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Daniela Pinheiro

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Em pesquisa, 54% dos brasileiros dizem evitar o noticiário de propósito

TV digital smartv controle remoto audiência televisão - Getty Images/iStockphoto
TV digital smartv controle remoto audiência televisão Imagem: Getty Images/iStockphoto
Daniela Pinheiro

DANIELA PINHEIRO foi bolsista John S. Knight na Universidade de Stanford e do Reuters Institute for the Study of Journalism, em Oxford. Trabalhou na Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil e nas revistas Veja e Piauí. Foi diretora de redação da revista Época. Ganhou quatro vezes o Troféu Mulher Imprensa e duas vezes o Prêmio Comunique-se como melhor repórter de mídia impressa do país. Mora em Lisboa, de onde escreve um livro sobre um dia no Brasil em 1999.

Colunista do UOL

18/06/2022 04h01

Esta é parte da versão online da edição de sexta-feira (17) da newsletter de Daniela Pinheiro. Na newsletter completa, a colunista fala sobre o mistério da vinda de José Sócrates ao Brasil, a criação de um visto especial para quem procura emprego em Portugal e mais. Você pode ler o conteúdo completo aqui (apenas para assinantes). Para se inscrever e receber o boletim semanalmente, clique aqui.

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'Clareza moral é fundamental para o jornalismo'

Na quarta-feira (15), o Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, publicou seu relatório anual sobre o consumo de notícias em todo o mundo. A pesquisa foi feita com mais de 93 mil leitores em 46 países e é considerada a mais abrangente já realizada sobre o tema.

Sobre o Brasil, há mais dados do que jamais foi visto em outras sondagens. No geral, o resultado corroborou o que a imprensa já sente no lombo há tempos: a dificuldade de manter leitores, o aumento da falta de confiança da audiência, a procura incessante pela fórmula mágica que faça as pessoas pagarem pelas notícias, a ascensão das plataformas digitais em detrimento de jornais e revistas.

Alguns pontos chamam a atenção. Primeiro, a acelerada fadiga do noticiário mundo afora. Em média, 38% dos entrevistados disseram que frequentemente ou às vezes evitam buscar informações sobre certos assuntos — sobretudo quando se trata de política ou da pandemia. Para eles, esse tipo de jornalismo é "deprimente e repetitivo". Ironicamente, são esses os temas que costumam parecer mais sérios ou importantes para os jornalistas.

No Brasil, verificou-se o percentual mais alto de toda pesquisa: 54% dos entrevistados afirmam "evitar" o noticiário de propósito (27% a mais — o dobro — do que em 2017). Dentre aqueles que se identificam com a esquerda, 57% do total afirmam que as notícias afetam seu humor para pior. Na direita, a maioria diz não ver porque tudo o que é publicado é mentira. Também parece haver uma ligação clara entre a desgovernança e a credibilidade jornalística. Mais confusa a política do país, mais aversão às notícias. A saber: o Reino Unido de Boris Johnson teve 46% e os Estados Unidos de Trump, 42%. Países de clima político menos volátil — Japão, Dinamarca e Finlândia —, pontuaram na casa dos 60%.

Outra: os níveis de confiança na imprensa continuam baixos. Apenas 42% dos pesquisados disseram acreditar na maioria das notícias na maior parte do tempo. No último lugar no ranking, nos Estados Unidos são apenas 26%. No Brasil, 48% dos entrevistados acreditam no que leem. Uma proporção significativa dos jovens diz que evita as notícias porque são "difíceis de acompanhar".

Outro dado particular sobre a realidade brasileira é que 60% dos ouvidos acham que os jornalistas devem manifestar suas opiniões pessoais nas redes sociais e continuar a fazer reportagens. Uma coisa não atrapalharia a outra — o que vai contra o senso comum da imparcialidade e neutralidade do profissional de imprensa. Nos EUA, 51% concordam com a premissa. No Japão, 44%. Os jornalistas que atuam na televisão são ainda os mais lembrados na pesquisa no Brasil (86%) e na França. Nos demais países, repórteres e analistas de jornais e revistas têm mais fama. Encabeça a lista William Bonner, âncora do "Jornal Nacional", seguido pelos apresentadores José Luiz Datena, da Band, e Maria Júlia ("Maju") Coutinho. Nos seis mercados pesquisados sobre esse assunto, a maioria dos jornalistas citados são homens (71% no Brasil). Logo depois da cerimônia de lançamento do estudo, em Londres, conversei por telefone com o diretor do RISJ, o dinamarquês Rasmus Kleis Nielsen, sobre as constatações da pesquisa e o estado da imprensa, em geral. A conversa foi editada e condensada para melhor compreensão.

Daniela Pinheiro: Como devemos interpretar o dado que 54% dos brasileiros evitam as notícias?
Rasmus Kleis Nielsen: Primeiramente, não devemos fazer um julgamento moral. Cabe a cada indivíduo decidir o quanto ele quer consumir notícias ou não. Claro que se as pessoas começarem a fugir do noticiário totalmente, isso pode se tornar um problema porque elas vão perder informações importantes. Entretanto, quem tem que ficar preocupado com esse número são os jornalistas e as empresas de mídia, porque isso mostra uma perda da conexão com os leitores e uma indiferença ao relevante trabalho da imprensa.

A pesquisa mostra que as pessoas estão mais dispostas a pagar pela Netflix do que por jornalismo. Por quê?
Boa parte do público -- incluindo pessoas que assinam com prazer serviços de streaming de vídeo ou música online -- não encontra notícias pelas quais valha a pena pagar. Portanto, é extremamente importante, especialmente para aqueles que acreditam que o jornalismo precisa servir a todo o público, pensar em como eles podem criar uma oferta mais convincente para um público mais amplo e olhar além dos modelos baseados em assinaturas que servem principalmente aos mais privilegiados.

Há muito se debate essa crescente sensação de irrelevância do jornalismo -- como o conhecemos -- na vida geral das pessoas. Parece que não saímos do lugar.
Acho que é muito importante que os jornalistas prestem atenção nos dados da pesquisa. Nos últimos 20 anos, houve uma mudança dramática nessa área. que foi o aumento da oferta de fontes de informação graças ao digital. As pessoas têm mais opções, têm mais lugares onde ir buscar informação. Então, é mais importante do que nunca que se ofereçam produtos confiáveis e de qualidade. Os efeitos disso já estão aí. É como as mudanças climáticas, o estrago já foi feito. Como podemos esperar que as pessoas prestem atenção, paguem ou acreditem nas notícias se o que se oferece é o que eles não querem ouvir ou o que duvidam ser verdade? É absolutamente necessária essa reconexão com o público.

Como é possível?
Na pesquisa, há algumas indicações. Alguns padrões ficaram muito claros. Por exemplo, quem mais evita as notícias são mulheres e grupos com menores índices de educação formal e renda. Ou seja, não é todo mundo que abandonou o noticiário. E a pergunta é: quem abandonou, abandonou por quê? Temos dados de outras pesquisas mostrando que a maioria dos chefes do jornalismo brasileiro são homens brancos -- a maioria da população não o é. E apenas 7% dos chefes de redação são mulheres, comparado com 50% nos Estados Unidos. Isso quer dizer alguma coisa? Outro dado é que os mais novos evitam as notícias porque acham "muito difícil" acompanhá-las. Eles acham que o jornalismo é dispensável e por isso vão para as plataformas, como YouTube e TikTok. O fato é que o jornalismo virou as costas para as pessoas mais novas. E foi uma escolha. E foi dramática. É preciso reconhecer isso e tentar acertar esses descompassos.

Rasmus Kleis Nielsen - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

A pesquisa destaca a concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucas famílias no Brasil. Qual é a consequência disso para o presente e o futuro do jornalismo?
Cabe a cada organização de imprensa decidir como vai reagir a essa nova realidade que se impõe para a imprensa tradicional. Quanto maior é a empresa, maior a responsabilidade, obviamente. Serve também para as grandes plataformas, como o Facebook. O fato é que é urgente que se encontre essa reconexão com a audiência.

O estudo mostra que no Brasil os veículos de imprensa mais confiáveis são o SBT e a Record, ambos escancaradamente apoiadores do governo Bolsonaro. O que isso que dizer?
É importante saber que confiança num veículo tem a ver com muitas coisas, não apenas com práticas jornalísticas profissionais. Importa também a familiaridade do público com o veículo, a sensação que aquela empresa de mídia respeita e reflete os valores de quem a consome e, sobretudo, que ela está lá para você. Que ela se importa com gente como você, de verdade. O que vemos na pesquisa no Brasil é que pessoas identificadas com a direita desconfiam mais do noticiário -- o que pode ser uma razão para elas apreciarem esses veículos e achar que eles coadunam com a opinião delas sobre o ambiente das notícias. É um padrão muito similar ao dos Estados Unidos, onde os que não confiam na imprensa em geral confiam muito na Fox News -- uma empresa sobre a qual muitos jornalistas têm críticas à maneira como praticam o jornalismo, mas que parte do público acredita piamente que suas opiniões são levadas a sério ali.

Apenas 23% dos entrevistados no Brasil dizem considerar as empresas jornalísticas neutras ou apartidárias. Isso é bom ou ruim?
Acho que há uma sensação comum entre jornalistas ou pessoas que acompanham o jornalismo muito de perto sobre a diferença de tratamento das notícias entre variados veículos num mesmo país -- o que acontece com a Folha ou com O Globo, no Brasil, por exemplo. Essas diferenças são reais e importantes. Entretanto, há uma parte da audiência que acha que é tudo igual. Essa impressão é um fenômeno mundial.

Quais foram os maiores erros do jornalismo na cobertura política recentemente?
Queria enfatizar que não estamos aqui para ensinar as pessoas a fazer o trabalho delas. É muito difícil ser jornalista, sobretudo nos últimos anos, sobretudo num país como o Brasil. O que eu diria é que, ao cobrir governos populistas, o ideal é reportar o que o governante faz, não o que ele diz. Populistas têm uma estratégia de usar as palavras e dizer coisas absurdas com um propósito específico. Quando apenas se reproduz suas frases, entra-se no jogo deles. Isso não é útil nem importante para o público do ponto de vista da informação. Muitas vezes, eles dizem coisas tão absurdas, que precisam ser reproduzidas pela imprensa. Mas elas precisam de contexto, de detalhe, de explicação. A outra coisa que eu diria é que é uma questão de escolha. Algumas atitudes de certos políticos são chocantes, ofensivas, perturbadoras, antidemocráticas, para as pessoas que acreditam e defendem a integridade do processo eleitoral, por exemplo. Quando uma autoridade política, sem qualquer evidência, diz que as eleições foram fraudadas, por exemplo, deve-se noticiar isso? Isso é um bom exemplo do que é chamado de clareza moral. É preciso ter claros os valores que você defende, nesse caso, a democracia, e ser muito explícito na hora de confrontar uma afirmação dessas. Não é fácil confrontar autoridades, mas é o que fazem muitos jornalistas que respeito. A outra maneira de fazer isso é entender que faz parte do repertório dos populistas dizer absurdos e não cabe ao jornalista fazer julgamentos, e sim aos cidadãos. O trabalho do jornalista é fazer com que o público entenda o contexto, o que está por trás. É uma escolha editorial.

Qual é a tênue linha entre a clareza moral e a necessidade de se publicar os dois lados sempre?
A clareza moral pode se dar em várias formas. Por exemplo, explicitando seus valores, deixando transparente o seu comprometimento com questões relevantes para o veículo de comunicação, como imparcialidade. É importante ressaltar que não é só gente que você concorda que a tem. A Fox News tem uma clareza moral explícita sobre os valores que lhe são caros. Não é o que pensamos ser clareza moral, mas é também. Há uma demanda para vários tipos de jornalismo. Há quem queira um veículo que se posicione, há quem queira os que se mantenham neutros.

Segundo dados da pesquisa, 60% dos brasileiros entrevistados acham que os jornalistas devem expressar sua opinião pessoal nas redes sociais e isso não afeta seu trabalho jornalístico.
Esse número é surpreendente e é único em todo mundo. Por ser um país tão polarizado politicamente hoje, e porque os eleitores dos polos opostos não se dão, e por as redes sociais serem tão poderosas e tão importantes para os brasileiros acessarem, discutirem, comentarem e partilharem as notícias, há mais pessoas familiarizadas com a cultura do mix entre fato e opinião. Em países onde as redes sociais não são usadas como fonte de informação, essa tolerância é bem menor.

Isso é bom ou ruim?
Não cabe a mim opinar. Isso depende do que o jornalista ou uma instituição jornalística quer ser, que valores são importantes para eles, que jornalismo querem fazer.

Nas últimas semanas, um banzé no Washington Post envolvendo repórteres que usaram suas redes sociais para postar piadas e criticar colegas resultou na suspensão de um jornalista e na demissão de outra. As empresas estão sabendo lidar com isso?
Não vou comentar o caso específico do Washington Post porque não sei os detalhes. Em tese, todos temos o direito de expressar nossas opiniões pessoais onde quer que seja, mas isso não significa que somos obrigados a compartilhar tudo o que passa na nossa cabeça. É importante que os jornalistas saibam que, ao expressar suas opiniões pessoais, por mais bem-intencionadas que sejam, sempre vai haver uma reação. E ela pode incluir atacar o veículo em que trabalham ou colegas que lá estão.

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