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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Filme analisa por que o Brasil passou a detestar e censurar seus artistas

Cena da peça "Caranguejo Overdrive", um dos exemplos de trabalho cerceados por abordar questões políticas no país - Ligia Jardim/Divulgação
Cena da peça "Caranguejo Overdrive", um dos exemplos de trabalho cerceados por abordar questões políticas no país Imagem: Ligia Jardim/Divulgação
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

10/04/2022 04h01

Uma juíza do Rio de Janeiro determinou a suspensão da censura promovida pelo governo federal ao filme "Como se Tornar o Pior Aluno da Escola". Protagonizado por Danilo Gentili, o longa havia sido atacado por grupos bolsonaristas, em março, após entrar no catálogo da Netflix. Os detratores acusavam o filme, que foi lançado em 2017 e era baseado em um livro do humorista, de fazer apologia à pedofilia por causa de uma cena.

Em meio ao barulho, o Ministério da Justiça e Segurança Pública determinou a suspensão da exibição do longa nas plataformas de streaming, que reagiram e se negaram a obedecer a determinação.

A decisão está longe de colocar um ponto final às rodas de censura — que não começaram a se movimentar no mês passado. Entender como a situação chegou até onde chegou exige voltar algumas quadras no tempo — a uma época em que artistas sem as costas largas das grandes plataformas digitais e seus departamentos jurídicos eram jogados nas masmorras construídas pela argamassa da extrema-direita.

A exibição do filme "Quem tem medo?", em cartaz neste fim de semana pelo festival "É Tudo Verdade", é uma oportunidade rara de reconstituir o que um dos entrevistados, o dramaturgo Pedro Kosovski, do grupo Aquela Cia. de Teatro, chama de adensamento dos eventos históricos e políticos, que agem como uma espécie de "chumbo" sobre os artistas.

Dirigido por Ricardo Alves Jr., Dellani Lima e Henrique Zanoni, o documentário narra a ascensão da extrema-direita no Brasil a partir de depoimentos de artistas que tiveram seus trabalhos censurados e/ou atacados de diversas formas nos últimos cinco anos.

Kosovski, por exemplo, viu sua peça "Caranguejo Overdrive" ser excluída, em 2019, da mostra "CCBB - 30 anos de Cias", sem qualquer explicação. O Centro Cultural Banco do Brasil, hoje processado em razão do episódio pelo Ministério Público, disse na época que a produção continha manifestações "político-partidárias" que não condiziam com os critérios definidos em edital.

Para o dramaturgo, esse tipo de coação tem sido elaborado há anos e acompanha o "esfacelamento da democracia que a gente nem chegou a viver plenamente".

Essa violência nem sempre se resume à retirada das peças de cartaz, o que resulta em prejuízo a toda a cadeia de trabalhadores envolvidos num espetáculo, das coxias ao palco.

Resulta também da retirada dos próprios artistas de cena — não sem traumas.

A tentativa de silenciamento de José Neto Barbosa, protagonista de "A Mulher Monstro", veio em forma de uma pedra arremessada pela plateia. Voltar aos palcos após o episódio, para ele, era revisitar uma série de gatilhos que transformaram a experiência artística em abalo.

No caso da atriz trans Renata Carvalho, a censura aconteceu por meio de denúncias, ataques, violações, ameaças de morte, de espancamento e promessas de arrancar sua roupa em praça pública. Os ataques tinham o endosso de políticos como o pastor e deputado Sargento Isidório (Avante-BA), liderança que se classifica como "ex-homossexual" e que hoje está engajado em mostrar que a "cura gay" existe.

O pecado de Renata foi ter atuado em uma peça que questionava: e se Jesus voltasse para a Terra como travesti? "Desde a estreia sou ameaçada diariamente", diz a artista, segundo quem "é fácil deslegitimar um corpo travesti". "Esse ódio que os artistas estão sentindo nós sentimos a vida inteira. É quase um estatuto", resume.

O filme intercala depoimentos dos artistas com imagens de ataques recentes, como o sofrido pela filósofa norte-americana Judith Butler, xingada ao desembarcar no aeroporto de Congonhas em 2017, e o atentado à sede da produtora do grupo de humor Porta dos Fundos, no Rio, em dezembro de 2019.

Além das falas de quem sentiu na pele as agressões, o documentário conseguiu reunir uma lista de obras que passaram por algum tipo de censura nos anos recentes, entre elas o filme "Transversais", alvo de ataques de Jair Bolsonaro em uma live, e a música "O real resiste", de Arnaldo Antunes, que fala sobre milícias e que teve seu clipe censurado pela TV Brasil.

Para quem assiste ao filme, é tentador buscar ao fim da sessão as notícias sobre o que aconteceu, durante ou depois das filmagens, com alguns dos grupos e personalidades políticas que ajudaram a acender fogueiras contra a classe artística em defesa da família. Spoiler: os representantes do movimento que tentava censurar exposições no passado hoje enfrentam processos de cassação por supostamente gravar vídeos de sexo com menores de 18 anos ou concluir, após uma visita à Ucrânia, que as mulheres vítimas da guerra eram fáceis porque eram pobres; um ex-senador é hoje processado por falsa acusação de pedofilia contra um homem preso injustamente; um deputado que faz troça da ideia de direitos humanos, defende o espancamento de um dos entrevistados e que precisou pagar R$ 20 mil a um porteiro agredido por ele por causa de uma pizza; um ex-secretário de Cultura demitido após copiar um discurso nazista em rede nacional.

Todo falso moralismo, afinal, tem um fundo de perversidade a ser revelado.

À luz de cada episódio, a gênese dessa violência pode ser compreendida pelo depoimento de Wagner Schwartz, um dos artistas cancelados pela leitura "exageradamente distorcida", segundo ele, de uma apresentação sem conotação erótica feita por uma sociedade que ele classifica como "exageradamente distorcida".

"Essas pessoas têm medo de si mesmas. Elas têm medo de ter medo. E elas atacam o que elas não reconhecem como linguagem. Como nosso governo apoia a violência, as pessoas perderam o medo de violentar. E essa violência vem com mais força. E convence muita gente."

O desprezo à classe artística, recentemente manifestado pelo veto à Lei Paulo Gustavo, está no cerne dessa sociedade que quer desovar seus instintos mais primitivos sem se confrontar com o espelho apresentado a elas pelo teatro, a música, as artes visuais, o cinema. Enquanto houver espelho, haverá resistência.

As sessões de "Quem tem medo?" acontecem domingo (10) no Rio e em SP e na plataforma É Tudo Verdade Play.