido, Gledson Marques, concentram grande parte das atividades profissionais no centro da capital paulista. Marques é dono de um box que vende roupas masculinas e Babi vendia bolos de pote até antes da pandemia pela região do Brás
Imagem: Camila Svenson/UOL

Da internet, com amor

Circulando todos os dias com o carrinho, a confeiteira virou uma figura conhecida da região. Conquistou uma clientela fiel — em grande parte, trabalhadores do Brás. Os bolos no pote evoluíram para tortas, empadinhas, geladinhos e receitas de bolos mais ambiciosos. Passou também a aceitar encomendas para festas e eventos.

Alguns meses depois, resolveu reviver um canal no YouTube, originalmente criado para falar de maquiagem. "Eu mal sabia me maquiar. Acabei abandonando o canal por causa de uma crítica que recebi", relembra. No fim de 2016, Babi postou o primeiro vídeo da nova fase, explicando uma receita de brigadeiro. A ideia do canal era simples: devolver para a internet tudo que ela tinha aprendido assistindo vídeos no YouTube.

"Trabalhei em padaria quando era adolescente, mas aprendi mesmo assistindo vídeos. Só que o pessoal não ensinava o pulo do gato das receitas, sabe? Por isso comecei a ensinar tudo", explica. Sem esconder os truques de confeiteiros, Ferreira passou a ganhar tração. No começo ainda mostrava o rosto nos vídeos, mas parou de se expor por não ter gostado da fama que veio com isso. "O pessoal sabia onde eu ficava no Brás e vinha conversar comigo. E eu, né, parava pra conversar com todo mundo o tempo inteiro".

Mesmo entendendo que se mostrasse o rosto a resposta dos vídeos seria maior, abdicou da exposição frequente e optou por seguir um estilo que logo ficou consagrado: uma câmera fixa filmando suas mãos preparando as receitas, com a trilha sonora de sua voz dando instruções e ao mesmo tempo contando "causos" de sua vida e algumas saias justas com clientes. Babi já subiu milhares de vídeos.

"O pessoal já me reconhece pela voz", diz, projetando sua voz afinada, abafada pela máscara cirúrgica.

Sem planejamento, sem frescura

Uma série de fatores levaram ao sucesso do canal. As histórias compartilhadas por Babi, os títulos engraçados (um exemplo: "Ela falou que a amiga faz mais Barato!!!mandei fazer com ela então!!! Mas o da amiga é ruim") e a crescente taxa de desemprego no Brasil, que tornou o trabalho formal uma espécie em extinção.

Segundo Ferreira, a venda de bolos a ajudou a trocar de carro e se sustentar sem depender do marido. Trabalhando duro, garante, é possível ganhar a vida vendendo doces. Por conta do próprio sucesso com a venda de sobremesas, Babi sente que ao compartilhar receitas, truques e dicas de como se dar bem no segmento, também está ajudando quem precisa se sustentar de alguma forma. "Dá até um arrepio quando falo nisso", diz, mostrando os pelos eriçados no braço.

O canal deu tão certo que Babi passou também a ganhar dinheiro com a monetização dos vídeos. Mas isso levou algum tempo, pois só depois de um ano ela descobriu que era possível ganhar dinheiro com o YouTube.

Parou de vender bolos na rua em 2020, um pouco antes do início da pandemia, muito por conta da fiscalização. "Na primeira vez o policial levou metade dos meus bolos, depois disso passei a correr do rapa junto com o pessoal", diz. Hoje Babi é focada apenas no canal e na produção de quitutes por encomenda. Para contratar seus serviços, porém, o cliente precisa chegar por indicação. O motivo, conta a youtuber, é porque começou a receber feedbacks negativos de pessoas que nunca sequer encomendaram seus produtos.

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A youtuber Babi faz compras na Zona Cerealista para produzir bolos e quitutes que faz por encomenda
Imagem: Camila Svenson/UOL

Não se mexe em time que está ganhando

Tanto trabalho rende frutos: Babi conseguiu trocar de carro duas vezes, por exemplo, e pagar uma escola particular para seu filho de 7 anos. Mesmo assim, dispensa qualquer melhoria que possa transformar o canal em algo mais produzido. Já recusou ofertas de empresas que queriam cuidar da divulgação, diz que não pretende abrir uma seção exclusiva para assinantes, não oferece cursos pagos, não aceita presentes de inscritos e também não pretende passar a fazer vídeos com uma câmera profissional.

Até hoje, o único upgrade foi um celular melhor para captar as imagens — o antigo só gravava vídeos de no máximo três minutos. A confeiteira também faz questão de creditar todos os canais em que aprendeu novas receitas. "Sei que faz muita diferença pra um canal pequeno quando eu dou crédito", explica.

A crença de que não se mexe em time que está ganhando é tão forte que Ferreira sequer pretende trocar a foto de capa do canal para uma versão mais sofisticada.

Babi diz que não teria qualquer problema caso precisasse voltar a vender bolo na rua. "Cigano não tem medo de trabalhar", frisa. "Cresci vendo meu pai comprando coisas no Paraguai para vender na rua, cresci vendo minha tia vendendo bolos". Por ora, todavia, isso não parece um cenário possível. Babi está muito satisfeita com os frutos do trabalho com as encomendas e o canal. "Muita gente me pergunta se eu não quero comprar uma casa, mas não é meu sonho ainda. Acho que é uma coisa da cultura de cigano mesmo".