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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ofensa a casal vira caso de polícia e uma aula de como tratar um racista

Em mensagens privadas, Amanda Klimick leu absurdos sobre seu relacionamento com Jota Júnior, registrou tudo e foi à polícia - Instagram/Reprodução
Em mensagens privadas, Amanda Klimick leu absurdos sobre seu relacionamento com Jota Júnior, registrou tudo e foi à polícia Imagem: Instagram/Reprodução
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

09/10/2021 04h00

Amanda Klimick recebeu um comentário estranho de um desconhecido pelo Instagram. "Que vergonha", escreveu para ela Álvaro Hauschild, doutorando de filosofia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). O comentário foi seguido de um emoji vomitando.

A psicóloga enviou não um, mas cinco pontos de interrogação para entender o que aquilo significava. Hauschild explicou. Disse que ela deveria arrumar um namorado que não a fizesse passar vergonha. Referia-se a Jota Júnior, estudante de Políticas Públicas da mesma universidade.

Após mostrar a mensagem para o namorado, que é negro, o casal decidiu dar corda para ver até onde ia a conversa. E ela, sem censura, foi até onde prometia chegar.

Nas mensagens, às quais o jornal O Globo teve acesso, Hauschild descreveu Jota Júnior como um "palhaço de circo". Disse que ela era uma mulher bonita, "de família", e merecia "algo à tua altura". Ele perguntou se ela já tinha pensado como seriam seus descendentes caso eles tivessem filhos. Sugeriu que ela era de origem viking e que europeus teriam cérebro complexo e desenvolvido para as abstrações intelectuais, enquanto os negros seriam um "problema sério" nas sociedades desenvolvidas.

Ele também escreveu que pessoas negras exalam "um cheiro típico" e têm o "cérebro programado para fazer o máximo de filhos que puder" para "harmonizar bem na savana". Lá a natureza "dava cabo neles".

Os argumentos pareciam tirados de algum capítulo de "Mein Kampf", o livro recheado de teses racistas escrito por Adolf Hitler. Mas era "só" a página pessoal de um jovem branco brasileiro, morador de um país onde células neonazistas se espalham aos montes, e confortável ao compartilhar mensagens para confirmar seu supremacismo imaginário.

Amanda Klimick fez o que todo mundo que testemunha crimes do tipo deveria fazer: chamou a polícia e expôs o criminoso. Ao menos ali, a correia de transmissão foi cortada.

Como Hauschild, existe uma multidão de pessoas brancas que, em espaços reservados e supostamente protegidos, assinaria embaixo de cada linha do que escreveu o doutorando racista. Essas ideias seguem submersas como bloco de gelo de um iceberg do qual só vemos a ponta — quando um ataque direto vem à tona. A base desse iceberg geralmente permanece intacta porque opera em segurança. O racista é, antes de tudo, um covarde.

Nos círculos restritos a pessoas brancas, quantos filhos não ouviram dos pais e amigos conversas parecidas sobre namorados ou suas namoradas de pele escura? Quantas piadas não foram replicadas como numa chave de irmandade racista? Quantas pessoas brancas ficaram sem respostas ao pronunciar em voz alta seu incômodo com a presença de pessoas negras nas universidades ou com os ativismos que adoram chamar de vitimismo? Quantos não foram aplaudidos por fazer troça de símbolos da cultura afro ou com a conversa batida de que não deveria existir o dia da consciência negra, pois todos somos humanos, todas as vidas importam e coisas do tipo?

O caso me fez lembrar de que, quando criança, costumava ouvir de conhecidos brancos coisas horríveis sobre um certo árbitro negro de futebol. "Esse macaco sempre fode meu time", diziam, no conforto da TV e da audiência das pessoas ao redor da sala.

A ofensa não chegava aos ouvidos do juiz. Mas, velada, ela seguia viva e perigosa como um petardo.

No mesmo jogo, quando um atleta errava um passe, a fúria passava sempre pelo filtro da cor da pele. "Não é por nada, mas tinha que ser, né?"

O mesmo acontecia no trânsito. Ou quando algum profissional falhava e tinha a cor da pele apontada como a razão da petulância.

São típicos comentários que pessoas brancas costumam ouvir quando estão diante de quem, por alguma razão, se sente confortável para manifestar sua visão odiosa de mundo. Nessas horas, o mínimo a fazer é deixar claro que ali naquele espaço, em casa, no bar, no trabalho ou nas mensagens privadas de rede social, o racista, chamado pelo nome, não é bem-vindo.

Nada garantiria que ele não seguirá pensando o que pensa, mas se guardar para ele, pelo constrangimento ou medo da rejeição, ao menos as crianças da sala serão poupadas de sua idiotice. Elas ao menos não correriam tantos riscos de replicar o ódio naturalizado.

Foi o que Amanda Klimick fez. Quebrou a correia de transmissão ao tirar o racista do armário, onde se sentia protegido, e levá-lo a conhecer o caminho da responsabilização.

Como estamos cansados de saber (estamos?), não basta não ser racista. É preciso ser antirracista. E isso exige brecar e constranger o racista no ambiente em que ele mais se sente confortável: as sombras.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL