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Lidia Zuin

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pesquisadores alertam para o perigo de surtos causados pelo mindfulness

Nicole Kidman como Masha Dmitrichenko na série "Nine Perfect Strangers" - Hulu/Reprodução
Nicole Kidman como Masha Dmitrichenko na série 'Nine Perfect Strangers' Imagem: Hulu/Reprodução
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Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do TAB

29/04/2022 04h01

Lançado no ano passado pela Hulu, o seriado "Nine Perfect Strangers" é uma adaptação do livro de mesmo nome escrito por Liane Moriarty. Com Nicole Kidman, Melissa McCarthy e Michael Shannon, a série retrata um retiro espiritual comandado pela guru russa Masha Dmitrichenko (Kidman). Cheio de regras e sigilo, com uma longa fila de reserva para uma hospedagem caríssima, o SPA espiritual ficou famoso por ter ajudado celebridades — e por conta de uma morte acidental que ocorreu em suas dependências.

Ao longo dos episódios, descobrimos que a série não é necessariamente uma crítica a esses retiros espirituais e os novos gurus de mindfulness que se multiplicam pelo Ocidente. Mas, de qualquer maneira, a história consegue retratar bem as angústias e as dúvidas que tomam conta daqueles que recorrem a espaços e práticas similares. Ao ler o artigo escrito por David Kortava para a Harper's Magazine, a comparação com a série é inevitável.

Isso porque Kortava narra a história de uma mulher que teria sofrido um surto psicótico durante um desses retiros (algo que também acontece no seriado). Só que, no caso real, a pessoa não conseguiu ser exatamente socorrida e acabou internada em um hospital psiquiátrico. Sem histórico, a paciente desenvolveu um quadro psicótico grave após vivenciar dias de meditação intensa e prolongada. E, apesar do desejo em crer que esse seria um caso isolado, há indícios de que a verdade não seja bem essa.

Kortava apresenta a pesquisa de Willoughby Britton, psicóloga clínica e neurocientista na Universidade Brown, nos Estados Unidos. Outrora incentivadora de práticas meditativas, Britton se viu diante de outro ponto de vista durante seu doutorado. Além de estudos clínicos, Britton visitou vários retiros, onde descobriu dezenas de histórias de horror vivenciadas pelos hóspedes — surtos psicóticos e distúrbios cognitivos estavam entre os relatos mais comuns.

Esses surtos podem ser temporários, mas há casos que podem se prolongar por anos. Segundo uma pessoa entrevistada por Britton, a meditação, uma prática que visa ao desapego, acabou sabotando sua mente ao fazê-la incapaz de guardar novas memórias ou mesmo recordar significados simples como, por exemplo, o que uma cor simboliza (vermelho para proibido ou perigo). A pesquisadora também levantou relatos de pessoas que se viram menos capazes de sentir emoções, mesmo que seguissem normalmente rotinas como fazer a cama ou levar os filhos à escola, mas não havia nenhuma conexão emocional naqueles atos.

Outro estudo realizado por pesquisadores da Universidade do Estado de Nova York, citado neste artigo publicado pela BBC, demonstrou que praticantes de meditação podem sofrer efeitos colaterais inesperados ou mesmo indesejáveis, como tornar-se mais egoísta ou menos empático — uma intensificação de comportamento anterior ou não.

De acordo com a pesquisa, um dos motivos por trás dessa mudança está no fato de que práticas de mindfulness são úteis para diminuir estresse e emoções negativas. O problema é que nem todas as emoções negativas devem ser amenizadas, porque elas servem, justamente, para nortear nossas tomadas de decisão moral. O sentimento de culpa, por exemplo, é algo que nos leva a pedir desculpas ou fazer algo que possa reparar o erro cometido. No entanto, o estilo mindfulness de meditação ensinaria a ignorar emoções como essas.

Foram feitos oito experimentos com 1.400 pessoas, avaliadas de acordo com diferentes métodos. Em um deles, os participantes precisavam anotar alguma situação que os fizeram se sentir culpados. Depois, metade deles fizeram um exercício de respiração mindfulness, enquanto os outros simplesmente deixaram seus pensamentos fluir.

Ao final da prática, os participantes responderam um questionário para medir seus níveis de culpa e receberam outra tarefa, a de imaginar que recebiam US$ 100 que poderiam ser doados à pessoa a quem eles teriam feito mal, de acordo com os relatos registrados.

O que a pesquisa demonstrou foi que aqueles que praticaram respiração mindfuless sentiram menos remorso e, por isso, foram menos generosos em relação à quantia doada. Em média, eles só queriam doar US$ 33,39, enquanto os participantes que só deixaram seus pensamentos fluírem tiveram uma média de US$ 40,70, quase 20% de diferença.

Obviamente, não é por conta de estudos como esses que é razoável acreditar ou culpar todo e qualquer praticante de meditação por comportamentos reprováveis. No entanto, é interessante perceber como a popularização da prática e mesmo o incentivo dela se tornaram uma nova via de rendição para nossos tempos.

No catolicismo, ir à missa, rezar e confessar servem como momentos meditativos e reflexivos para uma pessoa. Quanto à confissão, a Bíblia já aponta em 1 João, capítulo 1, verso 9: "Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça." Isto é, se confessado, o ato será perdoado por Deus.

No mindfulness, não há exatamente uma conexão com uma entidade moralizante. São usados recursos praticados em âmbito religioso, mas esvaziados desse significado. Apesar de mindfulness, em si, significar atenção plena ao presente, esse conjunto de técnicas que conhecemos hoje é resultado de um aprimoramento supostamente feito por Jon Kabat-Zinn, que repaginou as práticas de meditação do budismo, tirando sua conotação espiritual, para aliviar o estresse. Só que mesmo esse objetivo já é bastante diferente daquele almejado pelos monges budistas.

Como mencionado no artigo de Kortava, a meditação praticada pelos budistas no século 5 a.C. não tinha como objetivo a diminuição do estresse ou o alívio de sentimentos negativos. Era, na verdade, uma prática contemplativa, inventada para monásticos que tinham renegado suas posses, posição social, riqueza, família, conforto e trabalho.

Monges budistas, portanto, utilizam a meditação para transcender o mundano e romper com os ciclos de reencarnação, assim alcançando o nirvana. No caso dos suttas Pali, alguns dos textos mais antigos do budismo, o Buda descreve a meditação como uma prática quase que exclusivamente voltada para seguidores que decidiram rejeitar todas as suas posses mundanas.

No mindfulness, não há necessariamente abdicação de seus hábitos e posse — na realidade, para alguns retiros e gurus, é inclusive preciso ter grandes posses para poder acessá-los. Assim, o mindfulness, de maneira geral, visa à diminuição dos sentimentos negativos que advêm de uma rotina marcada por consumo, trabalho, estudo, lazer e relações interpessoais. Em ambos os casos, estamos falando sobre abordagens que visam à mudança do indivíduo diante do mundo, mas, no budismo, o monge "se retira" do mundo.

Àqueles que ficam, como é possível distinguir quando o praticante realmente obteve uma melhora no seu bem-estar ou quando ele apenas passou a reprimir e aliviar os sentimentos ruins, sem necessariamente lidar ou aprender com eles? Em outras palavras, o quanto o praticante de mindfulness simplesmente aprendeu a "bloquear" esses estímulos negativos que, apesar de dolorosos, são importantes para a construção do indivíduo?

No artigo publicado pela BBC, sabemos que o pesquisador Andrew Hafenbrack, da Universidade de Washington, descobriu que a meditação de respiração mindfulness piora a sensação de culpa e responsabilidade do praticante, porém, quando utilizada uma técnica conhecida como "meditação de gratidão e amor" (loving-kindness meditation), que inspirou a prática budista do Metta Bhavana, os resultados são diferentes.

A técnica envolve contemplar as pessoas que fazem parte da sua vida: amigos, familiares, colegas ou mesmo estranhos que fazem parte do seu dia a dia, e cultivar bons votos e sentimentos por eles. Hafenbrack entendeu que, com esse tipo de meditação, os praticantes, na verdade, se sentiram mais dispostos a consertar os erros que os faziam se sentir culpados do que aqueles que praticaram a respiração mindfulness.

Por acaso, estou lendo um livro que menciona o conceito de desencantamento do mundo proposto por Max Weber, que entendia que, ao abandonar o sentimento religioso, o indivíduo então se basearia na moralidade ética e filosófica, bem como nos preceitos científicos como forma de explicar o mundo. Contudo, o que se verifica hoje, seja por parte de Yuval Noah Harari ou outros autores menos dedicados ao âmbito tecnológico, é que a religião (o sentimento e a busca) não deixaram de ter sua importância e urgência mesmo em momentos altamente tecnológicos e cientificistas como o nosso.

O mindfulness enquanto versão secular da meditação budista prova, no entanto, uma tentativa de reconexão (religião advém do latim religare, que significa reconexão) sem o desapego do mundano e do corriqueiro. Adotado pelo mundo corporativo, o método tem sido usado como uma forma de driblar problemas de produtividade e saúde dos funcionários, assim sendo muito menos sobre cura e mais sobre remendos.

O que as pesquisas citadas nos artigos publicados na Harper's e na BBC indicam é que não há uma solução que funcione para todos e, na verdade, essa universalização pode ser bastante perigosa ao potencialmente se tornar um gatilho mesmo para pessoas sem histórico de doença psiquiátrica. Apesar de "estar na moda" procurar por retiros e práticas espirituais, esses estudos têm mostrado que é preciso tomar cuidado mesmo no caso de rituais que não envolvem o consumo de substâncias.