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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mistério em Ratanabá: existe vida inteligente no planeta de Mario Frias?

Mario Frias recebeu na Secretaria de Cultura empresa que divulgou teoria falsa sobre cidade - Reprodução/ Twitter @Mariofrias
Mario Frias recebeu na Secretaria de Cultura empresa que divulgou teoria falsa sobre cidade Imagem: Reprodução/ Twitter @Mariofrias
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

16/06/2022 04h01

Em agosto de 2020, enquanto salas de teatro, de cinema e pavilhões de exposição seguiam fechados por conta da pandemia, o então secretário de Cultura Mario Frias recebeu em seu gabinete o presidente da Associação Dakila de Pesquisas, Urandir Fernandes de Oliveira.

O encontro, ao que tudo indica, foi profícuo.

Na ocasião, segundo escreveu o ex-ator de "Malhação" em suas redes, Urandir apresentou ao anfitrião um resumo dos estudos iniciados por sua associação desde 1992, ano em que uma cidade perdida batizada de Ratanabá teria sido encontrada na Amazônia brasileira.

Frias observou com atenção as fotos de artefatos "bem elaborados de metal e de cerâmica" que teriam sido encontrados em galerias subterrâneas no Real Forte Príncipe da Beira, em Costa Marques (RO). E ficou impressionado quando a entidade divulgou, na semana passada, imagens dos ditos vestígios dessa primeira civilização gravadas em Apiacás (MT).

Os municípios estão separados por 1.224 km. Ou 20 horas de carro pela BR-174. Mas os habitantes de Ratanabá não estavam para brincadeira.

Segundo o ex-secretário, os ratanabienses não eram primitivos como os atuais herdeiros das terras indígenas hoje cortadas e ameaçadas por pescadores, madeireiros e garimpeiros. Pelo contrário. Teriam tecnologias ainda mais avançadas que as nossas. Entre uma linha reta em Rondônia e o coração da cidade no Mato Grosso "certamente" eram capazes de se transportar e levar de um lado para o outro seus artefatos de cerâmica por meio de carros voadores. (Chupa, Musk).

Mario Frias parece animado e agora aguarda ansioso pelas imagens capazes de provar que Ratanabá não foi um sonho, e sim a capital do mundo há 450 milhões de anos.

No post, o ex-ator fez questão de frisar que esses estudos, que poderiam indicar a maior descoberta dos últimos tempos, contaram com apoio do Exército, das Forças Aéreas, da Defesa Civil, do Ministério da Defesa e até do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) — e ainda assim "não HOUVERAM [sic] aportes financeiros do governo federal", apenas da entidade presidida por Urandir.

Tão difícil como entender como espécies humanas conseguiram construir uma cidade no coração da floresta cerca de 444 milhões de anos antes de nosso primeiro ancestral nascer é explicar como tal estrutura do Estado pôde ser mobilizada sem usar recursos do... Estado. Talvez os servidores estivessem em dia de folga e levaram equipamentos do próprio bolso. Talvez.

Para quem acredita que nossos ancestrais ergueram uma cidade maior do que São Paulo antes mesmo de surgirem os primeiros dinossauros, nada parece inverossímil. Basta a fé.

A sorte de Urandir é que os objetos recolhidos na expedição não foram encontrados no terreno de nenhum amigo de Jair Bolsonaro.

Em dezembro do ano passado, o presidente se enfureceu ao saber que o Iphan havia interditado as obras de uma nova loja do parceiro Luciano Hang após um pedaço de azulejo surgir em meio às escavações. Quando soube de tamanha mesquinharia, "ripou" todo mundo do órgão.

Mas os deuses de Ratanabá escrevem certo por linhas certas e mapeadas. Se o empresário quisesse expandir sua rede por lá, hoje teríamos uma Estátua da Liberdade fake em cima da maior descoberta de todos os tempos.

Não se sabe exatamente o que Frias queria ao contar para todo mundo que sabia falar ratabanês. Talvez um pouco de atenção e engajamento para sua campanha por uma vaga na Câmara dos Deputados. Talvez lançar de fato uma cortina de fumaça sobre uma descoberta de fato prioritária na região: a do paradeiro do indigenista Bruno Pereira e do repórter britânico Dom Phillips.

Até o momento Frias mostrou apenas que não sabe fazer conta — maldosos dirão que um exame psicotécnico, em outros tempos, o impedisse de assumir qualquer secretaria de Cultura de qualquer país, mas aí é por conta das más línguas.

Antes de passar vergonha nas redes, Frias faria bem em jogar o nome dos envolvidos no Google. Ou perder cinco minutos na vida para saber o que cientistas de fato têm a dizer sobre povoamento da Amazônia e a evolução das espécies. Isso, sim, seria um delírio, já que a turma da arminha tem aversão a livros, professores, universidades e entidades de pesquisas ligadas à academia.

A história toda leva a uma única conclusão até aqui: o ex-secretário de Cultura perdeu uma chance e tanto para ouvir as sábias palavras do ET Bilú, outra "descoberta" na conta de Urandir, seu visitante ilustre — "busquem conhecimento".

No futuro, se por acaso alguém se animar a montar uma expedição até a antiga capital do mundo, seria interessante fazer uma parada na capital da República e analisar os vestígios e utensílios de outra civilização.

O desafio é descobrir se havia vida inteligente no governo durante a era Bolsonaro.