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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Oscar 2021: personagens confinados são retrato de um mundo em quarentena

Riz Ahmed em "O Som do Silêncio", filme da Amazon Prime Video indicado a melhor filme - Divulgação
Riz Ahmed em "O Som do Silêncio", filme da Amazon Prime Video indicado a melhor filme Imagem: Divulgação
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

24/04/2021 04h00

Um pouco para fugir do mundo, um pouco para não esquecer que ainda existe cinema nesta vida, dei início, há algumas semanas, a uma maratona para conseguir assistir online ao menos uma fração dos filmes indicados ao Oscar 2021. Já no primeiro ponto a estratégia fracassou.

No quarto onde agora me tranco das notícias do dia antes de dormir, o mundo em que estou, pandêmico e confinado, se revela como embrulho em linguagem cinematográfica. Em comum, as produções que pude conferir falam justamente da desintegração de territórios que convencionamos chamar de lar.

Esta será a primeira cerimônia do Oscar desde que a Organização Mundial da Saúde anunciou a pandemia do coronavírus, em março de 2020.

Da Netflix, já tinha assistido "Mank" e "Os 7 de Chicago". Nada parecia conectar um filme e outro até me dar conta de que, nas duas histórias, os corpos dos personagens estão aprisionados em cativeiros particulares. Cada um deles precisa reconstituir suas reminiscências a respeito de um mundo observado à distância e que emite sinais de desintegração.

Herman J. Mankiewicz, o roteirista que inspira o longa de David Fincher, está acamado, recuperando-se de um acidente, enquanto se embrenha nas memórias para escrever a base do filme que mudaria o curso do cinema: "Cidadão Kane". Seu contato com o mundo é o telefone, por onde Orson Welles, o diretor do longa dentro do longa, se apresenta como mediador e oponente de uma luta contra o tempo, as novas condições e seus limites.

Longe dali, em um tribunal de Chicago, os sete (na verdade, oito) militantes que deixaram suas casas para participar de um protesto em 1968 veem o mundo entre grades e janelas de tribunais enquanto o mundo se acaba no Vietnã.

As correntes daquela década parecem represadas em uma sala de audiência que reuniu, numa quarentena forçada, advogados, intelectuais, hippies, panteras negras e um futuro deputado.

Em comum, nem os réus nem os espectadores podem se mover enquanto veem a história ser julgada e reelaborada em um longo e viciado processo jurídico e também político.

De longe, os fatos são sempre recortes e suas reelaborações, confusas, como são confusos os fragmentos e repetições das mesmas cenas, com personagens diferentes vistos e revistos em ângulos diversos na cabeça de Anthony, o personagem homônimo de Anthony Hopkins que vive acelerado estado de demência em "Meu Pai".

Ali, entramos e saímos em círculo dos labirintos de uma casa em Londres, onde a obsessão pelo relógio perdido é a obsessão pelo controle da dimensão do tempo que escapa. A ideia de espaço é solapada quando a memória está por um fio e já não temos domínio do próprio território — como figurinhas que transitam no mesmo álbum, os referenciais simbólicos (mãe, filhas, genro) se deslocam e trocam de lugares o tempo todo com médicos e enfermeiros, a ponto de encurtar as fronteiras do delírio, do sonho, do medo, das lembranças e da realidade.

O deslocamento do sujeito de seu ponto de origem (o lar?) resulta em sua própria implosão. Longe dali o filho volta a ser o pai do homem, diria Machado de Assis.

Não é outro o deslocamento em "O Som do Silêncio", uma joia rara encravada numa despretensiosa sinopse sobre um baterista que de um dia para outro perde a audição — e, com ela, a ferramenta de trabalho e comunicação de um universo encerrado na companheira com quem divide a sua casca de noz, frágil e prestes a ser silenciada, em forma de motorhome.

Como num encontro marcado com o tempo presente, o drama de Ruben praticamente anuncia como viveriam os espectadores se o mundo que conheceram e onde desenharam suas trajetórias — um ensaio incerto e sem amarras da vida com os pés na estrada — desaparecesse de um dia para o outro e nos obrigasse a viver em estado de confinamento, com os sentidos afetados por uma enfermidade misteriosa. Como seria esse Planeta quando deixássemos de nos movimentar por ele? Que sons emitiria? O que traria para perto e o que condenaria a viver a distância?

Ruben, que deixou de usar drogas há quatro anos, sente o risco de uma pedra levada até a ponta da montanha desmoronar em meio à revolta e aflição da perda iminente. Decodificar aquele novo mundo, um novo normal no qual ele demora a se reconhecer, exige aquietar o espírito. É o que estamos buscando há mais de um ano. Um ano marcado pela perda.

Em uma das cenas, o diretor de um centro de acolhimento pede que ele se tranque no quarto com uma cama, uma mesa, caneta e papéis. Num mundo modelado pelo movimento e a hiperatividade, o exercício chega a ser torturante, como é dilacerante para quem recebe o diagnóstico de uma doença que pode ser fatal e precisa se isolar sem reconhecer o cheiro ou o gosto das coisas. Lá, como cá, a crise é, antes de tudo, sensorial, e não parece ser acaso a participação de Mathieu Amalric — que interpreta um editor paralisado que escreveu um livro apenas piscando um olho em "O Escafandro e a Borboleta" — naquela história.

"O som do silêncio" é um dos mais belos filmes de amor do cinema recente. Fala das conexões e das sintonias transitórias de um mundo mediado por ruídos, como os replicados em uma apresentação do casal de artistas que demora a perceber que já não se comunica. Tem algo ali que ecoa Gabriel García Márquez e os amores contrariados dos tempos do cólera: afinal, quanto podemos esperar até que tudo volte a se comunicar como antes? O que sobra quando se percebe que, no reencontro, nada nem ninguém será o mesmo amanhã?

Em outro universo, o infantil, a espera pela reconstituição imaginária do mundo como era antes marca também os indicados a melhor animação. É o que une o professor de música lançado para outra dimensão ao cair do bueiro em seu grande dia em "Soul", os jovens que tentam pela magia reconstruir e reinterpretar a vida e a presença física do pai em "Dois Irmãos", a jovem chinesa que rompe a estratosfera em busca da mãe em "A Caminho da Lua" ou a menina que se descobre loba quando é apresentada aos encarceramentos femininos de um castelo aprisionador de subjetividades em "Wolfwalfer". Coisa de gente grande.

Melhor ficar por aqui, enquanto aguardo a estreia do favorito Nomadland, outro filme sobre a era pós-apocalipse, longe dos pilares da sociedade industrial dominante e em plena decadência. Aquela sociedade que não imaginávamos estar com os dias contados antes de nos trancar em casa sem hora para sair. O que nos confina é o que nos amarra. Que a próxima safra de filmes traga também um vento de liberdade e reencontro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL