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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Explicar gravidade da tortura em 2022 escancara nosso atraso civilizatório

Manifestação durante a ditadura militar - Kaoru/CPDoc
Manifestação durante a ditadura militar Imagem: Kaoru/CPDoc
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

20/04/2022 04h01

Uma marca da geração que nasceu pouco antes ou pouco depois do fim da ditadura foi acreditar que a democracia era uma conquista consolidada. Mais ou menos como um turista no Rio de Janeiro que olha para cima e sabe que a estátua do Cristo Redentor estará lá, a salvo, onipresente.

Essa crença fez com que muitos pegassem no sono tranquilo nas três últimas décadas de avanços e solavancos. Outros se deram ao luxo de fechar os olhos e fingir que não viam que direitos básicos eram ainda utopia em boa parte do território nacional, sobretudo as áreas periféricas, onde corpos desapareciam e crianças eram julgadas, condenadas e executadas em segundos.

O que parecia um caminho sem volta, na verdade, era um movimento pendular — um movimento que nem mesmo quem se levantou contra a ditadura no seu auge a certa altura parecia notar.

Um exemplo? Em 2011, em entrevista a CartaCapital, Dilma Rousseff foi questionada sobre como avaliava a gritaria de setores militares após a nomeação, em agosto daquele ano, do ex-chanceler Celso Amorim para o Ministério da Defesa.

"Eu não me preocupo com ele porque eu acho irrelevante", disse a presidenta.

Ela justificou a despreocupação dizendo que não estávamos mais no tempo das "vivandeiras" — como eram chamadas as mulheres que levavam roupa e comida para tropas em marcha, uma referência em tom de deboche aos saudosos do período militar.

Dilma avaliou que a gritaria vinha de setores "absolutamente minoritários" das Forças Armadas. "É absolutamente irrelevante, porque faz parte do passado, de uma visão atrasada da história. (...) As Forças Armadas de hoje são aquelas de 30 anos atrás? Não são, porque o Brasil mudou e mudou para muito melhor."

Dez anos depois, o comandante em chefe das Forças Armadas é um ex-deputado que, durante a sessão de impeachment que a tirou da Presidência, fez loas ao seu torturador, Carlos Alberto Brilhante Ustra. A preocupação já não eram as vivandeiras, mas como conter o impulso destrutivo de um presidente que sabotou todos os esforços de contenção de um vírus mortal.

Quando Jair Bolsonaro deixou de ser uma piada e se tornou protagonista das eleições de 2018, parte dos seus eleitores, mesmo os que o escolhiam por suposta falta de opção (a tal escolha muito difícil), respondiam que os absurdos proferidos em seus tempos de parlamentar eram coisa do passado, não representavam seu pensamento atualizado e/ou não saíram do fundo de seu bom coração e, portanto, não mereciam condenação, nem jurídica nem moral, muito menos eleitoral. Era tudo no máximo uma brincadeirinha, um jeito de chamar atenção.

Um desses fãs disse para este colunista dormir despreocupado porque o futuro governo perseguiria apenas os detratores da lei, aqueles corpos destituídos de alma e direitos que mereciam apenas o direito à bala.

Quem fosse cidadão de bem poderia acordar, levantar e trabalhar tranquilamente — mesmo que não tivesse simpatia pelo governante, afinal somos todos uma mesma nação, sob a mesma égide do mesmo Deus acima de tudo.

Muitos dos que minimizaram esses riscos, desiludidos com o tapete estendido a notáveis detratores da lei para dentro do Palácio do Planalto, perceberam, talvez tardiamente, que se tornaram vítimas dos dentes que ajudaram a afiar.

Na última semana, a jornalista Miriam Leitão publicou em sua coluna no jornal O Globo trechos de sessões do Superior Tribunal Militar que descrevem a existência da tortura nos porões da ditadura. Os áudios descrevem confissões de marteladas e até abortos provocados por choque.

Questionado sobre o assunto, o vice-presidente Hamilton Mourão gargalhou, disse que os executores estavam todos mortos, não poderiam responder por seus atos e que estes faziam parte apenas do passado. como se o passado não modulasse, aqui e agora, nossos modos de agir, pensar, comunicar.

Mourão é a expressão mais (des)atualizada do brasileiro médio que fez vista grossa aos horrores porque "faziam parte do passado". Talvez um dia compreendam que as notas em defesa dos golpes que rasgaram a Constituição não são saudosismo, mas ameaça — como bem resumiu Miriam Leitão em artigo revidado pelo filho do presidente com um deboche em relação aos tempos em que ela foi presa e torturada quando estava grávida.

Em um dos áudios agora revelados, os ministros da Corte militar admitem que não havia bases legais para cassar o deputado Márcio Moreira Alves. Ele ainda assim foi cassado porque simplesmente incomodava o regime.

Outros, como Rubens Paiva, simplesmente desapareceram.

A lição é um roteiro pronto dos livros de História. O "terrorista" de hoje pode ser a voz abafada de quem denuncia a compra de kits de robótica com sobrepreço amanhã.

Em seu primeiro governo, apesar das investidas constantes, os sistemas de freios e contrapesos impediram, ao menos em parte, que Bolsonaro levasse a cabo suas obsessões, entre elas a de levar opositores para a "ponta da praia" (local onde eram desovados os corpos de opositores na ditadura) e de transformar a Amazônia num grande estacionamento de loja de metais preciosos.

Com mais quatro anos de mandato, a manutenção de um procurador-geral subserviente e outras duas indicações para o Supremo Tribunal Federal, esses freios estarão desgastados o suficiente para não brecar seus planos.

Mas o que passou, passou, não é mesmo? Quem vai se lembrar da devastação florestal ou dos 630 mil mortos pela covid-19 quando temos mais com que nos preocupar além de carregar "um saco de mortos nas costas" (feat. Regina Duarte)?

Na fala de Mourão e outros fãs da ditadura, quase todos bem empregados ou representados pelo atual governo, entra em campo a "estranha fragilidade no embuste" descrita por Elio Gaspari no livro "A ditadura escancarada": negar sem investigar ou condenar com todas as palavras.

"A negação da tortura pela retórica do regime catapulta a 'tigrada' da condição de infratora à de intocável. Quando ela mostra que pode fazer algo que o governo nega e condena, não se pode mais saber por onde passa a linha que separa o que lhe é permitido daquilo que lhe é proibido. O porão ganha o privilégio de uma legitimidade excepcional. A mentira oficial é o reverso da covardia da tortura", escreve o autor.

Ao comentar o material recém-relevado, a ministra Elizabeth Rocha, do STM, disse à imprensa que a divulgação dos áudios é importante para que "erros cometidos não se repitam" na História do Brasil.

Falta combinar com Mourão e companhia. Essa História também é torturada toda vez que alguém tenta negá-la ou reescrevê-la.

Explicar para alguém, a essa altura, a gravidade do que está sendo revelado é sintomático do atraso civilizatório que pensávamos ter superado.