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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Delfim Netto versão guru resume nossa incapacidade de produzir alternativas

Antônio Delfim Netto participa do UOL Entrevista - Reprodução/MOV
Antônio Delfim Netto participa do UOL Entrevista Imagem: Reprodução/MOV
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

13/10/2021 13h48

Um amigo costuma dizer que Antonio Delfim Netto é uma espécie de Patati Patatá da economia.

A dupla de palhaços, para quem não sabe, intrigava crianças e, principalmente, os pais das crianças, fazendo apresentações em diferentes lugares ao mesmo tempo. Só então se descobriu que havia uma "matriz" (na verdade, duas, pois uma dupla) que licenciava a marca e autorizava os muitos clones artísticos a se espalharem pelos palcos do Brasil.

O Delfim, jurava este amigo, devia ser pioneiro na reprodução de si mesmo em escala industrial. Só isso poderia explicar sua onipresença em jantares, entrevistas, aulas, palestras, noites de autógrafo (de livros escritos por ele, quase sempre), consultorias e encontros com presidentes e candidatos. Em todos os convescotes, parece estar à vontade, fantasiado de oráculo.

A impressão é que tem sido assim desde 1967, quando fez parte de decisões importantes relacionadas à política econômica no país. Muita coisa mudou depois disso. Mas algo permaneceu imutável: a chance de abrir qualquer jornal, às vezes mais de um, e encontrar Delfim Netto falando de temas que vão do teto de gastos a Francis Bacon.

Ex-ministro da Fazenda nos tempos da ditadura, quando ainda não tinha virado uma franquia (sempre segundo a hipótese do meu amigo), Delfim era um dos presentes à mesa de reunião que instituiu o AI-5, instrumento que marcou o período mais repressivo do regime, em dezembro de 1968. Talvez a pergunta que ele (ou seus clones) mais tenha respondido na vida foi se não se arrepende de ter votado, sem ressalvas, pelo ato institucional que fez adversários e opositores políticos serem dragados e engolidos.

A resposta a essa pergunta é sempre "não".

Em setembro, Delfim afirmou em entrevista ao UOL que voltaria, sim, a assinar o AI-5, porque "aquilo era um processo revolucionário". "As pessoas não conhecem história, ficam julgando o passado, como se fosse o presente. Naquele instante foi correto, só que você não conhece o futuro."

De passado o ex-ministro entende.

Dias atrás, em uma entrevista a Pedro Bial, Delfim (aparentemente, o original) foi instigado, com uma pergunta/afirmação, a falar sobre os candidatos que lideram a corrida para presidente em 2022. O tema da conversa eram os rumos da economia brasileira. Junto a eles estava o presidente de um banco.

"Fomos incapazes até agora de produzir alguma alternativa. As duas (candidaturas) são déjà vu, as duas já deram o que tinham que dar, são bananeiras que já deram cacho e precisamos encontrar outros caminhos", disse, aos 93 anos, o oráculo que está na pista desde os anos 1960.

As bananeiras, no caso, eram Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. O último é figura essencial para entender por que entra governo, sai governo, e a impressão que se tem é que Delfim Netto continua ali, numa espécie de pedra fundamental, e onipresente, de qualquer palácio.

Em dezembro de 2006, aos 61, o então presidente Lula causou celeuma ao declarar que quem passou dos 60 anos e ainda se dizia de esquerda tinha algum problema. Para mostrar que havia tomado a estrada de Damasco sem se perder, ele declarou ser amigo do Delfim Netto. "Passei 20 e tantos anos criticando o Delfim Netto e agora ele é meu amigo e eu sou amigo dele. Por que eu estou dizendo isso? Porque eu acho que é a evolução da espécie humana."

O autor daquela teoria da evolução política agora tem as bananas do cacho rejeitadas pelo companheiro Delfim, que havia sinalizado apoio a ele desde a eleição de 1998. Na campanha de 2006, Delfim chegou a subir no palanque ao lado de Lula. Mesmo com o padrinho político, ele não conseguiu se reeleger deputado federal —segundo Lula, por "preconceito das elites". Pouco depois, foi nomeado para o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão.

Em sua delação premiada, o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci afirmou que Delfim recebera R$ 4 milhões em um acerto de propinas, supostamente envolvendo o PT e uma construtora. Ele chegou a ser alvo de uma operação da PF na Lava Jato.

Por essas e outras, a declaração de Delfim a Pedro Bial repercutiu. Principalmente nas redes, onde não passou despercebido o lugar de fala do ex-ministro da ditadura para falar sobre o sequestro do futuro pelos representantes do... passado.

Delfim pagava, assim, com ingratidão a quem sempre lhe deu as mãos e os ouvidos.

Como sempre, a discussão sobre a frase se tornou uma discussão sobre por que tanta gente quer saber o que pensa Delfim Netto. Com anos de experiência em cobertura econômica, meu amigo Mario Sérgio Lima lembra que, a rigor, Delfim nunca deixou de ser ouvido.

O que, segundo ele, é uma coisa assustadora, já que ele não é, digamos, levado assim tão a sério pela academia — diferentemente dos governos petistas, que o recolocaram na primeira prateleira de conselheiros fundamentais das grandes decisões, sobretudo nos anos Dilma.

É o que permitiu chegar até aqui num moto-contínuo de quem tem muita opinião, já exerceu cargos de relevância, tem ainda ligações políticas e, principalmente, é sempre acessível a atender jornalistas.

Atesto e dou fé. Em 2006, logo depois da declaração de Lula, fui pautado para repercutir a polêmica com o próprio Delfim. Ele (ou um dos clones) estava em um evento na av. Faria Lima. Ao fim de sua palestra, perguntei o que ele tinha a dizer. Não lembro da resposta, mas lembro que ele parecia frágil, com uma gripe persistente que o fazia espirrar e assoar o nariz com o lenço, antes de concluir cada frase.

Voltei para a redação sem texto e com a sensação, compartilhada entre os amigos, de que aquela poderia ser uma das últimas aparições públicas do ex-ministro. Pois é. Sobre acertos e prognósticos, não posso acusar ninguém.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL