PUBLICIDADE
Topo

Curador indígena da Flip tem sobrenome 'Lima Barreto' e saberes ancestrais

João Paulo Lima Barreto é curador da Flip 2021 - Nathalie Brasil/UOL
João Paulo Lima Barreto é curador da Flip 2021 Imagem: Nathalie Brasil/UOL

Helena Aragão

Colaboração para o TAB, do Rio de Janeiro

07/10/2021 04h00

Integrado há mais de quatro décadas ao chamado "mundo ocidental", João Paulo Lima Barreto, indígena da etnia Tukano, ganhou nome e sobrenome convencionais quando já era uma criança, por influência (ou melhor, pressão) de missionários católicos que promoveram mudanças nas tradições de sua aldeia. Nascido em 1972 na região do Alto Rio Negro (AM), originalmente foi chamado de Yupuri, e pode-se dizer que este é o nome que segue guiando os caminhos. "Yupuri representa o ser que cuida do coletivo. Para nós, o nome é uma força. Então, esse espírito da coletividade está em mim. Vejo que tenho como dar uma contribuição", diz ele.

Agora, é junto a um coletivo que João Paulo assume a curadoria da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que este ano terá edição virtual de 27 de novembro a 5 de dezembro. O convite foi sugestão do antropólogo Hermano Vianna — além dos dois, integram o grupo o escritor e filósofo Evando Nascimento, a editora Anna Dantes e o poeta e professor de literatura Pedro Meira Monteiro. Conciliar cinco olhares tão diversos foi a resposta encontrada pela organização para reagir às críticas que a festa sofreu nos últimos anos sobre falta de representatividade.

"A participação do João Paulo no coletivo é reflexo de uma tomada de consciência da festa", assume Mauro Munhoz, diretor artístico da Flip, que tem usado o termo "floresta curatorial". "Essa é a imagem que nos mobilizou a associar o alcance da Flip à voz daqueles que se dedicam a investigar e produzir conhecimentos que nem sempre são acessíveis à população."

A programação está sendo revelada aos poucos — por enquanto, apenas o nome do escritor chileno Alejandro Zambra foi divulgado —, mas eles chegaram apostando em pelo menos dois diferenciais. Primeiro, por dar um tema para a festa, e bem fora dos padrões: "Nhe'éry, plantas e literatura" (Nhe'éry é como os guaranis chamam a Mata Atlântica), com a justificativa de que "na pandemia, a humanidade reduziu sua mobilidade e experimentou uma temporalidade menos frenética, mais associada ao reino vegetal. Chegou a hora de pensar e aprender com as plantas".

O segundo diferencial é a decisão de homenagear não um escritor específico, como é a tradição da festa, mas pensadores indígenas mortos pela covid-19. Uma atitude ousada, visto que a homenagem costuma alavancar as vendas dos autores escolhidos.

Os curadores dizem que ainda não podem falar mais sobre o que vem por aí. Mas dada a experiência de João Paulo, já é possível ver nas entrelinhas como sua colaboração ajuda a moldar esse espírito coletivo. Pensar e aprender com as plantas é o que fazem seus ancestrais desde sempre. E fazer tributo à sabedoria dos pensadores das aldeias também é a causa a que ele tem se dedicado há anos, seja na carreira acadêmica (ele é doutor em Antropologia) ou no Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, em Manaus, que criou e dirige há quatro anos.

No Centro, que funciona desde 2017 -- tirando alguns meses fechado na pandemia --, João Paulo atua como tradutor de seu pai e seus tios, que fazem os atendimentos. Já passaram lá mais de 4 mil pacientes, 98% deles não indígenas. Ali, o foco é mais preventivo do que curativo.

"Quando soube do João Paulo, fiquei logo fascinado com o pensamento e as atividades dele. Quando veio o convite para a Flip, ele já era parte da conversa toda", explica Hermano.

João Paulo mostra produtos e remédios à venda no Centro de Medicina Indígena - Nathalie Brasil/UOL - Nathalie Brasil/UOL
João Paulo mostra produtos e remédios à venda no Centro de Medicina Indígena
Imagem: Nathalie Brasil/UOL
Óleos e perfumes feitos com recursos naturais, a partir de ervas da região amazônica - Nathalie Brasil/UOL - Nathalie Brasil/UOL
Óleos e perfumes feitos com recursos naturais, a partir de ervas da região amazônica
Imagem: Nathalie Brasil/UOL

Sem padrinho, com ações afirmativas

Foi assim que se criou uma situação curiosa: teremos um Lima Barreto à frente de um dos principais festivais literários do país. Ele conta que, antigamente, os padres sugeriam os sobrenomes para as famílias indígenas. Para a da mãe, deram Lima. E a do pai, Barreto. João Paulo só soube da existência de outro Lima Barreto, o escritor, quando ouviu uma comparação entre os dois ser feita por um professor da USP num evento acadêmico. Marcio Ferreira Silva, antropólogo da USP, disse o seguinte:

"O Afonso Henriques de Lima Barreto, nascido em 1881, filho de negros nascidos escravos, só teve acesso a uma formação escolar adequada porque seu padrinho, o Visconde de Ouro Preto, concordou em custear sua educação. Lima Barreto, como ninguém desconhece, foi um dos mais ilustres escritores das primeiras décadas da República. Cem anos depois, estamos diante de outro Lima Barreto, o João Paulo, que, felizmente, não deve favor a nenhum padrinho, graças às políticas de cotas vigentes na UFAM (Universidade Federal do Amazonas)."

Para chegar até aí, foi necessário encarar alguns conflitos e contradições. O avanço na educação se deu graças a quem queria explorar seu povo. Após fazer a escolinha na comunidade e o ginásio num internato católico, João Paulo cursou o ensino médio em Manaus, com bolsa de estudos oferecida por uma empresa de mineração que queria avançar em sua região. Quando João Paulo acabou os estudos, entretanto, o grupo já tinha desistido da área.

Entrou então no seminário católico, mas acabou desistindo do caminho da batina. "Comecei a me inquietar com a contradição entre o que pregavam e o que viviam na mesma igreja." Passou a dar aula de História e Geografia em escolas e se envolveu com a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). Em 2009, já formado em Filosofia e estudando Direito, um acidente marcou a família e a trajetória de João Paulo.

João Paulo Lima Barreto no portão do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, em Manaus - Nathalie Brasil/UOL - Nathalie Brasil/UOL
João Paulo Lima Barreto no portão do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, em Manaus
Imagem: Nathalie Brasil/UOL

Tratamento conjunto

Sua sobrinha Luciene levou uma picada de cobra, e foi socorrida em Manaus. "A primeira coisa que os médicos quiseram fazer foi amputar o pé dela. Não é da nossa cultura cortar uma parte do corpo. Achávamos que tinha que ser o último recurso. Propusemos tratamento conjunto: os dos médicos e o de meu pai e meus tios, que sempre cuidaram da saúde dos moradores da comunidade. Mas os médicos não toparam", relembra.

A discussão foi acalorada. Segundo João Paulo, os médicos afirmavam que, sem a amputação, a menina morreria em três dias. Àquela altura, a história já tinha ido parar no Jornal Nacional. O Ministério Público Federal foi acionado, e acabou emitindo a recomendação para que o tratamento conciliasse a medicina indígena com os métodos convencionais.

Assim foi feito, mas em outro lugar. Raymisson Monteiro, diretor da clínica que os acolheu, falou à época ao UOL: "Não há motivo para não aceitarmos eles aqui. Se fossem evangélicos, nós não teríamos que aceitar os pastores?". Médicos e pajés entraram em acordo sobre as possibilidades e os limites de cada tratamento. Luciene se recuperou em 3 meses, quando a previsão era de 6. Perdeu alguns movimentos, mas não uma parte do corpo.

Artesanatos vendidos no espaço ajudam os indígenas a fecharem as contas do centro - Nathalie Brasil/UOL - Nathalie Brasil/UOL
Artesanatos vendidos no espaço ajudam os indígenas a fecharem as contas do centro
Imagem: Nathalie Brasil/UOL

Não é magia. É conceito

Essa experiência fez João Paulo entrar em crise em relação a seus estudos. "Comecei a perceber que o Direito é muito careta. E queria propor caminhos possíveis de diálogo entre conhecimentos. Por isso, fui para a Antropologia".

Não que lá a porta estivesse totalmente aberta para esse diálogo. João Paulo tinha visão crítica à maneira como os antropólogos se apropriavam de aspectos do conhecimento indígena, sem contudo reconhecê-lo desta forma.

Sua dissertação tratou de peixes. Na verdade, bem mais que isso. "Comecei a fazer uma 'antropologia yo-yo', ou seja, na medida em que eu ia para o laboratório, mais eu era incitado ao conhecimento tukano em relação aos peixes". Assim, seu pai, o "kumu" (pajé) Ovídio Lemos Barreto, tornou-se co-orientador do trabalho. Agora, João Paulo faz parte de um grupo que cobra que a UFAM incorpore saberes indígenas na produção científica.

No doutorado, explorou a noção de corpo do ponto de vista dos especialistas indígenas do Alto Rio Negro. Para mostrar que o que os pajés fazem não é magia, mas conceito. Assim como seu trabalho no mestrado, a tese vai ser publicada como livro até o fim de 2021.