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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Em vez de alívio, volta da 'normalidade' pode nos tornar mais ansiosos

Como sobreviver a um mundo cada vez mais frágil, ansioso, não-linear e incompreensível -
Como sobreviver a um mundo cada vez mais frágil, ansioso, não-linear e incompreensível
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

13/10/2021 04h01

Sorte (ou azar) do dia: entre 7,8 bilhões de habitantes do planeta, você provavelmente faz parte do meu um seleto grupo de "primeiras pessoas que quero encontrar quando tudo isso passar".

A frase acima tem um erro de formulação proposital. E óbvio. "Tudo isso" ainda não passou. Mas, com o avanço da vacinação, é tentador decretar o fim da pandemia, ao menos entre o nosso círculo mais próximo. A situação já foi mais delicada. Não faz muito tempo e morriam 4.000 brasileiros por dia em decorrência da covid-19. Hoje morrem em média "só" 400. É muito menos. É muita gente ainda.

Depois da segunda dose da vacina, muita gente começou a relatar um princípio de estresse e euforia com a nova força gravitacional da porta de casa para fora. É a ânsia de viver em poucos dias o que não se viveu nesse tempo todo.

Familiares querem celebrar aniversários, batizados, bodas de prata, papel e de ouro. Amigos querem apresentar as crianças que nasceram no período e que ainda não visitamos. Gestores querem reunir a equipe para retomar aos poucos a rotina pré-pandemia. Isso já inclui confraternizações de fim de ano. Amigos de torcida querem alugar aquela van e lotar estádios. E mesmo os planos de viagem já não parecem absurdos.

O problema é que, como águas represadas que veem o dique se romper, tudo parece estar acontecendo ao mesmo tempo. Sim, você provavelmente está na lista de pessoas que alguém quer encontrar assim que passar a "quarentena" da segunda dose. E você provavelmente está na lista de várias pessoas também. Algumas em comum e com os mesmos planos de aglomeração.

A ânsia pela retomada, em vez de alívio, tem despertado uma certa angústia para quem, no último ano e meio, perdeu ou remodelou as capacidades de gerenciamento da vida profissional e social. Uma amiga deixou o emprego diante da insistência da chefia em retomar as reuniões presenciais — essas que exigem, como mostrou um esquete recente do "Porta dos Fundos", sair de casa e passar horas no trânsito para obter resultados similares ao de uma chamada por vídeo. Faz sentido? Para minha amiga, não faz. Ela se negou a voltar ao "velho normal" porque seu novo normal agora é um filho pequeno e não vacinado. Resultado: pediu as contas.

Outro amigo não sabe como dizer não aos convites de happy hour que os amigos da empresa fazem, toda sexta, antes mesmo de voltarem ao trabalho presencial. Ele não tem ideia de como negar o convite sem levar a pecha de chato do rolê.

Sair de casa, para eventos que a gente quer e outros de que não quer participar —e agora já não tem desculpa — envolve também outros cálculos. O principal é o que fazer com as crianças enquanto os adultos vacinados tentam compensar o tempo perdido de uma só vez.

Outra fonte de ansiedade é (não) saber como lidar com situações que aprendemos a enfrentar à distância. Estender a mão fechada, com soquinho, é agora ofensivo? Isso demonstra falta de confiança e consideração com a pessoa que já chega de braços abertos? Pedir para alguém colocar a máscara enquanto lança gotículas em nossos rostos? Pode pedir para alguém dar dois passos para trás? E se cobrir de álcool em gel ao ter o corpo tocado por outro corpo que não sabemos onde se meteu? Alguém ainda se lembra de como é manter uma conversa com mais de dez minutos de contato visual sem poder "mutar" o microfone?

Claro que, dos males, esses são os menores. Somos sobreviventes, afinal. Como uma nação pós-guerra, estamos prontos a botar em prática o maior carnaval, seguido de baby boom, já visto do novo século. Ok. Normal. Faz parte. Mas é bom lembrar que o mundo não vai acabar amanhã. Apesar de quase ter acabado ontem.

Na conta da retomada que só agora estamos fazendo está, por fim, a necessidade de entender quem é que está com pique para festa. A pandemia afetou diferentes pessoas de diferentes maneiras. Houve perdas. Pessoas próximas morreram. Entre os sobreviventes, até o tempo de elaboração de luto começa a ser agora atropelado.

Administrar tanta urgência sem ser atropelado é um dos próximos grandes desafios de um tempo, mais do que nunca, mediado pela ansiedade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL