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OPINIÃO

Quem 'matou' João Doria? O PSDB ou a máquina bolsonarista?

Doria vinha mantendo cerca de 2% das intenções de voto nas pesquisas de opinião Imagem: Reuters
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Matheus Pichonelli

Colunista do UOL

25/05/2022 04h01

Em uma pequena cidade do interior paulista, o dono da floricultura, que provavelmente nunca foi ao Twitter atacar o globalismo, os direitos de minorias ou defender a volta da ditadura, estendeu um cartaz à entrada do estabelecimento com uma bandeira do Brasil e a mensagem de que todo trabalho honesto é essencial. O Brasil vivia o auge da pandemia.

No Facebook, um amigo de longa data, tão empolgado por política quanto eu sou por críquete, revoltou-se ao saber que seu restaurante só poderia abrir para entrega. Em caixa alta, ele alertou os seguidores para a "histeria" em torno da covid-19 e apostava que o vírus não seria tão letal quanto a fome.

Na mesma rede social, um antigo vizinho, dono de uma academia — e igualmente desinteressado por querelas políticas até então — se converteu num militante aguerrido, vestido de verde e amarelo, contra o que classificava como "farsa da pandemia".

No grupo de WhatsApp, o parente distante conclamou os familiares a irem até a casa do governador de São Paulo manifestar o repúdio contra as normas da fase vermelha do estado. O alvo da manifestação estampava o adesivo na traseira de seu automóvel com as palavras "fora ditador".

Antes de ser fuzilado pelo seu partido, o PSDB, João Doria já havia sido limado pelos eleitores. Nas pesquisas de intenção de voto, o ex-governador que aparecia diariamente de máscara na TV para anunciar medidas de combate à pandemia nunca demonstrou desempenho suficiente para convencer os pares de que era o cara certo para desafiar os favoritos da corrida presidencial. Juntos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) têm hoje quase 70% das preferências, o que confere uma margem estreita, estreitíssima, para terceiras, quartas ou quintas vias em disputa.

Da cartela de presidenciáveis, Doria, desde que venceu as prévias de seu partido, era o único pré-candidato que estava do lado de lá do balcão para onde Bolsonaro e aliados arremessaram pedras, cascas de banana e entulho de construção durante toda a pandemia.

Os demais acompanharam a crise à distância, inclusive o próprio presidente da República.

Bolsonaro, desde o primeiro momento, negou-se a encarar a pandemia com a seriedade que o desafio histórico exigia. Chamou as medidas para evitar a circulação do vírus de "histeria", apostou que ela mataria menos do que uma gripe comum e fez cosplay de médico diplomado em Facebook ao vender ao público um kit de medicamentos sem qualquer eficácia.

Como criança que não quer tomar banho ou estudar, ele esperneou contra as medidas impopulares de distanciamento social. Preferia se divertir promovendo aglomerações e a suposta imunidade de rebanho com motociatas, passeios de cavalo, jet-ski e participação especial em atos antidemocráticos que pediam a degola de ministros do STF, parlamentares, governadores, prefeitos e todos os agentes públicos ou privados engajados em impedir a carnificina.

A estratégia era solapar na base qualquer esforço para adoção de um discurso único, segundo o qual as medidas restritivas eram necessárias, mas temporárias, e, embora duras, evitariam tanto o caos sanitário quanto o financeiro a longo prazo. O saldo da sabotagem palaciana é de 665 mil mortos e uma crise econômica permanente.

Apesar do tranco, Bolsonaro conseguiu conter a erosão em sua popularidade à medida que seu entorno o convencia a parar de espalhar bobagens sobre vacinação, "kit covid" e a ampliar o alcance do auxílio emergencial e do corte de impostos.

Não fosse a "vacina do Doria", era capaz de Eduardo Pazuello estar até agora no comando do Ministério da Saúde perguntando para que a pressa na aquisição de imunizantes em um país onde 4 mil pessoas morriam asfixiadas pelo vírus diariamente.

A pressão, exposta em carta aberta e nada paciente de megaempresários, levou o governo federal a arregaçar as mangas e iniciar um amplo programa de vacinação. Nos postos de saúde, porém, muitos preferiam voltar ao fim da fila a receber no braço a "vacina chinesa comprada pelo Doria" — sinal de que a contrapropaganda bolsonarista funcionou e ainda funciona.

Em abril deste ano, 46% dos eleitores reprovavam a gestão de Bolsonaro à frente da pandemia. Mas, entre os 53% que a avaliavam como regular, boa ou ótima certamente estava parte dos pequenos comerciantes que se sentiam desamparados com as medidas severas que precisaram ser tomadas por governadores e prefeitos para evitar o colapso de seus hospitais. Bolsonaro ofereceu colo, discurso, e fidelizou seus eleitores ali.

Num dia esse grupo fazia das tripas coração para manter seus negócios de pé; no outro, por um golpe semântico, eram jogados à vala comum dos trabalhadores não essenciais.

Bolsonaro e equipe sentiram o cheiro de sangue na água e correram para o regabofe. Foi o que fez Flávio Bolsonaro, por exemplo, ao saber que Doria havia desistido da pré-candidatura ao Panalto. O senador postou em suas redes que "a conta do autoritarismo é a impopularidade". "Só lamento dele não ter desistido, na época, de mandar soldar e fechar portas de comércios e de prender pessoas que estavam na rua buscando seu sustento e de suas famílias."

A "análise", replicada também por bolsonaristas de primeira hora, como Luciano Hang, tem a profundidade de um pires, mas mostra que o oportunismo político não dorme no ponto. Na narrativa bolsonarista, a deterioração da economia é culpa de gestores como Doria, não do vírus que obrigou autoridades do mundo inteiro — ao menos os que levaram a conversa a sério — a tomarem medidas semelhantes.

Há, claro, muitos outros fatores que explicam a queda de João Doria às vésperas da eleição. Um deles é a pressa de quem acelerou para tomar atalhos em direção a Brasília e desagradou quem votou nele para cumprir seu mandato até o fim. Outro é a guerra fratricida dentro do próprio PSDB, que se perde e perde relevância a cada nova eleição.

Doria deixou o governo de São Paulo com 36% de reprovação e 23% de apoio, segundo o Datafolha. A saúde era apontada por 24% dos eleitores como o principal problema do estado e 74% diziam que o governador fez menos por São Paulo do que eles esperavam. O arranque da largada estava comprometido. Tanto que, na corrida presidencial, 30% dos eleitores afirmavam, em outro levantamento do instituto, que não votariam no pré-candidato tucano "de jeito nenhum".

Entre méritos e deméritos próprios, Doria era representante, nessa corrida presidencial, de uma classe política que agora vê a fatura das medidas de restrição adotadas na pandemia — a turma do "fique em casa e a economia a gente vê depois", como diz em tom de deboche o grupo de Bolsonaro.

Essa birra, como se vê, foi explorada à exaustão por quem viu na crise uma oportunidade e botou sua máquina de ódio para funcionar.

Em novembro de 2020, Bolsonaro chegou a comemorar, em suas redes, a suspensão dos testes da Coronavac devido à morte de um voluntário dos testes. O homem havia se suicidado.

"Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Doria queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha", escreveu o presidente.

O presidente-urubu agora celebra a saída do adversário da pista, um dos muitos sinais de que a disputa pode ser resolvida já no primeiro turno. Só que nessa reta não é ele quem está em vantagem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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