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Lidia Zuin

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como a espécie humana tenta 'matar a morte', sem sucesso, ao longo do tempo

"Série Trágica - Minha Mãe Morrendo" (1947), de Flavio de Carvalho - Divulgação
"Série Trágica - Minha Mãe Morrendo" (1947), de Flavio de Carvalho Imagem: Divulgação
Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do UOL

18/04/2021 04h00

Pelos últimos quatro anos, estive escrevendo minha tese de doutorado que, finalmente, defendi na semana passada. É sempre difícil explicar sobre o tema, mas, brevemente, trata-se de um panorama histórico sobre como a sociedade ocidental, europeia e judaico-cristã vem processando a morte a partir da confecção de imagens (e rituais) que buscam estender a vida humana através de um material imagético que sustenta a memória. Para isso, me baseei principalmente nos estudos do historiador Philippe Ariès tratando do tema de "O Homem Diante da Morte", mas também "História da Morte no Ocidente" e no livro "A Negação da Morte" de Ernest Becker.

Durante a banca, um dos avaliadores comentou que eu não havia trabalhado com artistas brasileiros, o que é verdade — usei como estudo de caso a série "Death in America" de Andy Warhol, a pintura "American Prayer" de Gottfried Helnwein, as instalações e o documentário fictício "Treasures from the Wreck of the Unbelievable" de Damien Hirst, o específico evento de funeral do cantor Michael Jackson e uma comparação final entre as mais recentes obras das cantoras Björk e Grimes.

Concentrei-me principalmente em entender como esses artistas buscaram transcender a condição finita e entrópica do corpo e da vida humana — seja a partir da tentativa de se tornar uma máquina, um produto reprodutível, uma celebridade, ou uma criatura pós-humana.

Como sugestão durante a banca, ficou o nome de Flávio de Carvalho, um artista brasileiro que não conhecia, mas fiquei muito grata por conhecer sua vasta obra, que conta com pinturas como "Mulher Morta com Filho" (1946), mas também os nove desenhos feitos a carvão e que compõem a chamada "Série Trágica - Minha Mãe Morrendo" (1947). Não vou me estender em uma análise da biografia do artista ou uma aprofundada análise da obra de Carvalho, algo que Veronica Stigger já fez com muita competência em um ensaio publicado na revista Crítica Cultural, em 2009. Apesar disso, quero falar das obras de Carvalho nesta série.

O que me chocou (ou talvez me comoveu) à primeira vistafoi a crueza, o realismo e o expressionismo das obras. Para qualquer pessoa que tenha passado pela experiência de cuidar, visitar ou acompanhar um moribundo, a memória fica latente no rosto enrugado da mãe do artista, sempre boquiaberta, entre o sono e a vigília, entre a asfixia e a resignação. Só que não foi assim que a obra foi recebida à época.

Stigger comenta que, em 1948, a série provocou "protestos ululantes das assim chamadas pessoas de bem". Amigos e parentes também se chocaram com a crueza das imagens. De acordo com o biógrafo do artista, J. Toledo, "Flávio conseguiu angariar para si toda a fúria do público atônito diante de uma aparente e insensível energia criativa, e de sua maneira pessoal de sentir uma morte tão dolorosamente sofrida."

Nos comentários de um post feito por um estudante de arte, os anônimos também não economizaram o horror, a ojeriza e o desconforto diante da maneira como Carvalho retratou sua mãe no leito de morte. Os nove desenhos vão se modificando, intensificando, assim como diferentes "frames" em um vídeo que grava o momento derradeiro da morte. Segundo Stigger, um tio do artista chegou a questioná-lo sobre a decisão de registrar sua mãe no leito de morte e, em específico, àquela maneira: "...com aquela simplicidade e candura que o invadiam nos momentos tranquilos, ele [Flávio de Carvalho] respondeu-me com os olhos ardentes, após um segundo em que fitou o infinito: 'Eu não desejava esquecer seu grande sofrimento'."

Na análise do crítico de arte Almeida Salles, o ensaísta argumenta que justo "quando os rostos se recusam a olhar, ele a olhara gravemente, certo de que seus estertores e suas convulsões eram a concentração, no adeus, do essencial da sua natureza" (apud Stigger). Isso se confirma quando lemos o próprio depoimento de Carvalho em "A origem animal de Deus", em que o artista descreve a piedade justamente no ato de testemunhar e compartilhar a dor de sua mãe:

"Essas exibições de vida e de morte são funções teatrais que exigem um público. Os espectadores fornecem o sentimento gregário de companhia de seus pares de que o homem necessita para não permanecer isolado na solidão e no esquecimento."

Em "O Homem Diante da Morte", Ariès mostra isso em uma perspectiva de como, na Antiguidade, a morte era algo recorrente, trivial, afinal, boa parte das pessoas esperava viver até os 30 anos de idade ou então já padecer durante a infância. Ariès também comenta que, nessa época, também houve um certo "misticismo" em torno do moribundo, de modo que as pessoas ansiavam pelo momento derradeiro de passagem ou por ouvir algumas palavras "proféticas".

A morte não era solitária, nem relegada ao ambiente hospitalar, que nem existia à época. Mas, com o tempo, por diferentes motivos, passamos por momentos da naturalização da morte para o medo, a fascinação pelo cadáver, as primeiras tentativas de extensão da vida e cura de doenças outrora fatais conforme a medicina avançava e, finalmente, na morte hospitalar, afastada do mundo dos vivos, confinada em casas de repouso e devidamente abafada em termos médicos.

Para Stigger, quando Carvalho registra os últimos momentos de sua mãe no leito de morte, ele tenta "amenizar esta perda que ele interpõe entre ele e a mãe". Seu ensaio termina com um comentário feito por Georges Didi-Huberman sobre uma passagem de "Ulisses", de James Joyce, quando Stephen Dedalus vê a mãe morta nas ondas do mar:

"Sem dúvida, a experiência familiar do que vemos parece na maioria das vezes dar ensejo a um ter: ao ver alguma coisa, temos em geral a impressão de ganhar alguma coisa. Mas a modalidade do visível torna-se inelutável — ou seja, votada a uma questão de ser — quando ver é sentir que algo inelutavelmente nos escapa, isto é: quando ver é perder."

Em vez de fazer o registro da morte da mãe a partir do arquétipo do repouso (que se tornou também uma das visões ocidentais sobre a morte) que aparece em jazentes e orantes na arte funerária, ou mesmo nas máscaras mortuárias que mostram o morto como se adormecido, Carvalho registra com detalhe e expressão a agonia da personagem que é também sua mãe.

É curioso ver Stigger trazendo Didi-Huberman para encerrar seu ensaio, porque foi este autor que resgatou a teoria de Aby Warburg, da qual fazem parte os conceitos de pós-vida (Nachleben) e fórmula de pathos (Pathosformeln), isto é, como ao longo da história humana, somos capazes de encontrar uma sobrevida das imagens a partir de motivos, sentimentos (pathos), arquétipos, personagens que o pesquisador resgata, por exemplo, a partir de figuras mitológicas como as ninfas. A "Série Trágica", portanto, reconfigura o motivo da Pietá ao apresentar a mãe morta e o filho a velá-la, porém, não dentro da cena retratada — e sim por detrás do carvão e do papel.

Assim como concluí na minha tese, é óbvio que a vida humana não é literalmente estendida através de imagens, por mais que gradualmente vejamos tentativas tecnológicas de, por exemplo, estender a vida radicalmente ou até mesmo fazer o upload da mente na máquina. Consequentemente, a memória registrada em fotografias, pinturas, esculturas, avatares, qualquer que seja o formato, não equivale ao corpo e à existência daquele que partiu (e não necessariamente há uma troca de peso e valor equivalente para suprimir a saudade e a ausência). Como lembraram meus avaliadores, mesmo as imagens são perecíveis, mesmo elas podem se desfazer com o tempo, serem destruídas por fenômenos da natureza ou por ação humana.

Ainda assim, não deixamos de fazer esses registros, de tentar diminuir essa assimetria entre vida e morte, conforme diagnostica Ivan Bystrina. É disso que parte uma das raízes da cultura: da consciência da morte e da tentativa de superá-la seja através do luto ou pela tentativa de "matar" a própria morte.

Como Ariès demonstrou, enfrentamos um grave problema na contemporaneidade conforme renegamos, rejeitamos, abafamos e ignoramos a morte como fato, apesar de constantemente convivermos com ela — seja decorrente das várias violências provocadas por desigualdade ou ajustadas como plano estratégico de governos necropolíticos. Quando as mortes ultrapassam o número de nascimentos, quando chegamos ao marco de mais de 300 mil mortos pela covid-19, não só precisamos lidar com a realidade da perda de nossos entes queridos como também com o contexto social, político e econômico que injustamente encurta essas vidas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL