PUBLICIDADE
Topo

Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Elza Soares foi dura na queda. Mesmo quando a queda era inevitável

Elza deixou DVD, disco e documentário prontos para serem lançados durante o ano - Foto: Reprodução
Elza deixou DVD, disco e documentário prontos para serem lançados durante o ano Imagem: Foto: Reprodução
Conteúdo exclusivo para assinantes
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

22/01/2022 04h00

"Através da minha história eu vou trazer muita gente com mais força, com mais vontade de lutar e dizer assim: 'Eu vou seguir o caminho que essa mulher seguiu. Não tem que ter medo. Ela foi dura, danada. E chegou aí'. É a história que eu gostaria que fosse contada como eu falo. A minha vida".

Quem entrasse na página oficial de Elza Soares no Instagram encontraria esse trecho de uma entrevista na última postagem antes do anúncio de sua morte, na quinta-feira (20).

A vontade de ver sua sua história contada, para muita gente ter mais força e vontade de lutar, foi atendida — basta ver os testemunhos de fãs e artistas devotos ao longo do dia.

A cantar até o fim, como ela desejava, também.

São raros os artistas que podem se despedir da vida como Elza Soares — lembrada, amada e admirada pela potência da voz e pela coragem de dizer o que precisava ser dito.

Tudo isso a tempo de, já no fim da vida, deixar como legado uma obra como "A mulher do fim do mundo", um dos grandes álbuns da música popular brasileira. Se não o maior.

Em seu ato final, segundo o empresário Pedro Loureiro, Elza gravou ainda, entre segunda e terça-feira, no Theatro Municipal de São Paulo, um DVD de despedida a ser lançado no Dia da Mulher, em março. Outros projetos, como um novo álbum e documentários, também devem ser apresentados em breve ao público.

"Ela fez tudo o que ela queria fazer. Cem por cento das coisas que ela queria fazer, ela fez, inclusive gravar o DVD que seria o último da carreira", disse Loureiro.

Em sua despedida, Elza recebeu homenagens de artistas como Lázaro Ramos ("Obrigado por inspirar tanto e por não se calar nunca"), Leci Brandão ("Elza é uma referência de mulher, artista e ser humano. Elza é eterna!"), Maria Gadú ("Elza, te amamos do cóccix até o pescoço!! a eternidade sempre te pertenceu") e Ludmilla ("Sem ela, muitas de nós não estariam onde estão. Descansa em paz, Deusa Elza").

É provável que Elza tenha ouvido palavras como essas, de gratidão e reconhecimento, ainda em vida.

Tinha tudo para ser diferente.

Hostilizada por conta de seu relacionamento com Garrincha, um homem casado, nos anos 1960, Elza enfrentou o ciúme e o vício do ídolo do Botafogo e da seleção brasileira antes de atravessar o momento mais difícil de uma vida marcada pela violência. Ela acompanhou o fim trágico de Garrincha, derrotado finalmente por uma cirrose hepática em 1983, e logo depois perdeu um filho, em um acidente de carro. Drogas, depressão, tentativa de suicídio: a queda era inevitável, mas não irreversível, como cantou Chico Buarque em sua homenagem, na música "Dura na queda".

No obituário da cantora publicado no jornal O Globo, Silvio Essinger lembrou que as gravadoras haviam perdido o interesse pela voz da cantora nos anos 1980, mas não artistas como Lobão, Cazuza e Caetano Veloso, que a tirou do ostracismo ao chamá-la para cantar o samba-rap "Língua".

O resto é história.

A história que ela queria que fosse contada.

Fã da voz e da musicalidade da artista desde os tempos da escola, Caetano relembrou, em suas redes sociais, do dia em que ela contou sobre sua iminente decisão de abandonar a carreira — e talvez o Brasil. "Fui capaz de convencê-la a ficar porque entendi que aquilo era uma espécie de pedido de socorro. Compus o samba-rap 'Língua' e a convidei para cantar a parte melódica."

A música fez com que Elza voltasse a receber atenção. "(Ela) voltou à televisão e, depois, figuras tão díspares quanto Lobão e Zé Miguel Wisnik fizeram questão de trabalhar com a Elza. Recentemente, jovens músicos paulistanos (e ao menos um carioca que vive em Sampa) têm feito com ela o que ela merece. Morreu na glória a que fazia jus, numa idade respeitável, afirmando a grandeza possível do Brasil".

O talento é mesmo implacável?

No mesmo dia da morte de Elza Soares, enfim conferi a história das irmã Venus e Serena Willians, contada no filme "King Richard: criando campeãs", de Will Smith — provavelmente um dos fortes candidatos ao Oscar deste ano. O filme está disponível na HBO Max.

Assim como Elza, e como tantas, a história dos dois talentos negros que se tornariam lendas no esporte tinha tudo para não acontecer. Essa história também estava atravessada pela violência, pela pobreza e pelo preconceito. E, também como Elza, o talento, que às vezes parece irrefreável, só explodiu porque alguém acreditou nele até no fim e no momento mais tenso — no caso, os pais da tenista.

É difícil calcular quanta história e quanta beleza não seriam retalhadas se esses talentos, mesmo incontestáveis, não contassem, em algum momento da trajetória, de apoio para não transbordar no esquecimento, como outros tantos.

Que o exemplo de resistência siga inspirando quem neste momento bambeia, cambaleia e custa a cair em si. Como diz a música, a flor é também ferida aberta.

Mas, ao se levantar, que ninguém se abstenha de usar a voz para gritar contras as violências e as injustiças. Ninguém precisa passar por que Elza passou para ser alcançar a grandeza que ela sempre foi.