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Em periferia, homem usa três vezes menos máscara que mulher em bairro nobre

Em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, casal anda sem a proteção adequada para um cruzamento de grande movimento - André Porto/UOL
Em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, casal anda sem a proteção adequada para um cruzamento de grande movimento
Imagem: André Porto/UOL

Rodrigo Bertolotto

Do TAB

03/05/2021 04h01

Os bairros paulistanos de Paraisópolis e Higienópolis parecem pertencer a cidades, países e mundos diferentes. No uso de máscaras durante a pandemia também: a proteção facial é três vezes mais usada pela população feminina do bairro nobre do que pela porção masculina da comunidade na zona zul, como verificou a reportagem do TAB.

Sem leis, campanhas e políticas públicas claras após mais de um ano de pandemia, a máscara tem adesão bem distinta, segundo gênero e classe social. Repetindo o resultado de levantamentos feitos no exterior, as mulheres se mostraram muito mais cuidadosas que os homens nas sete localidades da Grande São Paulo em que o grau de proteção dos rostos foi contabilizado.

Com uma amostragem total de 1.400 pessoas, foram computados 100 homens e 100 mulheres em sete cruzamentos com grande circulação, seguindo os seguintes critérios: com, sem e equipamento mal colocado (cobrindo apenas a boca).

Apesar da farta distribuição de máscaras e das campanhas da associação de moradores, Paraisópolis apresentou a menor adoção entre os locais visitados. No grupo masculino, os que ignoravam a prevenção eram mais que o dobro daqueles que usavam (68 contra 30). Entre as mulheres, foi a menor vantagem entre as protegidas e desprotegidas (52 a 40).

Já em Higienópolis, é mais fácil encontrar as pessoas com máscaras cirúrgicas ou com filtro do que aquelas que transitam expostas. De 100 mulheres, 90 estavam de máscara, algumas até com duas sobre o rosto. Dos homens, 80 tinham proteção.

Outros cinco locais foram visitados, contando os transeuntes adultos, sendo eles moradores ou trabalhadores da área: a favela de Heliópolis (também na zona sul), o centro do município de Taboão da Serra, a região da avenida Paulista (na proximidade com a avenida Brigadeiro Luís Antônio), a região dos Jardins (rua Oscar Freire com rua Augusta) e o Itaim Bibi (rua Tabapuã com rua Bandeira Paulista). Nos bairros centrais e com população de maior poder aquisitivo, as máscaras são mais populares que nas regiões mais pobres, como aponta o gráfico abaixo.

Tem, mas não põe

"Duas coisas eu não me acostumei a usar até agora. Uma é meia, porque vim de Jequié, na Bahia, e lá andava descalço. Outra é essa tal máscara. Deixo no carro para quando vou na casa de cliente ou na igreja", assim o pedreiro Rubinaldo Alves define sua relação com a proteção tão necessária em época de crise sanitária.

máscara na favela - André Porto/UOL - André Porto/UOL
O pedreiro Rubinaldo Alves conversa sem máscara em viela da favela de Paraisópolis, zona sul de São Paulo
Imagem: André Porto/UOL

Desmascarado, ele estava sentado em uma viela a poucos metros da sede da associação de moradores de Paraisópolis. No prédio, há uma sala cheia de máquinas de costura. Lá surgiu o projeto Costurando Sonhos, que fez mais de 400 mil máscaras desde o início da pandemia — o que dá cerca de quatro unidades para cada habitante da segunda maior favela de São Paulo.

Idealizadora da iniciativa, Suéli do Socorro comanda 78 costureiras, a grande maioria trabalhando em esquema de home office. Por dia, elas produzem uma média de 2.200 máscaras. O tecido é fornecido por grandes empresas, e as trabalhadoras ganham R$ 1 por peça, que significa uma geração de renda em tempos de instabilidade econômica.

"Fazemos máscaras bem feitas, bonitas e coloridas para incentivar que as pessoas vistam. Mas o governo federal jogou contra. Faltou exemplo e incentivo para o povo usar", afirma Suéli, criticando a postura do atual presidente, que costuma ir a eventos sem o equipamento.

Em Paraisópolis, as máscaras são distribuídas junto com cestas básicas. O projeto Costurando Sonhos, que trabalha com moda e sustentabilidade, está presente em favelas de outros seis estados, além do Distrito Federal, fazendo máscaras também.

Quem usa é zoado

João Mateus Correia, 55, só se alfabetizou quando estava chegando aos 50 anos. "Sei juntar as letras, mas não consigo ler de corrido, não", conta. "Eu me informo vendo televisão. Acompanho tudo sobre a covid. Mas aqui o pessoal abusa e se contamina."

Aposentado como trabalhador rural, ele ganha um salário mínimo e pega marmita na associação. Na frente de sua casa está sem máscara, mas jura que usa para circular pelo comércio local. "Tem um açougue aqui que nem os funcionários usam máscara. Eu fujo desses lugares."

E diz que tem alguns vizinhos que o provocam pelo hábito. "Eles ficam falando: 'olha o besta mascarado'. Ficam fazendo pirraça comigo", se queixa.

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Sem máscara, o aposentado João Mateus Correia posa diante de sua casa em Paraisópolis
Imagem: André Porto/UOL

Para Gilson Rodrigues, presidente da associação local, o problema principal é juntar a falta de formação dos moradores com a desinformação que circula sobre o assunto. "Aqui as pessoas têm menos escolaridade, não entendem o que é lockdown, fake news. Assunto sério acaba virando piada, com o pessoal falando 'toma uma cachaça que não pega'. Esse fecha e abre do comércio a cada 15 dias também desorienta a população", afirma o líder comunitário.

Gilson se mostra especialmente preocupado como a segunda onda está atingindo os jovens: 35% da população dessa favela tem de 15 a 29 anos. "Não adianta escolher o jovem como inimigo. Temos que fazer campanhas voltadas para eles, porque se falava muito que jovem não pegava, não morria. Só eles estão morrendo agora."

Cerca de 100 moradores de Paraisópolis morreram desde o início da pandemia, e essas histórias estão sendo gravadas para serem veiculadas por carros de som, pela rádio comunitária e pelas redes sociais. "Os números são frios. Precisamos contar essas dores para sensibilizar, criar identificação e consciência nas pessoas", argumenta.

Mulheres fortes, homens fracos

As máscaras de Higienópolis são cheias de siglas (PFF2, N95) e contam com sistema antiembaçante e controle de temperatura e umidade, podendo custar até R$ 100.

Uma das usuárias é a lojista Suely Faria. Em seu comércio de artesanato localizado na praça Villaboim, ela fica sem máscara enquanto o local está vazio. Quando aparece alguém na entrada, ela coloca o equipamento. "Usei bastante aquelas de tecido, mas um cliente que é médico me deu uma caixa dessas mais tecnológicas. É o que eu uso agora."

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A lojista Suely Faria usa máscara com filtro diante de seu comércio de artesanato na praça Villaboim, em Higienópolis
Imagem: André Porto/UOL

Perto dali, na praça Buenos Aires, Mariana Carneiro passeia com seu cachorro, Thor. Ginecologista, ela usa no trabalho as máscaras profissionais, mas adotou a de tecido para andar ao ar livre em seus momentos de folga. "Aqui no bairro os homens estão se cuidando, não enxergo diferença em relação às mulheres, mas quando vou trabalhar na zona leste vejo muitos sem máscara", compara a médica.

Esse comportamento masculino, segundo o psicanalista Christian Dunker, tem como fundamento uma tendência a evitar mostrar fragilidade em público. "Na nossa cultura de gêneros, o desleixo com a saúde é um fator masculinizante: o sujeito é mais viril quanto menos se preocupar com as feridas. O cuidado é algo feminilizante. Ao longo da pandemia, o governo federal reforçou isso, associando o uso de máscara como coisa de maricas, de covardes. Essa postura se mostrou especialmente desastrosa diante de uma doença que atinge a todos por igual", analisa Dunker.

Segundo ele, as autoridades perderam a oportunidade de fazer campanhas de esclarecimento. "No bolsonarismo, não usar máscara virou um gesto de fidelidade, e se propagou um discurso do macho que está acima das leis e que só obedece sua cabeça. Faltou uma leitura mais social diante da situação, chamar a população para a solidariedade, mostrar que todos podem jogar como um time contra a pandemia", argumenta.

No exterior também

Outros levantamentos apontaram que mulheres são mais afeitas às máscaras do que os homens. Uma pesquisa das universidades de Middlesex (Reino Unido) e Berkeley (EUA) perguntou para 2.459 pessoas sobre suas opiniões sobre o equipamento. A porção masculina deu mais respostas negativas sobre as máscaras e a intenção de não usá-las, tanto em público quanto em locais fechados.

Um estudo das universidades de Nova York e Yale (EUA) com 800 indivíduos mostrou que 55% das mulheres usam com a frequência exigida pelas autoridades, enquanto só 38% dos homens seguiam essas regras.

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A ginecologista Mariana Sousa passeia com seu cachorro na praça Buenos Aires, no bairro paulistano de Higienópolis
Imagem: André Porto/UOL

Desde meados de 2020, existem no Brasil leis federais, estaduais e municipais que exigem o uso de máscara em vias públicas, umas mais didáticas, outras mais punitivas. Entre as capitais estaduais, 16 prefeituras, entre elas a de São Paulo, há previsão de multa. Mas o número de punições, que não chega a 10 mil em todo o país, é ínfima em relação à parcela da população que não adotou corretamente as máscaras.