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Primeiro terreiro tombado em SP mostra luta por memória negra nos anos 1980

Pai Caio de Xangô retratado na fachada do terreiro de candomblé Axé Ilê Obá, localizado no bairro do Jabaquara, região sul de SP - Andre Porto/UOL
Pai Caio de Xangô retratado na fachada do terreiro de candomblé Axé Ilê Obá, localizado no bairro do Jabaquara, região sul de SP Imagem: Andre Porto/UOL

Adriana Terra

Colaboração para o TAB, em São Paulo

01/10/2021 04h00

Sobre o muro do quintal na Vila Fachini, no distrito paulistano do Jabaquara, zona sul, é possível observar o ritmo dos carros na extensa avenida ao lado. Já ali dentro, um terreiro de candomblé, o ritmo das atividades cotidianas em uma manhã de terça-feira é outro, com cachorros brincando e comida no fogão a lenha. Não são os automóveis que chamam a atenção, e sim uma grande árvore — o Iroko da casa, orixá do tempo e da ancestralidade, plantado entre 1965 e 1975, quando o Axé Ilê Obá se estabeleceu ali.

Ela e outras árvores, quartos e áreas nesse terreno de 4.000 m² são, desde 1990, tombados pelo órgão do Governo do Estado de São Paulo, o Condephaat. Trata-se de ação pioneira e ainda rara, fruto de um processo árduo protagonizado por Mãe Sylvia de Oxalá (1935-2014).

Assentamento para Exu na entrada do terreiro - Andre Porto/UOL - Andre Porto/UOL
Assentamento para Exu na entrada do terreiro
Imagem: Andre Porto/UOL

Paulistana nascida no bairro da Liberdade e formada em enfermagem, Mãe Sylvia se viu diante de um impasse em meados dos anos 1980. Herdeira espiritual da casa, com a morte de Pai Caio de Xangô e o interesse de parte da família que não era religiosa em vender o terreno, ela buscou meios de preservar o espaço, cujo destino mais provável era virar um hipermercado.

A chegada do metrô no Jabaquara foi acompanhada de obras de novos equipamentos para a região. No entanto, se a infraestrutura urbana tem um valor, Mãe Sylvia também sabia do valor de sua casa e juntou forças para que ele fosse reconhecido.

"O tombamento garantiu a continuidade de uma comunidade", diz o geógrafo Rafael da Costa Rodrigues, que estudou o processo em seu mestrado na USP. Ele defende que a luta de Mãe Sylvia ainda impactou em termos de memória e moradia: reforçou a herança negra no distrito onde havia um quilombo e questionou uma urbanização que se revertia em expulsão dos mais pobres. "Tombou-se um terreno e freou-se a especulação imobiliária."

Mãe Sylvia de Oxalá e da Yamorô Maria Antunes de Nanã retratadas na fachada da casa - Andre Porto/UOL - Andre Porto/UOL
Mãe Sylvia de Oxalá e da Yamorô Maria Antunes de Nanã retratadas na fachada da casa
Imagem: Andre Porto/UOL

Uma árvore no Jabaquara com raízes na Bahia

Hoje ialorixá da casa, a filha de Mãe Sylvia, Paula de Yansã, era uma criança quando o tombamento ocorreu. Na década de 1990, crescia brincando no terreiro com o irmão, hoje também sacerdote da casa, o Babaégbé Péricles de Oxaguian. "As lembranças são sempre da minha mãe lutando", conta. Até então, nenhum terreiro havia sido tombado no Estado. Mesmo em âmbito nacional, o único caso era o da Casa Branca, em Salvador, terreiro com então mais de 150 anos, reconhecido pelo Iphan em 1984. Foram lideranças desse terreiro que orientaram Mãe Sylvia a pedir o tombamento, já que as casas têm ligação.

Pai Caio foi iniciado no candomblé em 1941 em Salvador, por determinação da ialorixá da Casa Branca. Em São Paulo, fundou em 1950 no Brás um terreiro que mesclava ritos de umbanda e candomblé. Em 1960, a casa se muda para o Jabaquara e torna-se um terreiro de candomblé Ketu (uma das nações da religião, ligada aos iorubás). Cinco anos depois, ele adquire novo terreno. A construção levou uma década e seguiu o modelo que ele conheceu na Bahia, com casas ao redor do barracão para os orixás. A configuração está mantida pelo tombamento, o que dificulta que em nova disputa ele se torne, por exemplo, um supermercado.

Foi Mãe Sylvia quem guiou a historiadora Marly Rodrigues, técnica do Condephaat à época, na identificação do que seria protegido. "Acho que pelo ineditismo o conselho aceitou [a abertura do processo], mas enfrentei resistências da direção técnica. Uma delas foi exigir que todo material móvel fosse levantado: imagens, alguidares", conta Rodrigues. "Não se pede isso de uma igreja, só se cada peça for tombada", compara.

Cabana destinada aos caboclos, indígenas que habitavam originalmente a terra - Andre Porto/UOL - Andre Porto/UOL
Cabana destinada aos caboclos, indígenas que habitavam originalmente a terra
Imagem: Andre Porto/UOL

No decorrer do processo, uma mudança na diretoria do órgão melhorou o cenário. Foi então montada uma estratégia incluindo pareceres de acadêmicos estudiosos do tema, a fim de convencer os conselheiros. Mãe Sylvia também já havia articulado com políticos e ativistas — o Brasil vivia um período de redemocratização e fortalecimento do movimento negro.

Ainda assim, eram recorrentes questionamentos de profissionais do órgão competente sobre aspectos como a arquitetura. "Eu ouvia coisas do tipo: 'você pensa que isso significa algo?'. Aliás, barracão é uma palavra que arquitetos usavam para combater o tombamento. 'Imagine, um barracão'. Só que o barracão significa um lugar de comunidade", diz ela.

A questão é que a arquitetura dos terreiros ultrapassa a lógica de "pedra e cal", explica o professor da USP e antropólogo Vagner Gonçalves da Silva, que ajudou Mãe Sylvia no processo. "Material e imaterial, sagrado e profano são divisões eurocêntricas. Como a comunidade elabora no espaço uma forma? O valor arquitetônico ali está na elaboração de concepções de mundo diferenciadas, mesmo se ele estiver em uma casa urbana", diz ele.

Outra indagação comum em casos como esse é sobre antiguidade. "A questão é a mesma que você faz diante de um galho de uma árvore: ele pode ter dois anos, mas a raiz tem centenas. Não se pode medir antiguidade por esse processo porque todos os terreiros de São Paulo são descendentes de terreiros muito antigos", contra-argumenta o antropólogo.

Mãe Paula, atual ialorixá da casa, é filha de Mãe Sylvia, retratada em quadro à esquerda, e sobrinha-neta de Pai Caio (direita), fundador do Axé Ilê Obá - Andre Porto/UOL - Andre Porto/UOL
Mãe Paula, atual ialorixá da casa, é filha de Mãe Sylvia, retratada em quadro à esquerda, e sobrinha-neta de Pai Caio (direita), fundador do Axé Ilê Obá
Imagem: Andre Porto/UOL

O terreiro inventou o Brasil -- que não o reconhece

É no mesmo barracão desvalorizado nos anos 1980 por arquitetos que Mãe Paula mostra as pinturas de sacerdotes do terreiro, os tambores usados em ritos e o ariaxé, conjunto que simboliza a energia do terreiro, sobre o qual está a coroa de Xangô, orixá do fundador da casa. "Acho que o tombamento dá um respaldo, porque a pessoa fala: 'como vou destruir algo público?'", diz ela, relembrando tempos de perseguição à Pai Caio.

Após quase três décadas do caso, em 2019 um conjunto de seis terreiros foi tombado no Estado. O professor Vagner Gonçalves conta que, para isso, foi feito um grupo de trabalho com comunidades de diversas casas. Esses casos estão no livro "Terreiros Tombados em São Paulo", organizado pelo antropólogo e prestes a ser lançado.

Entrada do Axé Ilê Obá, com a placa indicando o tombamento - Andre Porto/UOL - Andre Porto/UOL
Entrada do Axé Ilê Obá, com a placa indicando o tombamento
Imagem: Andre Porto/UOL

"O Brasil construiu o terreiro e o terreiro construiu o Brasil, com o samba, os maracatus, o jongo, a capoeira. Só que como o Brasil se quer branco, não reconhece que esses elementos são derivados da mão negra, por isso há a esquizofrenia de, ao mesmo tempo, exaltar e reprimir, ou não reconhecer", diz Gonçalves. Para ele, reivindicações como a que tem ocorrido em torno de monumentos são importantes para disputar essa lógica racista. Em São Paulo, por exemplo, há o movimento SP é Solo Preto e Indígena!

Autora de "De religião a cultura, de cultura a religião: travessias afro-religiosas no espaço urbano", a antropóloga Mariana Ramos de Morais atenta para outro aspecto central para mudar o cenário. "É preciso dar condições de vida adequadas para a população detentora desse nosso vasto patrimônio. Como salvaguardar uma prática se quem a pratica não está comendo ou está perdendo a casa?", questiona.

Não por acaso, é na batalha para manter seu endereço que muitos terreiros — como o Axé Ilê Obá — travam a luta pela valorização de sua cultura. "Eu acho que esses espaços revelam a possibilidade de repensar a lógica da cidade e elucidam uma outra possibilidade de memória", diz o geógrafo Rafael da Costa. "O tombamento foi de extrema importância não só para manutenção da religião, mas histórica", diz Mãe Paula.