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'Carreguei a cruz de trilhões nas costas': uma tarde com Pureza Loyola

Foto do dia em que Pureza reencontrou o filho Abel, em 1996: o rapaz foi mantido em condições análogas à escravidão - Arquivo Pessoal
Foto do dia em que Pureza reencontrou o filho Abel, em 1996: o rapaz foi mantido em condições análogas à escravidão
Imagem: Arquivo Pessoal

Mônica Manir

Colaboração para o TAB, de São Luís (MA)

21/05/2022 04h01

Pureza puxa um lado do vestido para alinhar uma barra com a outra. Comprou o modelo cor de goiaba-mortiça numa botica em Bacabal, no interior do Maranhão, onde mora. Diz que é uma vestidura do tempo passado que botou pra uso. Uso de festa, porque é dia de pré-estreia do filme "Pureza" em São Luís, estrelado pela paraense Dira Paes, mas livremente inspirado em Pureza Lopes Loyola, 75, esta que rodou o mundo atrás do filho ludibriado por "gatos" do trabalho escravo e que agora relata sua trajetória sentada em uma cama de hotel, as mãos acariciando os próprios pés, os olhos pra lá do horizonte.

"Carreguei a cruz de trilhões nas costas", diz. "O peso ficou muito grande e fui afundando, as pernas ficando finas, a costa corcunda, os dentes quebrados, mas, se todo mundo carregar um pedacinho da cruz, ninguém cansa, ninguém fica doente, um ajuda o outro."

A cruz foi ter denunciado nos anos 1990 o aliciamento de pessoas, homens em sua maioria, para o trabalho escravo em fazendas no Brasil profundo. Decidida a encontrar o caçula dos cinco filhos, ela se embrenhou no cotidiano cruel de peões chamados a desmatar quilômetros de mata sobre os quais os proprietários botariam gado - em troca de um contrato de emprego que nunca existiu.

"Eu me fiz de mendiga, um pé no chão, outro calçado, me soquei dentro de roupas velhas, com a bolsinha de lado, pra ter a ousadia de chegar até os trabalhadores, saber o que comiam, onde dormiam", relata. O que encontrou nas andanças pelo Maranhão e Pará foram redes tísicas à mercê de onça, água contaminada, documentos confiscados e dívidas impagáveis, que atrelavam os homens àquela condição.

"Pagavam duas vezes mais caro tudo, tudo, tudo o que precisavam", diz. Pureza vasculha o chão. "Lá, uma chinelinha dessa seria num valor doido, tremendo, pra pessoa ficar devendo e trabalhando até a morte." Morte por exaustão ou por tentativa de fuga — na base da bala e, agora, insiste ela, na base do fogo vivo: "Os cativos viram tudo cinza".

Pureza Loyola Lopes visita São Luís para conferir a estreia do filme inspirado em sua vida - Mônica Manir/UOL - Mônica Manir/UOL
Pureza Lopes Loyola visita São Luís para conferir a estreia do filme inspirado em sua vida
Imagem: Mônica Manir/UOL

Fé em Deus e no mundo

Na época, ninguém do poder a atendeu, nem Brasília, nem Ministério do Trabalho, nada, coisa nenhuma. Pureza, no entanto, acredita piamente em Deus e no estrangeiro. Foi parar na Alemanha ("Passei fome que só jumento porque a comida de lá não dá pra mim"), deu entrevista para a BBC de Londres ("Entrei 2 horas da tarde, não sei a que horas saí"). Foi na capital britânica, aliás, que recebeu em 1997 o Prêmio Anti-Escravidão da Anti-Slavery International, organização fundada em 1839, a mais longeva de combate ao trabalho escravo em atividade. Há pouco tempo, fez outro longo depoimento, dirigido a um veículo de Jerusalém. "Se tem homem de dinheiro lá, me manda buscar que eu vou denunciar essa situação toda aqui."

A situação a que se refere são os 57 mil trabalhadores em condições análogas à escravidão libertados pelo Grupo Especial de Fiscalização Móvel entre 1995 e 2021. Criado em 1995, o grupo móvel agrega auditores fiscais do trabalho, Ministério Público do Trabalho, a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União, entre outras instituições. Seu objetivo é viabilizar o cumprimento da lei e a observância de direitos trabalhistas em todo o país. Em 2021, segundo o Ministério do Trabalho e Previdência, 1.937 pessoas foram encontradas em situação de escravidão contemporânea, maior número desde os 2.808 trabalhadores de 2013.

Cena do filme 'Pureza' - Reprodução - Reprodução
Cena do filme 'Pureza'
Imagem: Reprodução

Por condição análoga à escravidão se entende a submissão a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, seja sujeitando a pessoa a condições degradantes de trabalho, seja restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto.

Para não dizer que Pureza peregrinou apenas na companhia de sua Bíblia, a Comissão Pastoral da Terra esteve junto, assim como religiosos, feito o padre Flávio Lazzarini, personagem crucial do filme, presente à pré-estreia. Aos 74 anos, natural de Mântua, no norte da Itália, ele chegou ao Maranhão em 1987. Está aposentado, mas continua celebrando missas na Maioba, distrito de São José do Ribamar, na Ilha do Maranhão.

"A caminhada de Dona Pureza em busca do filho foi corajosa e destemida", afirma. Ele destaca o trecho do filme em que aparece a todo vapor um trem e o associa a Matopiba. "Ali tem vilões para serem identificados", diz. Matopiba é o acrônimo de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia que engloba a chamada "última fronteira do agronegócio" do país, povoada de indígenas, quilombolas, sertanejos, geraizeiros e outras comunidades em um Cerrado onde galopa o desmatamento.

Um dos vilões do filme, vivido pelo ator Sérgio Sartório, neto de maranhense, entende que a maior dificuldade na performance foi justamente ser uma ficção com alta carga de realidade. Ainda assim, ouviu o seguinte de Pureza quando se sentou ao lado dela numa das exibições anteriores: "Foi tudo isso, mas foi muito pior".

O cineasta Renato Barbieri, diretor de 'Pureza' - Divulgação - Divulgação
O cineasta Renato Barbieri, diretor de 'Pureza'
Imagem: Divulgação

Por sua vez, Renato Barbieri, o diretor do filme, explica sua motivação primeira para seguir a trilha da personagem: "Eu estava em busca de uma história universal". Diretor de filmes como "As Vidas de Maria", que retrata as agruras de uma mulher nascida no dia da inauguração de Brasília, e "O Atlântico Negro - na Rota dos Orixás", documentário passado no Maranhão, na Bahia e em Benin em busca das origens africanas da cultura brasileira, Barbieri levou 13 anos para concluir "Pureza". O longa-metragem, rodado boa parte em Marabá (PA), ficou pronto em 2019, mas a pandemia brecou seu lançamento no Brasil.

Ele conta que, quando conheceu Pureza, ela lhe disse que havia recebido, pouco antes, a seguinte revelação por parte de um líder evangélico: "Os olhos do mundo vão ver você". Entenderam que os olhos do mundo seriam o cinema. Mas talvez não só. Embora relutante em sair da sua poltrona na plateia, a maranhense empunhou o microfone e descreveu as cruzes que carregou e as que viu, a solidão da luta, o olhar biônico de Deus, a inocência dos homens, a displicência do poder. "Mas comigo não fica ninguém enganado porque eu descubro mesmo." Dá-lhe redes sociais repercutindo a fala dentro e fora do Brasil.

O que ela não disseminou naquele momento é que Abel a esperava em Bacabal, a cerca de 255 quilômetros daquela sala de cinema, para comerem o peixe que lá ficou. E que o grande reencontro com o filho, em 1996, não se deu exatamente como no filme. Três anos depois de deixar a família, já no garimpo do Mato Grosso, Abel conseguiu contatá-la por telefone e pediu que reunisse todos os documentos atestando sua identidade para que pudesse se libertar do cativeiro. Quarenta dias depois, encostaram face com face.

"Meu filho...", "Sim, estou aqui, sou Abel." Ele contou ter sido escravizado, ameaçado, seus joelhos quebrados, aquela pancadaria toda. Hoje mora numa casinha perto da mãe, num terreno de sabor cítrico. "Tem caju, cajá, acerola, fartura se perdendo. Vou vender acerola? Eu não, vou dar." De repente, Pureza volta ao mundo cão: "Como uma pessoa pode torturar outra? O pessoal não tem Deus na vida".

A atriz Dira Paes e Pureza Loyola - Divulgação - Divulgação
A atriz Dira Paes e Pureza Lopes Loyola
Imagem: Divulgação