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A viúva de Robson, jovem morto na ditadura que inspirou movimento negro

Sueli Alves da Luz, viúva de Robson Silveira da Luz, homem negro que foi torturado e morto na 44ª Delegacia de Guaianases, em 1978 Imagem: Gsé Silva/UOL

Lucas Veloso

Colaboração para o TAB, de São Paulo

09/05/2022 04h00Atualizada em 10/06/2022 13h42

De vestido vermelho, trança no cabelo, óculos e um pano de prato onde enxuga as mãos depois de lavar louça, Sueli Alves da Luz, 64, aparece na sala de sua casa, em Guaianases, na zona leste de São Paulo. Chega dizendo que tem dezenas de feridas na barriga, por infecções e alergias. Cerca de 15 medicações são necessárias para conter o mal-estar e as dores que sente durante o dia, algo comum "em gente velha", como ela mesmo define, mas também fruto das tragédias que viveu.

Na vizinhança, Sueli é conhecida como Vivi, apelido dado pela mãe. Quando criança, vivia cantando por onde passava — a última sílaba de bem-te-vi, pássaro conhecido pelo canto, foi a forma carinhosa de alcunhar a menina nascida em Pernambuco que veio logo cedo para São Paulo com a família. Fã de Martinho da Vila, diz que não vive sem samba.

Sueli é do tipo que fala, replica e ri dos próprios comentários. "Falo com todo mundo. Deus, o mundo e os periquitos", diz. O bom humor, entretanto, encobre um passado dramático. Ela é viúva de Robson Silveira da Luz, jovem negro morto aos 22 anos, em 4 de maio de 1978, durante a ditadura militar. À época, o caso levantou debates sobre o tratamento policial a pessoas negras e pautou a criação do MNU (Movimento Negro Unificado), uma das principais entidades em defesa dos direitos da população negra.

3.400 páginas

Só 43 anos depois, Sueli conseguiu acesso aos arquivos do processo sobre a morte de Robson. O caso é conhecido e foi citado na Comissão Nacional da Verdade, mas o processo judicial continuava arquivado: a investigação de 11 volumes, e cerca de 3.400 páginas, estava guardada no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo.

O historiador Lucas Scaravelli da Silva localizou os documentos, mobilizou a família Luz e, junto a acadêmicos e ativistas do movimento negro, pressionou para agilizar o acesso às páginas. Mestre, Silva agora dedicará sua pesquisa de doutorado na área de antropologia social da USP (Universidade de São Paulo) à história de Robson.

Em 31 de março deste ano, Sueli foi ao fórum junto a ativistas. Lá fizeram um ato simbólico que representou o desarquivamento dos documentos. Até então, as informações que ela tinha eram as que ela própria viveu, além de relatos e conversas que o advogado do caso lhe repassava.

Até hoje, porém, é preciso mexer nos originais do processo ou fazer cópias impressas do material para ler as milhares de páginas. Um grupo de pesquisa da zona leste de São Paulo, o CPDOC Guaianás (Centro de Pesquisa e Documentação Histórica Guaianás), atualmente está empenhado em digitalizar e disponibilizar o material à população.

Neste ano, Sueli foi ao fórum e obteve acesso ao processo referente à morte de Robson pela primeira vez Imagem: Gsé Silva/UOL

Cacharrel rosa e calça xadrez

Robson e Sueli se conheceram em uma festa de casamento. Tinham pouca intimidade, nas palavras dela. Beijos e abraços em público não eram bem-vistos, mas, conversa vai, conversa vem, os dois se viram mais vezes, se juntaram e casaram.

Embora casados, cada um morava em uma casa, já que Robson cuidava do bar de seu pai no Ipiranga, na zona sul, e lá dormia de segunda a sexta-feira. Nos fins de semana, voltava para Guaianases para ver a esposa e o filho, Rogério, além de levar roupas para que ela lavasse e passasse. A vida seguiu assim por alguns meses.

Quando estava em Guaianases, Robson gostava de ir a bailes, festas, além de jogar bola. Certa vez, foi com amigos a um baile de noivado. Na volta, um caminhão de frutas estava estacionado em uma rua perto de sua casa. Robson e os amigos pegaram ali uma caixa de laranja, mexerica e abacaxi e saíram comendo, rindo.

Dias depois, o fato foi denunciado, o que motivou uma busca policial. Na manhã de 29 de abril, ele foi parado dentro de um ônibus e levado ao 44º Distrito Policial. Foi torturado por horas, segundo relatos de testemunhas, entre funcionários da delegacia e outros detidos. Robson foi levado ao "pau de arara", recebeu chutes, pontapés e socos. No fim do dia, foi "liberado", bastante ferido.

Sueli só soube da prisão e da tortura quando um amigo da família chegou em sua casa, desesperado. Ela logo partiu para a rua, procurando Robson nos hospitais. Impedida por policiais de entrar no Hospital de São Miguel, na zona leste, diz que se vestiu de enfermeira e contou com a ajuda de um vizinho (que por acaso trabalhava ali) para entrar escondida no lugar onde ele estava.

"Mesmo não me falando o nome dele, uma das atendentes disse que entrou um paciente de cacharrel rosa e calça xadrez, que eu tinha dado para ele. A mulher sabe a roupa do marido, né? É a gente que lava", afirma.

'Ele estava todo roxo'

Depois de entrar e reconhecer o marido, Sueli voltou para casa para buscar roupas limpas. No meio-tempo, ele foi transferido para o Hospital das Clínicas. No novo lugar trabalhava uma tia de Robson, Eurides. Sueli sabia e foi até ela para pedir ajuda. Quando viu a situação, Eurides começou a gritar pelos corredores. Em poucos segundos, médicos e enfermeiros deram remédios para minimizar a dor de Robson, tentando cuidar de seu corpo debilitado e fraturado. "Ele estava todo roxo", lembra Sueli.

Uma semana depois da internação, Robson pediu um caça-palavras e um chinelo. "Falei para ele: 'levanta daí, preguiçoso. Você tá folgado, deitado o tempo todo assim.'" Robson disse que queria levantar. Essa foi a última conversa que tiveram. Minutos depois, enquanto Sueli voltava para casa, ele morreu. Seu filho tinha 3 anos na época.

O enterro foi simples, no cemitério da Vila Formosa, na zona leste da cidade. Os dias seguintes à morte de Robson não foram leves para Sueli. "Ninguém me ajudou. Fiquei com um filho na barriga e outro no colo, mas ninguém me aceitou", diz. Sueli recebeu incontáveis ameaças de morte que ela atribuiu a policiais.

"Se eles quisessem me matar, eles iam me matar. Sabiam que eu estava sozinha com duas crianças."

Sueli mostra recorte da reportagem publicada no jornal alternativo Versus sobre o caso de Robson da Luz Imagem: Gsé Silva/UOL

Uma jovem destemida

Familiares e amigos se afastaram, temendo serem "pegos" por andarem com ela. Ela, porém, não deixou de falar do assunto com a imprensa e denunciou o caso o quanto pôde.

Dois meses depois da morte de Robson, foi fundado o MNU e, junto à articulação de ativistas negros, Sueli conseguiu contato com um primeiro advogado e o caso ganhou mais alcance. "Fiquei sem nada, sem dinheiro, sem ninguém. E eles me ajudaram bastante", emenda.

Rafael Pinto, 73, é primo de Robson e um dos fundadores do MNU. "Sueli foi crucial. Mesmo grávida, ela não deixou de lutar pelo caso no que fosse necessário. Era uma mulher jovem, guerreira. Nas tradições da nossa ancestralidade africana, tivemos tantas guerreiras", lembra.

Em 1988, dez anos após a prisão e a tortura de Robson, o delegado Luiz Alberto de Abdalla e os policiais José Maximino Reis e José Pereira de Matos foram julgados e responsabilizados pela morte do jovem. Abdalla foi afastado do cargo e os outros dois foram exonerados. Em 1996, a Justiça deu direito a indenização por dano moral para a família Luz. Mas, como nenhum dos julgados foi preso, Sueli ainda se diz injustiçada.

O caso de Robson expôs a violência policial contra pessoas negras no Brasil na época da ditadura -- um quadro que, da década de 1970 para cá, só se acirrou: segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dos 6.416 brasileiros mortos por intervenção policial em 2020, 78,9% eram negros.

"Continuamos em todos os marcadores da desigualdade, da violência policial ao feminicídio", diz a escritora Lenny Blue de Oliveira, 68, atual vice-presidente da Comissão Nacional da Verdade da Escravidão Negra no Brasil, da OAB-SP. "Mulheres negras idosas são resgatadas de trabalho escravo, crianças negras estão no trabalho forçado, estamos buscando comida nos lixos e comendo sopa de ossos. Mas não há comoção, não sensibiliza."

'Levei tanta rasteira da vida', diz Sueli, hoje aos 64 anos, vivendo na zona leste de São Paulo Imagem: Gsé Silva/UOL

Deixar a alegria

"A vida me ensinou bastante", ela diz várias vezes, ao longo da conversa com o TAB. Depois de perder o primeiro marido, ela enterrou o filho de 21 anos, vítima de um assalto a caminho do trabalho. "Levei tanta rasteira da vida", conta.

Nessas quatro décadas que se passaram desde a morte de Robson, Sueli se casou novamente, teve três filhas e duas netas.

"A mãe tá ficando doida" é uma frase comum das filhas, principalmente quando Sueli faz dancinhas famosas nas redes sociais com as netas. "Brinco muito", diz, descontraída, e na sequência, pega um cabo de vassoura, sai caminhando e mostrando as galinhas e o que planta no fundo do quintal.

"Sou sempre alegre. Falei que vou morrer e deixarei a alegria."

Atualização: um mês após a publicação da reportagem, os pesquisadores avançaram na análise dos registros oficiais do processo. A primeira versão deste texto dizia que Luz tinha 21 anos e foi enterrado no cemitério da Consolação. Na verdade, ele tinha 22 anos e foi enterrado no cemitério da Vila Formosa, informa o processo. O texto foi atualizado.

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