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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Barqueiro jogado na água por passageiro sem máscara é vítima de país doente

Paulo Henrique Santos de Souza, de 27 anos, foi empurrado para fora de balsa no RJ - Reprodução
Paulo Henrique Santos de Souza, de 27 anos, foi empurrado para fora de balsa no RJ Imagem: Reprodução
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

26/01/2022 04h01

No domingo (23), o condutor de uma balsa foi agredido por um passageiro e arremessado em direção às águas sujas do canal Marapendi na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Parecia a atualização de uma velha esquete do "Choque de Cultura", humorístico em que um dos personagens, motorista de "transporte coletivo alternativo", se queixava de não receber da população a anuência para bater na cara de uma idosa que precisou agredir, durante uma viagem.

Na cena da vida real, a discussão aconteceu porque o passageiro, morador de um condomínio, não queria usar máscara de proteção contra a covid-19.

O barqueiro, Paulo Henrique Santos de Souza, 27, não era dono da embarcação, e sim funcionário terceirizado da empresa contratada por uma associação de moradores para fazer a travessia do local.

O passageir já havia ensaiado uma rebelião, havia alguns dias. Reclamava, provocava, evitava conversar com o condutor e vivia mandando indiretas. No domingo (23), resolveu fazer cumprir no tapa seu conceito de liberdade.

Ao ouvir que o funcionário estava apenas cumprindo ordens e que o vírus da covid-19 não permitia baixar a guarda, nem a máscara, o homem retirou a indumentária do rosto e empurrou quem reprimia seu desejo de contaminar quem bem entendesse. Paulo Henrique foi jogado para fora do barco.

Por pouco o condutor não caiu sobre o motor. A queda poderia ser fatal, mas ele se safou caindo nas águas escuras marcadas pelo depósito de dejetos e esgoto da lagoa do Marapendi.

Ele ainda tentou voltar para a embarcação, e por pouco não recebeu um chute na cabeça. O jeito foi nadar até o barco de um amigo e pedir socorro.

Ao ver que estava sendo gravado, o valentão empunhou o dedo na direção do outro trabalhador. No vídeo é possível vê-lo alterado, ao lado de uma mulher que também hostilizava o cinegrafista amador (no clássico à brasileira, quando for finalmente identificado, não corre o risco de perder a aposta quem ler por aí que os agressores não eram assim de todos maus, apenas estavam com problemas pessoais e saíram de casa naquele dia sem tomar o calmante).

Santos da Silva foi encaminhado ao hospital para tratar dos ferimentos nas pernas e nos braços. Podia ser pior: o invasor queria continuar a briga.

Sem oponente, ele precisou conduzir o barco sozinho de volta até o píer.

Não sei vocês, mas não consigo ver alegoria maior para o país do que aquela embarcação.

A rejeição às medidas de proteção, como quem precisa mostrar o tempo todo que de fato é "imbroxável" e "imorrível", é uma marca do comportamento de outro morador de um condomínio da Barra da Tijuca. Assim como seu antigo guru, Olavo de Carvalho, que chamava covid-19 de "mocorongavírus" — até ser vitimado por ele — Jair Bolsonaro já decretou, em seu entorno, a proibição do uso de máscara.

Em sua gestão, ele já tem mais multas por desobediência do que feitos para mostrar aos eleitores nas eleições de 2022.

No vocabulário bolsonarista, "liberdade" virou sinônimo do desejo de viver num mundo onde ninguém, em nome do bem coletivo (e da saúde pública, no caso) diga aos meninos birrentos, alguns já sexagenários, o que eles podem ou não fazer para viver em sociedade.

Como já dissemos por aqui, a agressividade diante da contrariedade expõe apenas o desejo de impor sua vontade sobre os demais — e eliminar, assim, qualquer desconforto ou desprazer.

O resultado é o estado completo de desamparo que marca a trajetória do nosso barco à deriva, desde que o valentão decidiu que poderia se desfazer dos condutores entendidos de política pública e assumir a direção do país. A explosão de mortes evitáveis na pandemia é o retrato mais macabro dessa condução.

O comportamento do presidente virou modelo replicado por outros cidadãos de bem que esperneiam quando lembrados de que a vida coletiva exige algumas regras — tipo não jogar o coleguinha no córrego quando é contrariado. Principalmente quando o coleguinha é quem pode levar o barco para algum lugar.

(Que o digam os ministros e secretários minimamente funcionais que alertaram o capitão de que a sua embarcação estava seguindo para o brejo.)

Graças ao acesso a celulares com câmeras, cenas do tipo expuseram os chiliques e agressões, inclusive contra mulheres, de quem confunde liberdade com o direito de agir como imbecil sem ser incomodado. Falta agora quem os responsabilize pelas ameaças.

Menos grave que a viagem em marcha a ré do agressor tenha durado poucos metros — Santos de Souza, após o quiproquó, se perguntava se o agressor teria capacidade e habilitação para conduzir o barco até ali.

A nossa marcha real em direção ao atraso já dura três anos. Se tivermos sorte, ela acaba no fim de 2022 sem que ninguém precise ser atropelado, agredido ou jogado no esgoto por pedir um pouco mais de noção e respeito.