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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

De Legião Urbana a filme trash, como esquecer que hoje não tem carnaval

                                 Carnaval de Olinda, em Pernambuco                              - Carnaval de 2020/JC IMAGEM
Carnaval de Olinda, em Pernambuco Imagem: Carnaval de 2020/JC IMAGEM
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

14/02/2021 04h00

Vou tentar ignorar como posso, mas neste fim de semana vai estar em casa um visitante subitamente silenciado, de corpo avantajado, cabelos pintados, pandeiro na mão e roupa festiva. O visitante se chama Carnaval, e em casa vamos topar com ele ao acordar, quando as pernas quiserem dançar, os dedos se movimentarem sozinhos em torno da xícara de café ou quando a goteira com som de batuque pingar.

Não, não adianta olhar para o lado e atravessar a rua — no caso, o tapete da sala ou do quarto — para não cumprimentar o fantasma das lembranças daquelas tardes: um começo de namoro, a companhia de amigos, o camping, a areia, o palco improvisado, as ruas enfeitadas, as músicas, as bebedeiras, os abraços e ofertas gratuitas de declaração de amor.

A impressão é que tudo começa e termina em algum fim de semana de Carnaval. (Saudades de pular as cinco noites no Clube 22 de Agosto, em Araraquara, voltar a pé pra casa, em turma, com o dia clareando, depois de parar e comer um lanche no carrinho do Vardec e acordar inteiro no dia seguinte para pegar a matinê na Sede de Campo. Quem viveu, viveu).

Essas lembranças, que a gente busca, ilustra e renova a cada Carnaval, agora pairam como espírito zombeteiro em hora imprópria, a hora do desfile que neste ano não vai acontecer. E é bom que não aconteça. Com 240 mil mortos em uma pandemia — e outros tantos zumbis fingindo que isso é normal —, tudo o que não precisamos é transformar saudade em aglomeração e dar ao maldito vírus uma estrada desobstruída para mais estragos.

Nas redes, tenho acompanhado com interesse as estratégias de quem a uma hora dessas estaria mergulhado em glitter e serpentina para simplesmente esquecer que neste dia, em condições normais, seria dia de festa. Dia de Carnaval.

Eu também estou me guardando para quando o Carnaval não chegar. Só não decidi ainda se devo emendar uma sequência animada de filmes do Lars von Trier, começando por "Melancolia" até chegar a "Dançando no escuro" ou apagar as luzes, deitar em posição fetal e ouvir no repeat o CD de "A Tempestade", da Legião Urbana.

Seria um jeito de espantar o fantasma e virar o disco. Sai de campo o "festejar do seu sofrer" e entra o sofrimento de quem não pode festejar. Aí sim, quando chegar a noite, cada estrela parecerá uma lágrima. Não deixa de ser um hino motivacional ouvir o Renato Russo avisar que "é só hoje, e isso passa". Ainda que estejamos nessa há quase um ano.

Há outras opções para quem quiser submergir. Um conhecido, por exemplo, decidiu tirar o dia para arrancar o dente do siso.

Uma amiga vai beber sozinha até esquecer.

Outra vai apelar: pretende passar o sábado e o domingo ao telefone tentando cancelar todos os serviços de telefonia, internet e TV a cabo da sua operadora. A estratégia é transformar a tristeza em ódio.

Raiva por raiva, há quem prefira criar artificialmente uma treta no Twitter e só sair de lá segunda de manhã. Conheço muitos.

Mas ninguém foi mais longe do que um vizinho que pretende reunir as lives mais recentes do Bolsonaro e deixar em som ambiente. Para ele, não tem nada mais anti-Carnaval, anti-alegria e anti-apoteose do que o samba de uma nota só baseada em cloroquina, nióbio, morte e talkeys. Para quem não tiver estômago, não tente isso em casa. O risco é passar a quaresma fazendo arminha com a mão.

Se tudo der certo, e se alguma entidade divina ainda tiver misericórdia desta nação, a massa de ar frio que fez despencar a temperatura na quinta-feira pode permanecer até a quarta de cinzas — e levar os falsos otimistas a pensarem que é melhor assim; não daria, afinal, para sair às ruas com dez graus negativos. Há esperança de que neve.

Uma dica é vestir cachecol e tomar uma overdose de chocolate quente na lareira para queimar qualquer clima que envolva cerveja, sol e caipirinha. (Se a temperatura não ajudar, use o ar condicionado, se tiver. Tome cuidado apenas com os gatilhos envolvendo as festas juninas, que também não aconteceram e podem não acontecer neste ano).

Como nem tudo é desvantagem, é preciso se apegar à parte meio vazia ou meio cheia desse copo de chope inundado por uma cachoeira de água poluída. Ao menos ninguém vai precisar ouvir tiozão recalcado olhando os desfiles na TV com a baba escorrendo e jurando que é por isso que o Brasil não vai pra frente. Nem presidente frustrado dizendo que a festa popular se transformou num imenso golden shower.

Mas a melhor parte mesmo, como lembrou alguém no Twitter, é que dessa vez ninguém vai escrever em meio às cinzas da quarta-feira que todo Carnaval tem seu fim.

No ano que vem a gente se vinga. De preferência, com vacina servida em barril de chope. Como dizia o samba-enredo, sonhar não custa nada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL