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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Sommeliers de vacina' provam o estrago da postura de Bolsonaro na crise

O presidente Jair Bolsonaro - Divulgação/Palácio do Planalto
O presidente Jair Bolsonaro Imagem: Divulgação/Palácio do Planalto
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

07/07/2021 04h00

Uma amiga da família testemunhou um verdadeiro desembarque na fila quando as pessoas foram informadas que só havia CoronaVac naquele posto de vacinação.

Um amigo postou em suas redes o momento em que foi imunizado. Um seguidor perguntou, com dezenas de pontos de interrogação, se tinha sido a "vachina". Ele respondeu que não em tom de alívio. Mãozinhas em forma de gratidão ao Pai Eterno encerraram o diálogo virtual.

Não são casos isolados.

Na Grande São Paulo, a prefeitura de São Bernardo do Campo precisou tomar medidas duras após cerca de 300 pessoas recusarem a vacina disponível em seus postos em apenas três dias. Agora, quem fizer o mesmo na cidade terá de assinar um termo de responsabilidade e aguardar o fim do processo de imunização de toda a população adulta para voltar à fila. Até onde se sabe, 32 pessoas assinaram o termo na boa.

Perto dali, em São Caetano do Sul, a prefeitura local deixou de informar antecipadamente a "marca" do imunizante. Isso porque 647 pessoas não aceitaram a vacina oferecida na sua vez.

Têm sido chamadas de "sommelier de vacinas" as pessoas que chegam ao posto e querem escolher qual imunizante tomar.

A expressão dá a entender que o fenômeno surgiu de maneira espontânea, como um reflexo de uma sociedade de consumo acostumada a manusear produtos nas gôndolas de supermercado e escolher o que comprar a partir da relação custo-benefício. Deixa subentendida também que a recusa se estende a uma miríade de ofertas. Não é. É resultado apenas de uma campanha específica contra uma das vacinas: a Coronavac, imunizante produzido pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac. A vacina do João Doria, para usar uma expressão do guru dos sommeliers, o presidente Jair Bolsonaro.

Desde que o governador paulista anunciou a parceria, o enciumado ex-capitão não fez outra coisa se não espalhar inverdades sobre o imunizante. Bolsonaro chegou a comemorar, dizendo que havia vencido mais uma, a notícia da suspensão dos testes da Coronavac quando um voluntário morreu. Soube-se depois que a causa da morte não tinha nada a ver com a presença do vírus inativado no corpo. A causa era suicídio.

Em suas redes, o principal influencer do país escreveu que o seu adversário político queria obrigar "todos os paulistanos" a tomar uma vacina que causava "morte, invalidez, anomalia". Como na balela sobre supostas fraudes das eleições de 2018, nunca apresentou as provas.

O presidente mentiu aos seus seguidores dizendo que a eficácia daquela vacina de São Paulo estava "lá embaixo". Recomendava, em vez disso, que os compatriotas tomassem remédio contra piolho e malária para sobreviver à pandemia. Ele também dizia que o "povo brasileiro" não seria cobaia das vacinas quando estavam em fase de testes e desautorizou Eduardo Pazuello, seu ministro de Saúde à época, quando ele anunciou um acordo para a aquisição de milhares de doses.

Na semana passada, Bolsonaro voltou à carga ao sugerir, em sua live de quinta-feira (1º), que "tem uma vacina aí que infelizmente não deu certo". "Estou aguardando aquele cara de São Paulo falar". Mais uma vez, ele apostava na confusão — catapultada pelo aumento de casos de covid-19 em países que apostaram na Coronavac, como o Chile. Só que as razões para o número de infecções nesses locais são mais complexas do que supõe o pensamento binário do capitão.

Se quisesse, ele teria aqui do lado, em Serrana (SP), uma experiência de campo para atestar a eficácia da vacinação em massa que sabotou desde o início.

Misto de ranço político com xenofobia pura, a reação à vacina produzida em São Paulo com ajuda de cientistas chineses encontra ecos em manifestações de apoiadores do presidente e grupos de extrema-direita nas redes sociais. O que não faltam nessas publicações são referências à China como a origem do vírus e delírios a respeito de um grande plano para dominar o mundo por meio de chips implantados em cada dose.

Esses grupos difusores da ignorância têm no Palácio do Planalto a sua matriz. Os estragos das campanhas difamatórias, quase todas nascidas nos canais digitais, são observados agora nas filas dos postos da vida real, onde as pessoas preferem correr o risco de morrer sem proteção a aceitar um imunizante tão torpedeado pela maior autoridade do país.

Chamar as pessoas na ponta dessa campanha de "sommeliers de vacina" é responsabilizar quem, no fim das contas, é a vítima preferencial de uma sistemática campanha contra a saúde pública. Elas só existem aos montes porque têm um guru para chamar de seu.

Na história do morticínio, a culpa de Bolsonaro nessa desmobilização é um capítulo que não pode virar rodapé.

Em tempo. Vacinados com a Coronavac desde o início do ano, meu vô e minha avó, ambos octogenários, tiveram contato com um familiar infectado, e não-imunuzado, e dias depois tiveram sintomas leves da doença, como tosse. Testaram positivo para covid-19 na semana passada e hoje passam bem. Não quero imaginar o que teria acontecido se não fosse a "vachina". Como diz o mantra, não existe vacina ruim. Ruim é não se vacinar. É por você, mas também por todo mundo ao redor.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL