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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Lizzie Bravo, a esperança de óculos, atravessou o universo

Lizzie Bravo - Reprodução/Instagram
Lizzie Bravo Imagem: Reprodução/Instagram
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

06/10/2021 11h29

Em suas redes sociais, artistas e amigos em comum se despediram, na terça-feira (5), da cantora e fotógrafa Lizzie Bravo.

Um deles foi o médico e cantor Beto Neves, vocalista da banda cover Beatles Again, de quem já falamos aqui. Por sua página no Facebook soube que Lizzie havia morrido, aos 70 anos, deixando em luto os fãs dos Beatles pelo país.

Nascida no Rio, Elizabeth Villas Boas Bravo, que virou Lizzie depois de ouvir John Lennon cantar "Dizzy Miss Lizzy", era um ícone para a turma dos beatleamaníacos. No fim dos anos 1960, ela se tornou a única brasileira a entrar nos estúdios da banda em Abbey Road, em Londres, e gravar com o quarteto. É dela uma das duas vozes dos backing vocal da versão original de "Across The Universe", uma das músicas favoritas de John Lennon — e minha.

A história de como foi parar naquele estúdio é dessas que valem um livro — que aliás ela escreveu, publicou e virou um fenômeno de vendas entre 2015 e 2017. Lizzie tinha 15 anos quando pediu aos pais, de presente, uma viagem à Inglaterra. O ano era 1967. Quando chegou lá, ela avisou que não voltaria. Não tão cedo.

Durante dois anos, conta Beto, ela acompanhou os Beatles praticamente todos os dias em frente ao estúdio localizado na rua eternizada na foto do álbum "Abbey Road". Diz a lenda que foi para lá que ela correu logo que chegou à capital britânica. Naquela rua, viu os ídolos de perto, fez fotos, conseguiu autógrafos e testemunhou, pelo som vazado de uma das janelas, a construção de obras-primas dos discos "Sgt Pepper's" e "Álbum Branco".

Um dia, em fevereiro de 1968, um certo Paul McCartney saiu do prédio e perguntou às fãs sentadas em frente ao portão se alguma delas conseguia segurar uma nota bem aguda. Lizzie e uma amiga, a inglesa Gayleen Pease, não só se prontificaram como começaram a cantar lá mesmo.

Foi o suficiente para Paul levá-las até o estúdio, onde era preparada a gravação de "Across The Universe".

Em 2010, em uma entrevista para a rede britânica BBC, Lizzie contou, em inglês fluente, que dividiu o microfone com o próprio John Lennon na ocasião. Quando ele cantava "nothing's gonna change my world", ela e a amiga entravam com o backing vocal. A versão "original" da música, com a voz da carioca ao fundo, ficou de fora do álbum "Let it Be", mas pode ser ouvida em coletâneas e nas páginas de fãs no YouTube.

Segundo Beto Neves, a morte da amiga, que há duas semanas foi internada com uma arritmia no coração, pegou a todos de surpresa. Isso porque ela andava entusiasmada e tinha planos de lançar seu livro "Do Rio a Abbey Road" em inglês.

Mais de 50 anos se passaram desde aquela gravação. Os Beatles acabaram. Lennon foi assassinado. E a história de Lizzie seria muitas vezes confundida com a história da música.

Lizzie emprestou sua voz aos vocais de álbuns de artistas como Caetano Veloso, Alcione, Zé Ramalho e Milton Nascimento — que em seu perfil no Instagram publicou uma das mais belas homenagens à artista. "Lizzie trabalhou comigo durante muitos anos, e juntos rodamos o mundo várias vezes. Ela participou de momentos cruciais da minha carreira internacional, e foi extremamente importante. Hoje soube que Lizzie Bravo, a nossa 'esperança de óculos', nos deixou".

Soube assim, pela postagem, que a "esperança de óculos" composta por Zé Rodrix e cantada por Elis Regina "com tanta emoção", nas palavras de Milton, era Lizzie Bravo. "Casa no campo" é outra das minhas músicas favoritas — por isso quis escrever este texto, como uma forma tardia de dizer obrigado.

Homenagem postada por Marya Bravo à mãe, Lizzie, em seu Instagram - Instagram/Reprodução - Instagram/Reprodução
Homenagem postada por Marya Bravo à mãe, Lizzie, em seu Instagram
Imagem: Instagram/Reprodução

Lizzie foi casada com Zé Rodrix, que pensou na música, de forma despretensiosa, durante uma viagem entre Brasília e Goiânia, nos anos 1970, em plena ditadura. A música virou um retrato de uma geração que, segundo Rodrix, morto em 2009, queria fugir e largar tudo.

Curiosamente, a música não tinha empolgado os companheiros do "Som Imaginário", sua banda na época. Mas foi abraçada por Elis Regina e o resto é história.

Também no Instagram, a filha de Lizzie e Rodrix, a cantora Marya Bravo, publicou uma charge em que a mãe fura uma nuvem do céu e lá encontra John Lennon, ambos com seus óculos inconfundíveis. "Até que enfim você chegou. Estou precisando de alguém que consiga segurar uma nota alta."

No vento incansável dos pensamentos, eles podem agora atravessar juntos novamente o universo. Dizem que lá as pessoas ficam do tamanho da paz e plantam amigos, discos e livros. E nada mais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL