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Homenagens a mortos e desaparecidos na ditadura são roubadas no Recife

Calçada da Memória, no Recife - Ricardo Labastier/UOL
Calçada da Memória, no Recife Imagem: Ricardo Labastier/UOL

Wagner Oliveira

Colaboração para o TAB, do Recife

14/03/2022 04h00

A chuva havia dado uma trégua depois de uma noite e madrugada de temporal quando o sol, tímido, apareceu para esquentar a manhã recifense. O Rio Capibaribe, sempre lembrado na obra de João Cabral de Melo Neto, estava repleto de baronesas (plantas aquáticas), e chamava a atenção de quem passava pelas pontes do Centro. O rio também margeia a Rua da Aurora, uma das mais conhecidas da capital pernambucana.

É neste endereço, que tem vista cobiçada, onde estão as homenagens a quem lutou a favor da democracia na época da ditadura militar e foi assassinado. Porém, um recente ato de vandalismo no local deixou militantes de direitos humanos apreensivos.

Há um mês, 26 das 42 placas de metal expostas na Calçada da Memória com fotos e uma pequena biografia dos desaparecidos políticos foram furtadas. O crime aconteceu no final de semana -- provavelmente, durante a madrugada. Até agora, não se sabe quem levou as homenagens e qual foi o destino dado a elas. Só quem passa com um olhar mais atento ou sabe que ali existe um memorial é que sente a falta das fotos. O ex-preso político e coordenador do Comitê Memória, Verdade e Justiça para Democracia de Pernambuco, Edival Nunes Cajá, afirma que essa não foi a primeira vez que o espaço sofreu vandalismo.

"Isso é um desrespeito à história desses heróis que foram assassinados lutando por dias melhores. Já deve ser a quinta vez que essas placas são levadas daqui e isso precisa ser investigado", destaca Cajá. As placas, até então, eram custeadas e colocadas pelos familiares dos mortos e desaparecidos políticos no espaço junto ao Monumento Tortura Nunca Mais. Essa realidade mudou quando, em dezembro de 2020, a Prefeitura do Recife padronizou e substituiu todas as placas da Calçada da Memória. A melhoria foi uma reivindicação do Comitê.

"As placas foram colocadas aqui em janeiro de 2001, na virada do milênio. Esse ato de vandalismo fere os familiares dos mortos e desaparecidos. Pode ter sido um ato praticado por gente da direita", sugere Cajá, enquanto olha o que sobrou para homenagear os colegas.

O ex-preso político e coordenador do Comitê Memória, Verdade e Justiça para Democracia de Pernambuco, Edival Nunes Cajá - Ricardo Labastier/UOL - Ricardo Labastier/UOL
O ex-preso político e coordenador do Comitê Memória, Verdade e Justiça para Democracia de Pernambuco, Edival Nunes Cajá
Imagem: Ricardo Labastier/UOL

Quem também pede rigor na apuração do sumiço das placas é a ativista de direitos humanos e fundadora da ONG Tortura Nunca Mais, Amparo Araújo. Irmã e ex-companheira de desaparecidos políticos, ela segue até hoje sem saber onde estão os restos mortais do irmão Luiz Almeida Araújo, morto em 1971, após ter sido capturado em São Paulo. "Tentamos registrar um boletim de ocorrência na Polícia Civil para que haja a apuração desse ato de vandalismo, mas não conseguimos. Fomos informados que a reclamação teria que ser feita pela prefeitura. Nosso objetivo agora é agendar uma reunião com o secretário de Defesa Social para formalizar o pedido de investigação", explica Amparo, que, diferentemente do colega Cajá, acredita que as placas podem ter sido levadas por alguém que as vendeu para comprar comida ou até mesmo drogas.

A Secretaria Executiva de Direitos Humanos do Recife informou que manterá diálogo com a SDS (Secretaria de Defesa Social) para reforçar a fiscalização e o policiamento na área. A secretaria disse ainda que o Memorial Tortura Nunca Mais será revitalizado, o que vai possibilitar a inclusão de novos homenageados.

Amparo Araújo, irmã e ex-companheira de desaparecidos políticos - Ricardo Labastier/UOL - Ricardo Labastier/UOL
Amparo Araújo, irmã e ex-companheira de desaparecidos políticos
Imagem: Ricardo Labastier/UOL

Militante desde adolescente

Foi no dia 16 de junho de 1971, data em que comemorou aniversário, que Amparo Araújo viu o irmão Luiz Almeida Araújo pela última vez. O encontro entre os dois aconteceu em São Paulo, para onde a família alagoana mudou-se após a separação dos pais de Luiz e Amparo. A notícia do desaparecimento de Luiz foi dada à mãe no dia 27 de junho daquele ano, três dias depois da data marcada para um encontro dele com um dirigente da ALN (Ação Libertadora Nacional) e um agente infiltrado nas forças repressoras. Até hoje, a família não recebeu os restos mortais do militante.

A placa com a foto e o nome de Luiz Almeida não foi levada pelos vândalos no mês passado. No entanto, a que prestava homenagem a um ex-marido de Amparo Araújo, Luiz José da Cunha, o Comandante Crioulo, foi furtada da Calçada da Memória. "Meu irmão e meu ex-marido foram mortos durante a ditadura e essas placas são uma maneira de manter viva as memórias deles e dos outros companheiros", destaca Amparo.

Ela conta que o irmão havia acabado de voltar de um treinamento em Cuba e cursava sociologia na Unicamp quando foi assassinado. Morreu aos 28 anos. "Os restos mortais dele ainda não foram entregues à família. Estão em São Paulo, junto com muitos outros, em análise", pontua Amparo, que militava, ainda adolescente. Ela e Luiz eram membros da ALN. Amparo fundou, com alguns amigos, em agosto de 1986, o Movimento Tortura Nunca Mais de Pernambuco. Ela exerceu cargos como secretária de Direitos Humanos e Segurança Cidadã do Recife e foi ouvidora da SDS, em Pernambuco.

Amparo Araújo, irmã e ex-companheira de desaparecidos políticos - Ricardo Labastier/UOL - Ricardo Labastier/UOL
Amparo Araújo, irmã e ex-companheira de desaparecidos políticos
Imagem: Ricardo Labastier/UOL

Torturado na prisão

Era noite de sexta-feira quando um carro ocupado por quatro homens estacionou em frente a uma parada de ônibus na Avenida Conde da Boa Vista, no Centro do Recife. Havia cerca de 40 pessoas no local, mas os três ocupantes que desceram do veículo estavam atrás de uma só. Edival Nunes Cajá havia acabado de participar de uma reunião da Comissão de Justiça e Paz da arquidiocese de Olinda e Recife, criada por dom Helder Câmara, quando foi capturado.

Naquela época, em maio de 1978, Cajá trabalhava na CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e cursava ciências sociais na Universidade Federal de Pernambuco. "Os homens que desceram do carro me chamaram de comunista e falaram palavrões antes de me forçarem a entrar no carro. Resisti até onde pude, mas fui vencido por eles. Então, eu gritei: meu nome é Caja, avisem a dom Helder que estou sendo sequestrado", conta o sociólogo e presidente do Centro Cultural Manoel Lisboa.

O ex-preso político afirma que passou três dias sendo torturado, até que a notícia da prisão ganhou manchetes de jornais e os estudantes da UFPE iniciaram uma greve. "Eles faziam essas prisões nas sexta-feiras à noite porque era mais fácil de esconder da imprensa. Fui torturado durante toda a madrugada e continuei sendo agredido no sábado, no domingo e na segunda-feira. Só pararam de me torturar depois que a notícia saiu na capa do Diario de Pernambuco", lembra Cajá.

Durante o tempo em que esteve preso, o sociólogo ficou a maior parte em prisão solitária. No dia em que foi sequestrado, Cajá foi encaminhado para o prédio sede da Polícia Federal. Pouco tempo depois, foi levado para o então Presídio de Dois Unidos, depois foi transferido para o Presídio de Itamaracá e, por fim, para o Batalhão da Polícia Militar Dias Cardoso, onde ficou seis meses, até ser libertado em 1979.

Homenagens a vítimas da ditadura arrancadas da Calçada da Memória - Ricardo Labastier/UOL - Ricardo Labastier/UOL
Homenagens a vítimas da ditadura arrancadas da Calçada da Memória
Imagem: Ricardo Labastier/UOL

Local histórico e ponto turístico

O monumento Tortura Nunca Mais, na Praça Padre Henrique, na Rua da Aurora, foi o primeiro monumento construído no Brasil para homenagear os mortos e desaparecidos políticos. Inaugurado em agosto de 1993, o local é palco para protestos -- muitos deles em defesa dos direitos humanos -- e um ponto turístico da cidade.

A peça principal desse memorial da justiça é a escultura de um homem pendurado por uma haste de aço em posição fetal, fazendo referência à posição de tortura chamada de "pau-de-arara". Além das placas com as fotos dos desaparecidos políticos e do monumento principal, outras duas peças chamam a atenção e completam as homenagens feitas a quem sofreu torturas e foi morto durante a ditadura.

Uma delas, representada por um sol, recebeu o nome de "Nunca Mais'' e homenageia a luta pela anistia em Pernambuco. Outra obra, que representa uma mão, foi feita em homenagem ao padre Antônio Henrique Pereira, assassinado em 1969 como forma de intimidar dom Helder Câmara, de quem padre Henrique era discípulo. O religioso foi sequestrado, torturado e assassinado aos 28 anos.

Turistas de outras cidades e estados costumam parar para fazer fotos e saber um pouco mais da história dos mortos e desaparecidos políticos pernambucanos. O local também é visitado por recifenses que costumam andar de bicicleta nos finais de semana. A Secretaria Executiva de Direitos Humanos do Recife ressalta que o novo projeto arquitetônico para a Calçada da Memória já foi contratado e será iniciado em breve.