PUBLICIDADE
Topo

Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Olha o besta mascarado': exemplo vem de cima e faz estragos na quebrada

Sem máscara, o aposentado João Mateus Correia posa diante de sua casa em Paraisópolis  - André Porto/UOL
Sem máscara, o aposentado João Mateus Correia posa diante de sua casa em Paraisópolis Imagem: André Porto/UOL
Conteúdo exclusivo para assinantes
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

05/05/2021 04h00

Ao entrar em uma sorveteria de Campinas, em setembro do ano passado, um homem foi advertido por uma comerciante sobre a necessidade de usar máscaras adequadamente no local. Como o cliente se recusou a tirar a peça do queixo, ela também se recusou a atendê-lo. Foi o princípio do quiproquó. "Palhaça" e "lixo" foram algumas palavras direcionadas com o dedo em riste para a mulher.

"Faz alguma coisa comigo para você ver se eu não meto a mão na sua cara. Fala um 'a' para você ver o que você vai arrumar", disse o valentão. Um outro cliente gravou a cena e divulgou para a EPTV, emissora afiliada da Rede Globo na região.

Antes de deixar o local, o sujeito alterado chutou um objeto parecido com uma lixeira e pisou em um cone posicionado à entrada da sorveteria. A mulher levou o caso para a polícia.

Na mesma cidade, outro homem, também sem máscara, foi flagrado às portas de um mercado proferindo ofensas racistas contra funcionários. Apontando para a própria pele, ele dizia que era nórdico e que o atendente do estabelecimento tinha inveja de sua pele. Era o mesmo homem que, meses antes, humilhou com ofensas racistas um motoboy em um condomínio onde morava, em Valinhos (SP).

Os agressores têm em quem se espelhar quando ligam a TV. Em fevereiro, ao ser preso após ameaçar sair na porrada com ministros do Supremo Tribunal Federal em um vídeo compartilhado em suas redes, o deputado Daniel Silveira (PSL-SP) entrou sem máscara no Instituto Médico Legal da Polícia Civil de Brasília, onde realizaria exames de corpo de delito.

Na ocasião, uma policial de plantão chamou a atenção para a ausência da máscara. Foi o suficiente para deixar exaltado o parlamentar da bancada da Maromba. "A senhora não manda em mim, não. "Ela avisou que, dentro das dependências da Polícia Civil, ela mandava, sim. Ele, então, ameaçou agredi-la. "E se eu não quiser?", disse, distribuindo carteiradas e lembrando à funcionária de que era deputado.

Mas a carteirada mais famosa foi oferecida em Santos, por um desembargador que humilhou um guarda na praia após ser multado por andar sem máscara. O magistrado rasgou a multa e ameaçou acionar o chefe do funcionário na cidade. O caso foi parar no Conselho Nacional de Justiça e rendeu um processo na Justiça contra o agressor, que acabou afastado do cargo.

Chiliques do tipo proliferam no país onde o presidente da República proíbe, informalmente, seus auxiliares de usarem máscaras no ambiente de trabalho. O próprio Bolsonaro raramente é visto com a indumentária facial.

O temor da trollagem é tamanho que seu ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, precisou tomar vacina escondido para não melindrar o chefe.

Na semana passada, durante um passeio em Manaus, onde dezenas de pacientes morreram sem oxigênio e sem vaga na UTI no começo do ano, o general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde e principal alvo da CPI da Pandemia, foi flagrado andando sem máscara no shopping e, ao ser abordado, fez troça. "Onde vende?". Era uma manifestação gratuita da autoestima do homem impune.

A recusa ao uso de máscara é quase sempre um exercício masculino de virilidade (ok, houve casos como o da mulher que xingou e mordeu um guarda por se recusar a usar máscara, mas são quase sempre ilhas de exceção num mar de testosterona).

A negação em cumprir os protocolos sanitários para demonstrar receio de contaminação tem como variantes outros riscos assumidos, como a ostentação da posse de armas, desrespeito a leis de trânsito e limites de velocidade, regras ambientais, ameaças, xingamento, agressões físicas e verbais. Exatamente tudo que virou marca registrada entre apoiadores do atual governo.

O (mau) exemplo vem de cima e faz estragos aqui embaixo, como pôde conferir o repórter Rodrigo Bertolotto, ao notar como a recusa ao uso de máscara é verbo transitivo masculino em bairros nobres ou na periferia de São Paulo.

Em Higienópolis, Itaim Bibi, Jardins, Taboão da Serra, Heliópolis, Paraisópolis ou na avenida Paulista, mulheres são sempre maioria entre os que saem de casa usando adequadamente as peças consideradas fundamentais para conter a disseminação do vírus.

Foi em Paraisópolis, onde 70% dos homens andam sem máscaras ou as usam de forma equivocada, que um trabalhador rural aposentado contou ser alvo de gozação quando veste o equipamento. "Olha o besta mascarado", dizem os vizinhos.

"As pessoas veem o presidente e influenciadores promovendo e adotando medidas que não funcionam, são prejudiciais e não conseguem deixar de fazer a mesma coisa", disse o médico grego Christos Christou, presidente da ONG Médicos Sem Fronteiras, em entrevista recente a Patrícia Campos Mello, na Folha.

Para ele, muitos países erraram na condução da pandemia, mas a impressão é a de que, no Brasil, não aprendemos nada em pouco mais de um ano de experiência. "Muitas mortes e sofrimento podiam ter sido evitados", afirmou.

Por aqui, a propagação da covid-19 encontrou portão escancarado no "discurso do macho que está acima das leis", nas palavras do psicanalista Christian Dunker para a reportagem do TAB.

Na história da pandemia, a ilusão de virilidade dos homens que flertaram com o caos merece um capítulo à parte. Já são 410 mil mortes. Quantas teriam sido evitadas se o medo de parecer "maricas" fosse trocado por responsabilidade, caráter e cuidado coletivo?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL