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Matheus Pichonelli

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

'Paulo Gustavo deu vazão às minhas maluquices', relembra Fábio Porchat

Paulo Gustavo (esq.) e Fabio Porchat (dir.) em vídeo amador - Divulgação / Twitter
Paulo Gustavo (esq.) e Fabio Porchat (dir.) em vídeo amador Imagem: Divulgação / Twitter
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

08/05/2021 04h00

Em uma live recente, os amigos Paulo Gustavo e Fábio Porchat relembraram o dia em que havia apenas duas pessoas no teatro onde a dupla encenava a sua peça de estreia, no Rio, no começo dos anos 2000. Eram o tio e a tia de Porchat.

O nome do espetáculo, "Infraturas", arrancou risadas dos ex-parceiros que se reencontravam online, e já consagrados, quase 15 anos depois. "De onde saiu isso?", perguntou Paulo Gustavo, morto na terça-feira 4, vítima da covid-19, aos 42 anos.

"Infraturas" era uma sucessão de esquetes com personagens diversos, classificada por eles como um fracasso de público, mas fundamental para colocarem os pés no meio artístico.

Já na primeira apresentação, no Teatro Cândido Mendes, a dupla chamou a atenção de alguns globais, como Carolina Dieckmann, e de pessoas influentes da época — como Barbara Heliodora, renomada ensaísta e crítica de teatro. Ao vê-la na plateia, Paulo sentiu vontade de "entrar na privada e sair lá na praia de Ipanema".

A peça, de 2005, ficou cerca de um ano em cartaz. "A gente não aguentava mais fazer essa peça", disse Porchat na conversa. "No fim foi queda livre", concordou o amigo. "Mas o fracasso forma caráter", brincou, meio falando sério, o ator e roteirista responsável pelo maior sucesso de bilheteria do cinema nacional.

Em mensagem para a coluna, ao ser perguntado sobre quais histórias lembraria sempre do velho amigo, Porchat falou justamente dos tempos de "Infraturas", quando ele e Paulo Gustavo eram jovens candidatos a comediantes, recém-saídos do curso de teatro da CAL, a Casa das Artes de Laranjeiras.

Na época, Porchat tinha acabado de chegar de São Paulo e não conhecia ninguém no Rio. Sabia apenas que queria fazer comédia; só não sabia como. "Eu fazia humor, mas escrevia só pra mim. E não sabia muito como dar vazão àquilo", recordou.

Com Paulo Gustavo ele descobriu um amigo e a "parceria de uma pessoa que me entendia completamente na comédia". "Comecei a escrever pra ele. Ele começou a dar vazão às minhas maluquices, aos meus textos. Então eu escrevia de madrugada para chegar no dia seguinte, levar impressos para a gente ler na hora e bater o texto para outras pessoas. E ele ia fazendo as palhaçadas dele, ia sugerindo coisas, eu ia anotando, para no dia seguinte levar aquele texto corrigido e outros."

Naquele tempo, a plateia ainda era restrita, bem diferente das multidões que passaram a admirar o trabalho dos amigos, agora em vias diversas, no cinema, na TV ou no YouTube. "A gente fazia só pra gente. Não era pra gente se apresentar em algum lugar. Era só pra botar pra fora a comédia que tinha dentro de mim."

Porchat diz ter encontrado na amizade com Paulo Gustavo o meio e o caminho para a profissão. "A gente se conectou totalmente porque eu comecei a escrever já pensando nele, pensando nas piadas dele, nos trejeitos dele, e foi assim que eu criei uma peça pra gente fazer, o 'Infraturas', nosso primeiro trabalho profissional, exatamente porque o Paulo estava ali."

Recordações como essa começam aos poucos a revelar quem era Paulo Gustavo para além de sua persona pública e personagens — o mais conhecido é dona Herminia, o alter ego de sua mãe, Déa Lúcia, em "Minha mãe é uma peça".

Avesso a entrevistas, Paulo Gustavo guardou ao seu círculo de amigos-fãs uma espécie de espetáculo particular. O que ele foi e o que poderia ter sido são histórias que agora começam a ser observadas com lentes de aumento. O filho da dona Déa será tema de escola de samba no ano que vem. E, posso apostar, muito em breve voltará a reunir multidões quando sua vida for contada nas telas ou páginas de livros.

Durante a semana, Porchat foi um dos poucos amigos que conseguiu tecer algumas palavras sobre o amigo sem ser por meio de notas de pesar ou de manifestações em redes sociais. Ele enviou a mensagem à coluna , por áudio, após uma entrevista para Fátima Bernardes em que ninguém conseguiu conter as lágrimas — nem mesmo este autor e espectador distante.

Foi, porém, pelas redes sociais que a maioria desses amigos se manifestou e deu a dimensão de quem era Paulo Gustavo na intimidade. Uma delas, a médica e diretora Susana Garcia, revelou que, durante a pandemia, o artista depositou R$ 1.000 para 120 pessoas que haviam trabalhado em seus filmes. Ele se preocupava em saber como estavam e do que precisavam os integrantes de sua equipe.

Susana revelou também que o amigo doou R$ 500 mil para a compra de respiradores em Manaus no momento mais agudo da crise do coronavírus no Amazonas. Ela relatou que um dia, já internado, Paulo Gustavo, mesmo debilitado, começou a inventar uma história que se passava justamente em um hospital. Ele queria transformar aquele sofrimento em arte. "A sua gargalhada é a coisa mais gostosa da minha vida", escreveu.

Em um ambiente marcadamente competitivo, Paulo Gustavo foi um exemplo de que é possível ser admirado sem deixar de ser amado pelos pares. A comoção com sua partida precoce é prova disso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL