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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Indisciplina e ódio ao STF unem trajetórias de Bolsonaro e Daniel Silveira

Bolsonaro e Daniel Silveira durante viagem em avião presidencial. Foto: Facebook - Bolsonaro e Daniel Silveira durante viagem em avião presidencial. Foto: Facebook
Bolsonaro e Daniel Silveira durante viagem em avião presidencial. Foto: Facebook Imagem: Bolsonaro e Daniel Silveira durante viagem em avião presidencial. Foto: Facebook
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

24/04/2022 04h01

A decisão do presidente Jair Bolsonaro (PL) de perdoar os pecados e livrar da prisão o deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ) deixou eufórica a ala militar do governo que defende o enfrentamento com o Supremo Tribunal Federal.

A bronca tem sido alimentada desde as anulações da Lava Jato e passa pela autorização do acesso aos áudios com descrições de tortura, gravadas em sessões do Superior Tribunal Militar na ditadura.

Preocupados com a imagem das Forças Armadas diante da repercussão dos áudios, os fardados, ao que parece, gostaram de ver o presidente da República gritar truco e peitar uma decisão quase unânime do STF.

A ironia é que o chega pra lá tem como protagonistas dois ex-servidores, um do Exército e outro da PM, com histórico extenso de indisciplina militar até migrarem para a política.

Em seus tempos no Exército, Bolsonaro chegou a ser descrito por um coronel como um militar com "excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente", que já havia dado "mostras de imaturidade ao ser atraído por empreendimentos de 'garimpo de ouro'" em vez de se ocupar das atribuições militares.

O hoje comandante em chefe das Forças Armadas tinha "permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos" e era sempre repreendido, "tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos". Ele era conhecido também pela "confusa mescla de ambições, aspirações e valores menores".

Aos 67 anos, Jair Bolsonaro é hoje uma barreira de contenção à ideia de que as pessoas amadurecem, mudam e/ou melhoram com o tempo.

Na quinta-feira (21), dia do Feriado de Tiradentes, o presidente decidiu mostrar sua generosidade ao perdoar o deputado condenado a oito anos e nove meses de prisão por ameaçar o Estado democrático de Direito e coagir as partes no curso do processo.

Entre outras ameaças, Silveira havia conclamado a população a entrar no Supremo e agredir um de seus ministros, Alexandre de Moraes.

Bolsonaro, o mau militar que precisou deixar o Exército para fugir da expulsão, correu em defesa do aliado para, como queria certa ala militar, mostrar aos ministros do STF quem é que manda nessa coisa toda.

O aliado socorrido é um ex-policial militar que também deixou a corporação pela porta dos fundos — e que por pouco mal assumiu a sua vaga.

Como mostrou o site The Intercept Brasil, Silveira passou com louvor pelo teste físico e teve nota mediana nas provas teóricas, mas acabou reprovado do exame social por ter passagem pela polícia. Ele já havia sido preso por supostamente vender anabolizantes em academias de Petrópolis (RJ).

O futuro deputado precisou recorrer à Justiça para assumir a vaga. Ele alegava presunção da inocência. De recurso em recurso, o caso chegou ao STF — que, ironia das ironias, o ajudou, por meio de uma decisão do então ministro Marco Aurélio de Mello, a assumir o cargo ao devolver a ação para o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, onde o caso foi arquivado.

Silveira ganhou a farda, e o estado do Rio, um péssimo policial — ao menos é o que se conclui ao ver a lista de transgressões acumuladas durante sua passagem pela corporação. Em cerca de cinco anos, o ex-soldado recebeu 60 sanções disciplinares, 14 repreensões e duas advertências, uma lista que, segundo um boletim ao qual Intercept teve acesso, deixava "cristalina a sua inadequação ao serviço na Polícia Militar".

Silveira ficou conhecido como uma espécie de policial youtuber que levava o celular e usava a viatura para registrar suas ações e se promover nas redes, mesmo colocando os colegas em risco.

Um sargento ouvido pelo repórter Sérgio Ramalho relatou que ele agia mais como um BBB do que como policial e falava abertamente em usar a PM como trampolim para a carreira política.

Em fevereiro de 2018, a Corregedoria da PM decidiu recolher a arma do futuro deputado, que passou a acumular faltas e licenças médicas e ficou 90 dias sem trabalhar.

Silveira foi oficialmente excluído da PM em outubro de 2018. No mesmo mês, em um ato de campanha, ele e outro candidato rasgaram uma placa em homenagem a Marielle Franco, vereadora assassinada a tiros no Rio. A imagem viralizou, Daniel Silveira foi eleito e o resto é história.

Na Câmara, Silveira seguiu rasgando placas e normas de convívio até que o STF resolveu brecar suas ameaças, antes que sua sede amanhecesse em chamas. Ele foi preso, denunciado e condenado, mas talvez escape da pena graças ao indulto oferecido pelo ex-capitão.

Por muito menos, Bolsonaro já deixou feridos na estrada outros aliados mais relevantes.

A solidariedade que faltou a tantos e tão antigos apoiadores pode ser explicada por um misto de identificação e fascínio. Silveira, espécie de versão real do personagem Johnny Bravo, figura recorrente nos discursos do presidente, é hoje o que Bolsonaro representava até pouco tempo.

Provavelmente o ex-militar indisciplinado do Exército, onde era conhecido como Cavalão, olha para o ex-militar indisciplinado da PM e se reconhece em sua juventude e inteligência.

Essa amizade bonita e sincera pode custar a maior crise institucional do país desde o fim da ditadura.

Mas, com eles ao lado, quem sabe a crise de imagem de quem não quer responder pelas atrocidades do passado não esteja agora superada?