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REPORTAGEM

Filhos se reúnem para criar 1ª associação de pessoas adotadas do Brasil

Durante a pandemia, houve redução de mais de 26% na adoção do Brasil Imagem: Unsplash
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Matheus Pichonelli

Colunista do UOL

20/11/2021 04h00

Três anos atrás, em uma sequência de tuítes, a jornalista e então estudante de direito Larissa Alves, hoje com 28 anos, fez um pedido em forma de perguntas para seus seguidores: havia entre eles algum filho ou filha adotiva que poderia conversar sobre o tema?

Os posts viralizaram. A necessidade de falar com pessoas como ela, também adotada, veio após uma crise particular, de pânico, e escancarou um descompasso coletivo. No Brasil existem mais de 200 grupos de apoio a pais adotivos — quase sempre os protagonistas dos debates e reportagens sobre o assunto —, mas a quantidade de coletivos dedicados aos filhos não soma os dedos de uma mão.

Até então, Larissa nunca tinha debatido com outras pessoas na mesma situação, a não ser de modo superficial. A partir dos tuítes, as conversas e contatos se aprofundaram, inclusive com pessoas e grupos de outros países.

Até que, em junho deste ano, ela e outros filhos adotivos de diversas localidades se reuniram virtualmente para uma missão: alinhar objetivos e redigir um estatuto para a fundação da primeira associação de adotados do Brasil.

O lançamento da Adotiva (Associação Brasileira de Pessoas Adotadas) acontecerá oficialmente no dia 2 de dezembro, a partir das 19h00, com uma live transmitida pelo perfil da entidade (@adotivabrasil) no Instagram.

A ideia dos fundadores é ir além do apoio à busca por origens biológicas, uma demanda comum em grupos de WhatsApp dedicados ao tema, e projetar ações para pluralizar narrativas sobre adoção, lutar por políticas públicas adequadas e buscar reparação histórica por omissões do Estado e violações de direitos, como separações entre famílias de origem de forma violenta e despreparo de profissionais. "Recebo histórias de crianças que não foram comunicadas da morte de parentes biológicos porque, segundo os profissionais, isso 'impediria o vínculo com a nova família'. Existem casos também de pessoas que não puderem se despedir da mãe biológica e já foram enviadas para outras famílias", relata a jornalista.

A iniciativa é um passo importante para quebrar um ciclo de silêncio e constrangimento que faz com que, entre outros transtornos, o índice de tentativas de suicídio entre adotivos seja quatro vezes maior do que entre filhos biológicos, segundo a entidade.

Entre os fundadores da Adotiva estão outras referências no tema, como Fernanda Tuna, do grupo Vez e voz (@euadotiva), Márcia Miranda, que presta auxílio em investigações genéticas para busca de origens biológicas, e o jornalista Alexandre Lucchese.

Autor do livro "Vida de Adotivo", Lucchese mantém uma página no Instagram com cerca de 8,5 mil seguidores. A obra, segundo ele, é resultado justamente da sensação de que estava sozinho na busca por referências para se informar, compartilhar dúvidas e entender como as pessoas que passavam pela mesma situação elaboravam respostas. "Me sentia muito solitário neste sentido. Escrevi o livro que eu queria ler para que outras pessoas saíssem com um ponto de partida em relação às suas questões e não passassem pelo que eu passei."

Em dos posts em sua página, Lucchese conta que, no início da vida adulta, toda vez que alguma coisa ameaçava dar certo em sua vida, ele se "encarregava de colocar tudo por terra em um perigoso ciclo de autodestruição e autoindulgência". Isso mudou quando ele percebeu, em uma sessão de terapia, a necessidade de falar que era filho adotivo e recontar o seu passado. Não parou mais.

Após a publicação do livro, em 2020, as primeiras pessoas que o procuraram eram pais adotivos ou pretendentes. "Havia uma demanda deles para nos entender melhor e construir suas famílias com mais tranquilidade e leveza", conta.

Mais recentemente, segundo o autor, são os adotados que "vêm aparecendo em peso". "Isso me alegra muito. O livro foi escrito para eles. E eles vêm chegando com novas demandas, novos saberes, novos olhares sobre a adoção", diz.

Nesses encontros, mesmo que virtuais, ficou evidente o desejo de institucionalizar essas demandas e trabalhar por políticas públicas adequadas. "As experiências novas vão além dos dilemas mais pessoais que até então a gente via nas comunicações sobre adoção do ponto de vista dos filhos", diz Lucchese. "Temos dificuldades em trabalhar entre nós porque somos como quaisquer outros adotados. Temos nossas limitações, cobranças e medos do abandono. O que nos une é um sentimento de irmandade muito forte. É realmente como encontrar novos irmãos."

Para o escritor, a criação de uma associação que reúna filhos adotivos só é possível graças ao Estatuto da Criança e da Adolescente e da atuação dos grupos de apoio a pais adotivos no Brasil. Até então, era comum que a adoção ocorresse à margem da legalidade, com registro de crianças adotadas como se fossem biológicas — um terreno para a insegurança jurídica e psicológica. "Os pais hoje conseguem receber melhor as questões trabalhadas nos grupos de apoio. A adoção se tornou mais adequada e justa para todo mundo".

Agora é a vez de os filhos adotados contarem suas histórias. "Só conseguimos propor essas discussões porque este solo vem sendo semeado há 30, 20 anos, e chegou nossa hora de falar."

"Todos nós partimos de uma necessidade pessoal de entendimento e começamos a falar sobre isso. A adoção vai muito além de um viés familiar e da emoção adotiva. Passa por questões sociais complexas, de entender qual a realidade das famílias de origem e o porquê de o Brasil ter um número tão grande de abrigados e 'disponíveis' à adoção", diz Larissa, que mantém no Instagram a página @olharadotivo. "Ainda faltam dados no Brasil. Não sabemos quantos adotivos somos. Pesquisas acadêmicas ainda se voltam quase que inteiramente sobre os pais. Por isso é importante a institucionalização. Para sair da invisibilidade."

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