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Femme fatale de sotaque mineiro: os bastidores do sucesso de Marina Sena

Marina Sena antes do seu primeiro show solo na cidade do Rio de Janeiro - Ricardo Borges/UOL
Marina Sena antes do seu primeiro show solo na cidade do Rio de Janeiro
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Valmir Moratelli

Colaboração para o TAB, do Rio

20/12/2021 04h00

Enquanto turistas fazem check-in no lobby do hotel em Copacabana, no Rio, Marina Sena se joga no sofá para as fotos desta reportagem. Não parece se incomodar com o vai e vem de malas e os olhares curiosos dos hóspedes. Gosta de chamar atenção. "Sempre fui exibida, aparecida demais. Nos eventos da escola, se deixassem, eu me voluntariava até para soltar pomba da paz", diz.

Horas mais tarde, na madrugada de sábado (11), ela faria o primeiro show na cidade, no BCo Space. No quarto, é maquiada pelo amigo Sassá Ferreira. O namorado, Iuri Rio Branco, seu produtor musical e baterista, bebe cerveja na varanda de vista estonteante para a orla. De vez em quando ela o chama para um beijo: "Meu gostoso!". A mãe, Bete Serra, fica ao redor, ainda se convencendo do sucesso da caçula. "Estão mesmo ouvindo as músicas dela, é?".

Nos festivais, nas pistas, nas festinhas privadas, nas rádios e playlists mais ecléticas, é impossível passar incólume aos hits da mineira da minúscula cidade de Taiobeiras. "Por Supuesto'', música de seu álbum de estreia, "De Primeira", chegou ao primeiro lugar na lista Top Viral Global do Spotify. Foram vinte milhões de plays. A música viralizou de forma orgânica — sem investimento de posts patrocinados — entre os usuários do TikTok e dos reels do Instagram.

A canção vem sendo usada para dublagens em vídeos de selfies variadas. "Na pandemia fiquei anestesiada. Eu mentalizava: 'Calma, vai chegar seu momento!'. Fiquei apática para controlar a ansiedade que me domina para fazer as coisas acontecerem. Agora chegou a hora", diz, decidida.

Marina Sena no Rio de Janeiro - Ricardo Borges/UOL - Ricardo Borges/UOL
Marina Sena no Rio de Janeiro
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Rastro do sucesso

Grande revelação do pop nacional em 2021, Marina faturou três troféus no Prêmio Multishow na noite de quarta-feira (8), no Rio: nas categorias Revelação do Ano; Capa do Ano, pelo álbum "De Primeira"; e Experimente, categoria em parceria com a plataforma YouTube Shorts.

Admite que ainda não sabe lidar com os "haters". Vários deles a atacaram em sua conta no Instagram após a recente premiação. A consagração de Marina, incontestável, desagradou aos fãs do piseiro João Gomes, que externou no Twitter ter ficado "meio triste" pela derrota nas duas categorias que disputava (Revelação do Ano e Experimente). Marina teve o perfil do Instagram derrubado momentaneamente. "Claro que tenho inseguranças com a opinião alheia, mas não deixo que passem por cima dos meus sonhos. Não é o outro que me valida, então sigo em frente", afirma.

Marina Sena se prepara em quarto de hotel com sua equipe - Ricardo Borges/UOL - Ricardo Borges/UOL
Marina Sena se prepara em quarto de hotel com sua equipe
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Os troféus ornam a mais alta prateleira do guarda-roupa do hotel e logo ganharão um lugar de destaque na casa da família, no norte de Minas.

Voltar para casa, aliás, é um plano cada vez mais difícil na sua agenda atribulada. Nas próximas semanas, Marina tem shows entre São Paulo, Belém e Maceió. Só para nas festividades natalinas, que não abre mão de passar com os familiares. Ano novo e as primeiras semanas de janeiro já estão tomadas. "Me falam para onde eu tenho que ir e eu vou. Acordo e pergunto: 'o que tenho que fazer hoje'? Não sei nada de cabeça, é muita função, sô", diz, em seu melodioso sotaque.

Seguir o rastro de como chegou até aqui é um exercício tão ligeiro quanto o tempo que demorou para alcançar as paradas. "Um belo dia entrei nas redes sociais e percebi que tinha muita gente utilizando minha música. Foi assim! Num dia tocou 50 mil vezes, no outro 700 mil. Há dois meses não tinha nada disso. É bem chocante", resume a cantora, que saiu de casa aos 18 anos, certa de que precisava investir em música, após ser reprovada no último ano do ensino médio.

Foi quando rumou para Montes Claros (MG). Por cinco anos, foi vocalista dos grupos Rosa Néon e Outra Banda da Lua. Para desespero da mãe, não fez faculdade — ao contrário da irmã mais velha, hoje advogada. "Ela não era boa aluna, me deu muito trabalho. Só Deus sabe! Ela largava o edredom na cama, para me enganar que já tinha levantado, e ia pra outro canto dormir", recorda.

Marina Sena e o namorado, Iuri Rio Branco, seu produtor musical e baterista - Ricardo Borges/UOL - Ricardo Borges/UOL
Marina Sena e o namorado, Iuri Rio Branco, seu produtor musical e baterista
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Perrengue chique

Nos bastidores, Marina guarda um jeito aparentemente despretensioso, de quem começa a tatear o estrelato artístico. "Vim de uma cidade muito longe. Nem sabia que aquelas pessoas da TV existiam. Na hora que vi a Xuxa na minha frente (no Prêmio Multishow), fiquei impactada. A bicha é grande! Ela veio e falou: 'Oi, Marina'. Eu: 'oooooiiiii', super íntima", brinca.

Sobre os bônus e ônus da fama, não faz firulas. "O lado bom é que agora fico em hotel de frente pro mar. Os perrengues vão virando perrengue chique! Tipo, não ter tempo de fazer unha pro show. Antes o nível era 'foda-se a unha, só quero subir no palco'. Era zero vaidade, não passava nem base no rosto, achava um saco. Agora tem que ter 'montação'", diz. Em seguida, pede pra completar a resposta. "Coloca aí que o ônus é que dormir só quatro horas por noite me deixa puta da vida!".

Hoje, a palavra que gosta de usar é empoderamento. Assim como Marília Mendonça, também compositora, defende que as mulheres cantem músicas do seu próprio ponto de vista. "Quando você fala, é a sua visão. Se só tem homem passando a visão, parece que só tem aquilo pra pensar. Mas não é, tem que comprar o boi [a ideia] da mulher! A gente se empodera assim", diz ela, com cerca de sessenta letras inéditas engavetadas para o futuro.

O crítico e produtor musical Marcus Preto é um dentre os muitos fãs de Marina. "O Silva já tinha comentado comigo exatamente isso: ela tem borogodó no jeito de cantar. É aquela coisa que vai além da imagem, você ouve a 'maldade' na voz dela, na interpretação. Aquele 'fator Zeca Pagodinho' que pouca gente tem. Marina também tem disso."

Na van com sua equipe, Marina Sena está a caminho do seu primeiro show solo no Rio - Ricardo Borges/UOL - Ricardo Borges/UOL
Na van com sua equipe, Marina Sena está a caminho do seu primeiro show solo no Rio
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Moeda no umbigo

Chama a atenção sua semelhança física com Marisa Monte. "Desde muito jovem, quando ela prendia o cabelão, o povo já falava isso", conta a mãe. Mas suas referências são Gal Costa e Anitta. "São mulheres modernas, cada uma a seu modo, em suas épocas", diz a cantora, que se define feminista. "Não tem como não ser. Minha mãe é uma pessoa que nunca se disse feminista, mas por exemplo... Eu não depilava o sovaco. Aí ela falou: 'O que adianta não depilar, se vai chamar um homem pra trocar o chuveiro?' É isso!".

Mas nem sempre foi assim tão decidida. "Ninguém nunca viu meu umbigo em Taiobeiras! Ele é pra fora, eu morria de vergonha, só usava maiô, jamais blusinha curta. Usava moeda com esparadrapo pra tentar fazê-lo entrar. Quando me mudei pra Montes Claros, só não mostrei a buceta porque não dava! Me libertei de tudo. Comecei a ser artista, entrou em cena a licença poética da personagem", diverte-se.

Marina Sena recebe placa de single de Platina em seu camarim - Ricardo Borges/UOL - Ricardo Borges/UOL
Marina Sena recebe placa de single de Platina em seu camarim
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Pé de galinha

Ela está pronta para o show. Já sai da van, que a leva ao local da apresentação, munida de olhar desafiador rumo ao camarim. Pelo caminho ouve "gostosa", "linda", "maravilhosa" e sorri, serena.

A seu dispor, pratos de salame fatiado e palmito. "Se deixar, passo o dia comendo palmito. Mas eu amo mesmo é pé de galinha. Como quinze de uma vez só, cada tiquinho, chupo o osso e o tutano, deixo no palito. Sento na mesa e fico horas, não é, mamãe?". A mãe concorda, e acrescenta outra paixão: arroz com pequi.

Marina Sena em seu primeiro show solo na cidade do Rio de Janeiro - Ricardo Borges/UOL - Ricardo Borges/UOL
Marina Sena em seu primeiro show solo na cidade do Rio de Janeiro
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Momentos antes do show, outro resultado do fervor de suas músicas. Marina é surpreendida com a equipe da gravadora, a Altafonte, que lhe traz um disco de platina, como marco pelas mais de 28 milhões de execuções em plataformas digitais. Ela vibra, dá gritinhos e não esquece de chamar a mãe, orgulhosa, para a foto oficial com sua equipe.

Passa de uma hora da manhã. Marina segue em direção ao palco. O público vibra com as luzes que a anunciam. Centenas de celulares estão apontados para ela, que abusa das coreografias voluptuosas já nos primeiros acordes. Bete, do canto do palco, se convence da sua sina. "É, tudo bem... Não fez faculdade, mas taí ó. Minha filha é uma artista, né não?".