Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.
É justo dizer que um paciente perdeu ou ganhou a 'luta' contra uma doença?

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Em uma pandemia como a do coronavírus, parece fazer algum sentido emprestar da linguagem bélica os signos para o enfrentamento dos desafios. Na linguagem corrente, médicos são soldados e os hospitais, a linha de frente. O inimigo a ser combatido é o patógeno.
As expressões têm lá sua eficácia, mas desenham um mundo pela metade. Ao menos por aqui, o que não faltam são inimigos macroscópicos, alheios ao vírus e dispostos a sabotar os esforços de guerra.
A ironia, outra figura de linguagem, ganha materialidade quando a estratégia derrotada teve como mentores um general e um capitão. Eles deixaram os planos de rendição aos cuidados de um publicitário, um vereador e um dono de escola de inglês. Não sabem explicar as razões do fracasso, mas tratam como idiota quem ficou em casa sem outra opção para se defender.
Anda assim, soa compreensível a apropriação dos signos do conflito armado para dimensionar a seriedade da coisa. O que não me parece justo é transformar as vítimas desse enfrentamento em "guerreiros".
Nos relatos das redes sociais ou mesmo nas reportagens sobre a covid-19, é comum acompanhar o sofrimento de quem desenvolveu casos graves da doença como uma batalha. Vence quem sai da UTI com vida. Mas quem morre, morre derrotado.
Sem querer, acabamos jogando aos enfermos o protagonismo em uma guerra que não escolheram enfrentar e da qual não têm nada a ganhar, mesmo que sobrevivam. De forma mais direta, é o que Jair Bolsonaro expõe quando pede que enfrentemos o coronavírus como homens, não como maricas. "Vamos chorar até quando?", perguntou certo dia o valentão "imorrível, imbroxável e incomível".
Falta lembrar que não é a virilidade do paciente que está em teste quando ele sucumbe. Em geral, é o próprio sistema coletivo de saúde e proteção, comandado por figuras incapazes, até agora, de organizar uma mensagem unificada sobre tratamento, prevenção e protocolos a respeito de uso de máscaras e isolamento social.
No fim dos anos 1970, a escritora e filósofa norte-americana Susan Sontag demonstrou em um longo e ainda influente ensaio como nossos sentimentos sobre o que é o bem e o mal são historicamente projetados em uma doença. E como a doença, dotada de outros sentidos além do que é (uma enfermidade), se projeta sobre o mundo e os comportamentos sociais.
Sontag havia sido diagnosticada com um câncer e se deparou com as representações sociais da própria doença que lhe parecia "inimaginável estetizar" por ser um tema raro e, na época, ainda escandaloso. Ela observava que, para muitos, o câncer ainda era uma doença "causada por amor insuficiente, que acomete pessoas sexualmente reprimidas, inibidas, sem espontaneidade e incapazes de expressar ira".
Mais de 40 anos após a publicação, é possível perceber um deslocamento na forma como a doença é hoje tratada — não nos fronts médicos, mas os da linguagem.
O câncer já não é a doença sobre a qual não se pronuncia o nome. Mas, como um infectado pela covid, a pessoa com tumor é lançada involuntariamente a uma batalha pública e simbólica que exige dela vitórias e postura guerreira. Mais do que seu quadro clínico, é como se sua força interna estivesse à prova.
Na cobertura da morte precoce do prefeito de São Paulo Bruno Covas (PSDB), aos 41 anos, frases do tipo foram expostas aos montes em reportagens, coberturas televisivas e manifestação nas redes sociais. Tudo na esteira da comoção natural e compreensível. Havia quase unanimidade em dizer que ele "não resistiu" e "perdeu" a luta. (O colega Fábio Victor foi preciso em lançar essa observação em suas redes. O receio da pronúncia da morte nos leva a sucumbir ao lugar-comum).
Nessa luta simbólica, é possível questionar se a exigência social de parecer sempre firme, incansável e inabalável não sobrecarrega ou somatiza o exato oposto do que se tenta mostrar. Como relataram os repórteres Rodrigo Bertolotto e Felipe Pereira, Bruno Covas esbanjava sorrisos e palavras de motivação em suas redes sociais, mas caía no choro quando conversava com seus médicos.
Na tentativa de retratá-lo como guerreiro, acabamos retirando do paciente alguns direitos fundamentais. Inclusive o de entristecer, chorar, pedir privacidade — e não sentir culpa por isso. O luto nem sempre vira luta quando esta é uma imposição.
A necessidade de rever esta reconstrução simbólica levou uma pessoa em tratamento contra um câncer a pedir encarecidamente, em um post que viralizou no Facebook após a morte do prefeito, que ela não fosse colocada num lugar de vitória ou derrota. "Minha doença não é calvário, é apenas uma doença grave como tantas outras. Não estou guerreando. Não estou na luta. Ninguém fala que fulano perdeu pro diabetes ou pressão alta. Como achar que o câncer ganha alguma coisa?"
No mesmo post, ela afirmou: "Minhas decisões não são para parecer mais forte ou fraca, são apenas garantias da minha autonomia sobre a minha vida e o que me faz feliz".
A potência da mensagem é um pedido para quem acha que pessoas como ela estão em guerra.
A lição que fica é que cuidados paliativos não têm a ver com desistência ou aceitação do fim. Tem a ver com dignidade.
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