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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Num país esfomeado, não é ministro do STF que não vai à padoca. É o povo

Pão com manteiga e café em uma padaria do Grajaú, zona sul de São Paulo - Keiny Andrade/UOL
Pão com manteiga e café em uma padaria do Grajaú, zona sul de São Paulo Imagem: Keiny Andrade/UOL
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

12/06/2022 04h01

Jair Bolsonaro declarou, em um almoço com empresários na Associação Comercial do Rio de Janeiro, que nunca viu um ministro do Supremo Tribunal Federal comprando pão na padaria.

Sua pesquisa de campo, ao que parece, visava provar que sobrava um pouco de tudo às carapuças de Alexandre de Moraes e companhia, menos "conhecimento da realidade do povo".

Desconfio que o presidente não frequenta a padaria já faz algum tempo.

Se frequentasse, poderia dizer que ninguém mais se dá ao luxo de acordar cedo para ler as notícias entre um pingado e um pão com manteiga pela manhã. A menção ao luxo aqui não é força de expressão.

Eu mesmo não piso numa padaria desde que interrompi uma pauta para repor as calorias e descobri que uma empada de palmito já é vendida a céu aberto, e sem pedido de resgate, a R$ 14. O valor supera os R$ 13,86 com que sobrevivem por dia um contingente de 106 milhões de brasileiros.

Por esse preço, a iguaria deveria vir amarrada num combo com café, batata frita e aguinha com gás. Que nada. Ali não havia indícios de que a receita substituísse a farinha, em falta devido à guerra, por ouro em pó.

O acinte me fez fechar o cardápio e pedir só um café para mim e para o fotógrafo (repare que nada de bom acontece nos minutos seguintes em que se pronuncia "vamos lá, deixa que eu pago, hoje é por minha conta"). Pois paguei a contragosto os mesmos R$ 14 por dois cafés expressos. Sem aguinha ou covert artístico incluídos na conta àquela hora da manhã.

Houve um tempo em que, para auferir o grau de conexão com a realidade de qualquer pessoa, era preciso olhar a quilometragem das solas de sapato e da barra das calças gastas em boteco, arquibancada e padaria.

Em 2022, as três instituições andam inviáveis para quem não anda com cartão corporativo no bolso.

A primeira instituição voltou aos tempos da pindureta. Lá é possível antever o dia em que, entre poetas de rua e vendedores informais de lápis e flores, os clientes serão abordados na calçada por agiotas dispostos a oferecer capital de giro a quem não tem bala para bancar três ou mais rodadas de chope sem flertar com a falência.

Já nas arquibancadas encontro hoje, pela TV, um pouco de tudo, menos o povo.

Da última vez que meu filho pediu para ver nosso time em campo, abrimos uma dura negociação. Ou iríamos ao jogo ou ele teria festa de aniversário. Os dois, não dava. Melhor ficar em casa.

Restaram, de fato, as padarias. Até pouco tempo havia ao menos quatro perto de onde eu moro. Só restou uma. E a fila de carros importados em seu estacionamento entre as 7h e 11h de uma manhã de domingo é o maior aviso de que ali o povo já não pisa.

Um amigo conta que sua mãe nunca se esqueceu do dia em que o marido guardou o VR da firma para levar a mãe a uma padaria para celebrar algum aniversário de casamento. O ranço da decepção habitou a relação entre eles durante anos. Não teve dia em que ela não pensou em botar veneno no café que passou a coar em casa. Eram outros tempos.

Hoje não tem ostentação maior do que pedir a mão de alguém com uma peça luxuosa de mortadela pendurada entre a chapa e o balcão de padaria. O chapeiro virou fotógrafo oficial do ambiente instagramável.

Das promessas feitas pelo atual presidente ao assumir, nenhuma vingou tanto quanto a ameaça de fazer o Brasil voltar a ser o que era há 30 ou 40 anos.

Uma ideia aventada (aparentemente) a sério era retornar ao tempo do escambo. Sabe aquele adereço no papel com cifras e números chamado dinheiro? Esquece. O plano do governo agora é fazer escambo e trocar comida por gasolina. Daqui a pouco vão oferecer espelho por pedaço de terra. Voltamos a 1500.

Na semana que passou, Bolsonaro e seu ministro da Economia fizeram um apelo ao patriotismo dos donos de supermercado ao sugerirem, se não fosse assim muito incômodo, que eles embolsassem o menor lucro possível de suas vendas de cesta básica.

Garantiram que o esforço de guerra seria por pouco tempo. Coisa de dois ou três meses. Só até passar a eleição. Depois poderiam ficar à vontade para retirar do dique os seus gravetos.

O povo que não frequenta padaria, mas ainda tem memória, desconfia que esse plano de combate à inflação não é novo e já não funcionou há 30 ou 40 anos.

Na dúvida, o pai do meu amigo, o que frequentava padaria até nas ocasiões mais especiais, já botou ao sol, para desbaratar o cheiro da naftalina, seu distintivo de Fiscal do Sarney. Os donos de supermercado e também das padocas que o aguardem.

A volta ao passado parece inevitável ao país que normalizou uma liderança política que literalmente mede o pulso de sua popularidade na padaria. E que discursa sobre suas chances nas eleições como quem arrota em mesa de boteco.

Nesse mesmo país existem mais de 33 milhões de compatriotas, nada invisíveis, com fome, embora o primogênito da família presidencial, do alto de sua mansão de R$ 6 milhões na área nobre de Brasília, garanta que ninguém passa fome com R$ 400 do Auxílio Brasil.

Se essa multidão saiu da vista é porque alguém perdeu de vez a noção de "conhecimento da realidade do povo".

Quem passa fome não está na fila do pão.