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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Relatos da pandemia: 'saber quem eram os pais dos meus alunos me deprimiu'

Professora relata depressão após convívio forçado, durante a pandemia, com pais de alunos - Reprodução
Professora relata depressão após convívio forçado, durante a pandemia, com pais de alunos Imagem: Reprodução
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

01/05/2021 04h00

No grupo de professores no WhatsApp, foi difícil não se identificar com o recado enviado pela direção de uma escola pedindo para que os docentes, por favor, deixassem os planejamentos das aulas em dia para facilitar o trabalho dos substitutos em casos de internação. A mensagem, que virou meme, era seguida de um comentário: "antes de morrer, não esqueçam de lançar as notas e fechar os diários. Depois disso, descanse em paz. Já estamos contratando outro professor".

Real ou não, a orientação soava verossímil para Clara*, uma das professoras daquele grupo que, há mais de um ano, precisou se reinventar para atender os alunos de forma online. "Esse meme representa a nossa vida", diz.

A pandemia foi o início de uma rotina exaustiva entre aulas online, participação em lives e tarefas burocráticas envolvendo planilhas e atividades de controle de presença dos estudantes. Tarefa extra e não remunerada que muitas vezes extrapola dias da semana e horário comercial.

Em casa, Clara tem agora 20 minutos para o almoço. Para complementar a renda, precisa dar aula online de história em duas escolas do interior paulista. Uma particular, outra estadual. Os alunos têm entre 11 e 17 anos.

Um ano depois, o saldo de exaustão se soma a um profundo desencanto, sobretudo quando fala da escola particular. No período, muitos dos pais se revelaram arrogantes, ignorantes e autoritários.

Alguns chegaram a printar o que os professores escreviam nas redes sociais e enviavam à escola pedindo providências. Associavam a recusa em voltar à aula presencial a uma recusa ao trabalho — que, na verdade, só aumenta. A patrulha sobre o conteúdo ensinado é recorrente. Clara já ouviu de alunos do sexto ano perguntas sobre se era comunista e feminista. Sabia que a resposta seria ouvida pelos responsáveis.

O trauma do convívio forçado com pais de alunos, que na pandemia se tornaram participantes indiretos das aulas dos filhos, fez com que ela repensasse a profissão. Foi como se a pandemia tivesse escancarado e acirrado uma realidade que não era tão evidente até pouco tempo. Isso minou a confiança e esgarçou, talvez para sempre, os laços afetivos entre professores, pais, alunos e direção. "O vírus mostrou que não está certa a forma como vivemos".

O relato da professora chega em um longo áudio de WhatsApp:

"Estou desencantada com as pessoas com quem trabalho e com os pais. Eles são coniventes com todo tipo de falcatrua. Coniventes com os filhos que dão Ctrl C + Ctrl V para responder coisas mais elementares. A pandemia despertou nessas pessoas o que elas tinham de pior. A cobrança é desumana, nojenta. E me fez perceber que a escola não é lugar da ciência. Os donos da minha escola não se preocupam com isso. A preocupação não é com a didática, não é com a aprendizagem. É em ter um depósito para deixar os filhos e buscar no fim do dia. Muitos dão festas, fazem churrascos, se aglomeram. Agora, fazem uma pressão imensa para vacinar os professores e ter seu depósito de filhos de volta, mas não defendem a vacinação para funcionários. O argumento é que estão pagando e querem que o espaço físico da escola funcione como se estivéssemos dentro da normalidade. Não quero conviver mais com essas pessoas".

Professora desde 2008, Clara tem 35 anos, está medicada, com diagnóstico de depressão e compara o desencanto com a escola com uma "morte". "Eu amo dar aula. Mas não sei se consigo me doar como me doava antes. Penso em trabalhar com outras coisas. Montar um canal, produzir material. Ou mesmo construir uma nova instituição de ensino. Só não quero voltar para aquela escola."

Clara diz que é geral, entre os colegas, a vontade de debandar.

Quem tem amigos professores sabe que esse sentimento está longe de ser isolado. Dias atrás, uma amiga professora contou o perrengue com a mãe de um aluno que pediu sua cabeça após o filho ouvir, de uma colega da sala, que suas opiniões eram arrogantes e preconceituosas, "pareciam as de um tiozão de WhatsApp". A menina foi xingada por todos os nomes e a mãe do menino acusou a professora de não fazer nada para evitar a "humilhação" do seu tesouro.

Outra amiga professora bateu o recorde ao receber um áudio de 40 minutos de uma mãe. A conclusão dela é que todo mundo sente ter alguma coisa a ensinar para os professores. E nem todos querem ouvir contrapontos. "Por mais contraditório que pareça, não quero mais sair de casa depois desse tempo. Não tenho a menor vontade", diz Clara, antes de pedir desculpa pelo desabafo.

O estrangulamento da autoestima e do encanto de professores como ela com a profissão é uma das muitas marcas deixadas pela pandemia no Brasil. Reconstruir o que sobrou deles será um dos nossos grandes desafios nos próximos anos.

*A pedido da minha amiga professora, seu nome e o das instituições de ensino onde trabalha foram omitidos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL