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OPINIÃO

Como os casos de Marco Pigossi e MJ Rodriguez nos ajudam a pensar?

MJ Rodriguez (Blanca Evangelista) em 'Pose' Imagem: Divulgação/FX
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Bernardo Machado

Colunista do TAB

17/01/2022 04h00

Na última semana, dois eventos chamaram a atenção para o mundo artístico. No Brasil, a carta-depoimento do ator Marco Pigossi impactou as redes sociais. Nela, o intérprete relatou como, ao longo de boa parte de sua carreira, temeu as consequências sobre a revelação de sua orientação sexual. Poucos dias depois, no cenário internacional, a atriz MJ Rodriguez tornou-se a primeira atriz trans a ganhar o Globo de Ouro por seu trabalho na série "Pose". Em vídeo, emocionada, ela destaca como o prêmio não era apenas dela, mas de toda a comunidade trans.

Quero aproveitar a oportunidade para discutir alguns aspectos do universo da cena: a relação singular entre intérprete e personagem. Adianto que não me interessa comparar a trajetória de Pigossi ou Rodriguez, mas sim os repertórios sociais que nos orientam e restringem.

Luzes

A cena não é um espaço livre de política e de poética. Inserir um corpo em qualquer palco ou tela é definir uma abordagem sobre ele: um ângulo, uma forma de enquadrar, uma maneira de lhe conferir respeito ou desqualificar. Todo corpo é, assim, uma prática política. Uma pessoa, com suas marcas e características (identidade de gênero, sexualidade, raça, idade, composição física e afins), ao se colocar sob as luzes, é automaticamente lida e interpretada por quem a observa.

Legibilidade

Nesse quesito, aprendemos muito cedo a identificar sinais de heterossexualidade, homossexualidade, cisgeneridade ou transgeneridade nas pessoas. A demanda social exigiria: a pessoa LGBTQIA+ deve ser, senão visível, ao menos legível por indícios. Este seria o caso dos gestos manifestos de intérpretes numa cena: um tom de voz, uma forma de andar, a posição das mãos, o ângulo do olhar, todos transformam-se em signos de uma prática (ou de uma identidade) que trazem consigo uma avalanche de repertórios e imaginários.

Técnica

No universo de atrizes e atores, contudo, há uma espécie de pressuposto que prevê: um bom intérprete pode realizar qualquer personagem. Por sinal, quanto mais diferentes forem, maior o prestígio da pessoa por ser hábil em sua técnica. Esse pressuposto costuma mascarar — ou ludibriar — o fato de que nem todos os corpos têm a possibilidade de experimentar essa oportunidade da técnica, independentemente de sua maestria.

Isto é, alguns corpos são mais "marcados" do que outros e enfrentam maior resistência para "se passar" por outras figuras. Corpos trans, negros, asiáticos, indígenas e deficientes encontram muito mais obstáculos para o trabalho. Quando conseguem obter algum papel, geralmente a trajetória da personagem está colada ao próprio corpo de quem a interpreta — um ator descendente de japonês faria um personagem japonês ou nem isso, como no caso de yellow face da novela Sol Nascente de 2016.

Já os corpos brancos, cis, sem deficiência são tidos historicamente como "mais universais" e, dessa forma, contam com instrumentos técnicos que lhes auxiliariam a "interpretar" outras personagens para além de seus corpos característicos — com o uso de próteses e/ou efeitos especiais. Esse é o caso de muitos corpos cis que interpretaram personagens trans ao longo da cinematografia — o que vem sendo denunciado como transfake pelo movimento trans.

Cinema brasileiro

No caso do Brasil, pesquisa recente investigou 198 filmes brasileiros de grande público, produzidos entre 1995 e 2018. O Gemaa (Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa) da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) analisou as características físicas de 6.450 personagens das películas e constatou a presença majoritária de homens brancos nas tramas. Para cada personagem mulher preta ou parda, foram computados quase 14 homens brancos. Em 12% das produções compiladas (isto é, 23 filmes) a pesquisa não registrou nenhum personagem preto ou pardo (homem ou mulher). Enquanto isso, pessoas brancas, por sua vez, apareceram em todos os longas-metragens.

No que toca a sexualidade, o estudo contou que, entre as personagens analisadas, a heterossexualidade somava 97% dos casos, contra apenas 3% de papéis em que outras orientações sexuais foram evidentemente retratadas. Pessoas trans e indígenas não atingiram 1% do total das personagens da amostra.

Contaminação

Além de termos poucas personagens LGBTQIA+ nas grandes telas nacionais, a não-heterossexualidade de um/uma intérprete ou sua existência trans "contaminaria" a personagem, segundo nossos padrões de representação ainda majoritárias.

Dentro das convenções estético-políticas hegemônicas, um ator heterossexual poderia conferir corpo para uma personagem LGBTQIA+ e, com isso, provar sua versatilidade. A mesma possibilidade raramente é conferida para intérpretes abertamente LGBTQs. Parece que a sexualidade e a identidade de gênero inerentemente prejudicariam o trabalho de atuação — e comprometeriam a fantasia/desejo do "público" e os possíveis trabalhos de publicidade.

Por outro lado, se há intérpretes que conseguem ocultar sua orientação sexual e obtém papéis heterossexuais, tal possibilidade não está garantida para pessoas trans que eventualmente queiram fazer numa personagem cis. Nesse quesito, as marcas da diferença impõem ainda mais obstáculos e restrições.

Orgulho

É notável como há uma desigualdade nos corpos autorizados a serem mais "elásticos" e outros menos. Enquanto a heterossexualidade cis de intérpretes aparece como experiência "não marcada", "não representacional" e mais "universal", a vivência LGBTQIA+ correria o risco de comprometer o trabalho de atuação de qualquer artista (ainda que com graus variados) e a impediria de interpretar a personagem que lhe interessar. Certamente eventos como a carta de Marco Pigossi e a premiação de MJ Rodriguez sinalizam o frescor de novos ventos. Que eles venham fortes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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