'Sem tatuagens, tenho cicatrizes': Erasmo Carlos e seu 'coração biônico'

Em uma tarde de brisa agradável em 2018, Erasmo Carlos descia as escadas até o quintal de sua espaçosa casa, construída nos anos 1970 a poucos metros da praia, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, quando tudo ali era mato.
Sua presença contrastava com o verde quase desbotado das paredes do interior e do extenso gramado, onde duas placas indicavam os verdadeiros "donos" do espaço. De um lado, próximo à piscina, o aviso dizia: "Parque aquático Pedro Gil". Do outro, "Jardim do Daniel" — nomes de dois de seus três netos.
Os cabelos brancos esvoaçavam revoltosos. Usava camiseta preta, calça jeans, uma corrente prata no pescoço e um emaranhado de pulseiras e braceletes no pulso direito, O cara que apavorou os anos 1960 com a "fama de mau" brincou: "Sou [mau] do meu jeito. Minhas pulseirinhas. No que eu posso ser rebelde eu sou. Dentro do normal, eu destoo na roupa, ou na palavra, do preestabelecido", disse. "A Jovem Guarda foi revolucionária, mas hoje em dia eu vejo que as revoluções que a gente fez foram besteiras, coisas muito simples."
"Minha altura [1,89m], minha fisionomia, meu gesto meio rude, meio desengonçado, meu apelido Tremendão, tudo isso contribui para uma propaganda, para um protótipo de machão", diz. Naquele momento, ele se via de outra forma: "Sou um muro, mas um muro de isopor, facilmente quebrado".
Apesar da aparência de velho roqueiro, ele dizia que a verdadeira revolução foi cantar sobre a simplicidade do amor — músicas que, em boa parte, escreveu com o parceiro Roberto Carlos. "Sempre foi nosso propósito na música falar no ouvido da mulher. Não é gritar no ouvido da mulher 'eu te amo', é dizer baixinho 'eu te amo'. Isso entra no ouvido e vai direto para o coração, sabe, bicho? Não tem intermediário, não tem órgão no corpo humano de intermediário, é direto para o coração."
O que seria do amor romântico sem as músicas de Erasmo Carlos, morto aos 81 anos, nesta terça-feira (22)? Não faltam encontros, rompimentos e rompantes apaixonados embalados pelas canções do compositor, com quase 60 anos de carreira.
Foi justamente o amor, ele dizia, o sentimento responsável por enterrar de vez os "anos terríveis" de bebedeira, drogas e perdas. "Foram anos que quase me levaram, quase me tiraram do sério", conta.
Na ocasião da conversa, quatro anos atrás, lembrou de duas ausências em especial: da primeira mulher, Narinha, encontrada morta em 1995, e do filho Alexandre, que morreu em um acidente de carro em 2014. "Eu tô vivendo, cara. Tenho que viver, a vida continua. O que se foi, foi. A gente vai também um dia", dizia, resignado.
Com um meio sorriso, ele explicava que aquilo era fruto de uma filosofia hippie. Dispensava a terapia e as religiões. "Não busco nada na religião, cara. Eu busco minha fé e minha religião dentro de mim na bondade, no amor. Eu sou um cara amoroso, quem me conhece sabe que eu sou assim", disse.
"Sempre achei que não precisava de um analista porque tudo que tenho que falar, minhas emoções, eu descarrego nas canções. Eu tenho um analista maravilhoso, vou contar um segredo pra você. Não me cobra nada e não minto pra ele. É meu travesseiro. Quando eu vou dormir toda noite... Aí é foda."
"Ainda mais agora, com marcapasso", disse, abaixando a gola da camisa preta para mostrar uma cicatriz fina abaixo do ombro. "Eu não tenho tatuagens, tenho cicatrizes. São tatuagens da vida, aprendam isso!", disse, olhando para a câmera que gravava a conversa em vídeo.
Aquela era uma de suas primeiras entrevistas após passar pelo procedimento médico. Havia alguns meses, Erasmo desmaiava com frequência, inclusive durante o sono. "Teoricamente você fica morto e, em alguns segundos, você volta. Mas e se não voltar?"
Descobriu ter uma anomalia na carótida, importante artéria do coração. De um dia para o outro, se viu na maca, com um implante de marca-passo. Horas depois, fez um vídeo no Instagram mostrando o curativo no peito: "Que tiro foi esse?", brincou.
"Você sabe que pode dar alguma coisa, mas não dá medo. Tem que fazer, faz. Pensa positivo que vai dar certo, como deu. Se não desse, não deu. Não estaria nem aqui para lamentar", explicou, batendo no peito a mão ainda arroxeada pela internação. "Agora tenho coração biônico. Estou ligado pra caramba."
O novo coração, ele fazia questão de dizer, agora batia pela pedagoga Fernanda Passos, sua companheira cinquenta anos mais nova, com quem namorava havia sete, muitas vezes na ponte aérea entre Rio-SP. Naquele dia, ele achava graça dos comentários nas redes sociais sobre o novo relacionamento. "Eu demorei para assimilar isso, pra mim foi uma agressão. Depois que fui ver o que falavam de mim, fiquei chocado. Tudo isso é mentira. Dizem que eu sou feio? Que eu pareço um velho? Isso é mentira, cara."
Roberto/Erasmo
Mesmo sendo um cara que dizia evitar a nostalgia, Erasmo mantinha uma casa com muitos registros do passado: os discos de ouro pendurados na parede e os toca-discos enfileirados em uma estante estavam cheios de histórias, a maior parte divididas com Roberto Carlos.
A parceria entre os dois foi química rara na história da música e se tornou tão mítica quanto a dupla Lennon/McCartney.
"Era muita música que a gente fazia. Nossa cabeça era outra. A gente fazia sem ter noção do que estava fazendo, obedecendo aos instintos, mas sempre existia o aval do outro. O costume de compor e a identificação com a forma do povo falar fez a gente misturar o tratamento 'tu' com 'você'. Não foi por falta de cultura, o povo é assim", resumia.
No entanto, admitia que uma nova composição da dupla já estava cada dia mais distante de acontecer. "Estou aqui aberto esperando. Ele [Roberto] que é preguiçoso para lançar música. Quando a gente se encontra eu digo: 'Vamos trabalhar, cara'. Ele sempre diz: 'Vamos, esse ano vamos fazer isso e aquilo'. Mas nada, bicho. Entra ano, sai ano e ele não se resolve", disse. Na sequência, deixou evidente que sua personalidade era quase uma antítese do 'amigo de fé', sempre avesso a entrevistas (e alguns temas e cores, como o preto da sua camiseta).
"Agora com ele é tudo espanhol, eu fico fora, tô fora dessa praia. Ele tem um cuidado com a voz dele, não entra em lugar refrigerado, está sempre com cachecol disponível. Eu não cuido de nada, qualquer coisa está bom pra mim. Eu não me considero cantor, sou intérprete das minhas músicas."
Mantinham, porém, o cuidado de se falarem por telefone em dia de Natal e aniversário. "Pra gente se encontrar ao vivo está cada dia mais difícil, mas a gente se liga. Se benze, como a gente diz. Ele fala as coisas positivas dele, as bênçãos universais, os deuses que ele encontra que eu não conheço e nunca ouvi falar, e eu adoro. E eu faço as minhas brincadeiras que ele adora", relatava.
Pragmático, Erasmo dizia seguir apenas uma sentença: "O mundo utópico é uma maravilha, é o mundo que eu rezo e que eu sigo, mesmo sabendo que é impossível, mas é sonhável. Perdi o ímpeto da juventude, mas ganhei a sabedoria da existência."
Após quase duas horas de conversa no jardim dos netos, Erasmo Carlos bateu palma como se oficializasse o fim da gravação. Antes de levantar, porém, observou: "Várias coisas na nossa entrevista pareciam o final. Entrevista sempre termina com uma coisa bonita, forte, não é? Se tiver uma música de fundo, sobe a música...", e cantarolou, para exemplificar o que seria o clímax da conversa. "Várias vezes falei coisas que eu pensei: 'essa vai ser final de entrevista'. Essa que eu falei agora foi boa, não foi?"
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