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Lidia Zuin

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Na pandemia, heróis distópicos inspiram resistência ao caos

A atriz Elisabeth Moss em cena de "O Conto da Aia", do canal Hulu - Reprodução
A atriz Elisabeth Moss em cena de 'O Conto da Aia', do canal Hulu Imagem: Reprodução
Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do TAB

26/03/2021 04h00

Em um momento no qual o Brasil atinge o triste marco de 300 mil mortos pela covid-19, o luto se estende para além das vidas perdidas e atinge a todos em desdobramentos psicológicos, econômicos e sociais decorrentes da pandemia. Seja pelo isolamento social, pela perda de um emprego ou encerramento de um negócio, o cancelamento de compromissos e a impossibilidade de comemorar datas importantes, infelizmente, ninguém vai sair ileso dessa pandemia.

Só que, assim como dizem os memes, é bem diferente a gente estudar um momento histórico anterior do que estar, de fato, vivendo durante ele.

De acordo com o modelo sobre os estágios de luto proposto por Elizabeth Kubler-Ross, geralmente passamos por cinco etapas que são definidas pela negação, raiva, negociação/barganha, depressão e aceitação. Ao longo desses últimos 12 meses desde que a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou a pandemia, passamos por todos esses estágios de luto sem necessariamente seguir a ordem e sem necessariamente saber quando isso vai passar. Afinal, como estamos vendo, o fato de vacinas terem sido desenvolvidas inclusive em solo brasileiro não significa uma logística eficaz. E enquanto não chega a nossa vez, o que fazemos?

Nas redes sociais, o negacionismo se apresenta não apenas na divulgação e corroboração de tratamentos precoces ineficazes, mas também aparece nas postagens em que famosos e desconhecidos aglomeram e celebram os ilusórios e frágeis limites de suas bolhas. Um ano depois, contudo, estamos simplesmente exaustos, sem esperança, sem saber muito bem como agir para, de fato, mudar o cenário ativamente — afinal, depois de um ano tendo batido panela, as coisas meio que só pioraram?

Ignorar a pandemia e o cenário calamitoso no qual se encontra o Brasil não é uma opção — mesmo para as marcas e influenciadores mais apolíticos. Isso não significa que não haja alguns desajustes no meio do caminho. Seja através de um design que comunica uma informação trágica como um número de mortos usando uma cartela de cores que está longe de passar a mensagem de desespero e dor das famílias, ou arbitrariamente usando dados sobre o contexto dos Estados Unidos para sugerir "7 motivos para acreditar que tudo isso está acabando". Aqui no Brasil o cenário é totalmente diferente, como detalhou o perfil Sento Mesmo no Instagram.

No post acima, a agência de pesquisa Float já havia sugerido uma possível "bússola política" sobre o posicionamento das pessoas, de acordo com suas crenças políticas, perante a pandemia. Parece resumir bem essa sensação de desespero, desorientação e desamparo, porque praticamente nada nos dá a esperança de que as coisas estejam melhorando ou perto de acabar. À primeira vista, o post usando dados americanos convenceu muita gente de republicá-lo, tanto como uma forma de se convencer de que é possível ter esperança quanto para oferecer acalanto aos demais. Mas não era verdade.

Então, como agir diante da nova temporada da distopia Brasil?

Distopias têm ficado cada vez mais populares, tanto na indústria do entretenimento quanto no inconsciente coletivo que tenta, através de um diagrama de diferentes obras, posicionar onde o Brasil ou o mundo em 2021 estaria. Entre "1984", "Admirável Mundo Novo", "O Conto da Aia", "Fahrenheit 451" e "A Estrada", estamos nós aqui acompanhando reality shows, batendo panelas, tuitando compulsivamente e tentando descobrir formas de manter a saúde mental sem se alienar completamente e sem ter ataques de pânico ao acompanhar as notícias.

No ano passado, escutei um podcast com o escritor Bruce Sterling falando justamente sobre como a ficção científica e a fantasia muitas vezes abordam esses cenários catastróficos — às vezes até decorrentes de uma pandemia —, e o motivo pelo qual nos sentimos atraídos por essas narrativas distópicas.

Como já discuti aqui, distopias são alertas sobre o que não queremos viver e o que não devemos fazer, mas, como argumentou Sterling, elas nos apresentam protagonistas e personagens que estão ativamente tentando sobreviver ao caos ou até subvertê-lo em uma jornada heroica. São histórias que nos fazem crer na esperança diante do colapso, mesmo que seja uma esperança totalmente obscura e niilista, como a narrada por Cormac McCarthy em "A Estrada" ou no seriado "O Conto da Aia", em que a personagem June, apesar de todas as adversidades, continua tentando encontrar estratégias para resistir ao sistema.

Mais do que acreditar que tudo vai dar certo, precisamos de forças e espírito crítico para lidar com o momento, porque assumir que as coisas logo vão melhorar nos põe em uma posição passiva e de espera pelo destino já tido por certo. Não é que iremos viver uma pandemia para o resto do século, mas é que mesmo que todos sejam vacinados, ainda teremos outros problemas que continuarão, porque se tornaram ainda mais latentes durante esse último ano.

Observar a resiliência, a persistência e a postura ativa dos protagonistas de distopias, como indica Sterling, é o que nos atrai tanto nessas histórias obscuras. Ainda que não sejamos confortados com um clássico final feliz, ao menos os roteiristas nos deram uma faísca de esperança: a de que é possível fazer algo até mesmo quando o planeta está prestes a se destruído — mesmo sabendo que, na vida real, nem sempre conseguimos fazer algo de verdade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL