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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Papo de Bolsonaro sobre urnas deixou país refém de um 'Dia da Marmota'

Live de Bolsonaro não mostrou provas de fraude nas urnas eletrônicas - Reprodução
Live de Bolsonaro não mostrou provas de fraude nas urnas eletrônicas Imagem: Reprodução
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

15/06/2022 04h01

A essa altura do campeonato ninguém pode desdenhar dos perigos embutidos nos ataques diários e cada vez mais virulentos de Jair Bolsonaro contra o Tribunal Superior Eleitoral, seus ministros e as urnas eletrônicas.

Quem acompanha os trabalhos da comissão independente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos que investiga o ataque ao Capitólio, ocorrido em janeiro do ano passado, pode observar por aqui os ecos da paranoia repetida e difundida, como água mole em pedra dura, nas cabecinhas vagas e alugadas de tempos em tempos para as oficinas do diabo.

É como se os depoentes da comissão voltassem do futuro com um recado aos brasileiros: nós somos vocês amanhã.

Até hoje não se sabe se Donald Trump, ídolo e farol dos pastiches da direita populista instalados por aqui, acreditava mesmo em seu vaticínio de que as urnas estavam fraudadas antes mesmo de eleger Joe Biden.

Em caso afirmativo, ele estava completamente desconectado da realidade, conforme definiu em seu depoimento o ex-secretário da Justiça William Barr.

"Quando eu ia lá e dizia como essas alegações eram loucas, nunca houve interesse no que os fatos realmente eram", disse o ex-subordinado de Trump.

Em uma das sessões do colegiado, deputados disseram que os apoiadores do republicano sabiam que a conspiração não tinha qualquer embasamento, mas mesmo assim seguiam espalhando "A Grande Mentira" para virar votos na marra a favor de Trump — como se o outro lado, aquele mancomunado com o "sistema" para levar na mão grande, fosse a representação de todos os medos dos eleitores. Tem coisa mais feia, afinal, do que roubar votos de alguém em uma democracia que se acredita consolidada?

Nos EUA, os estrategistas da campanha tinham até um apelido para as alas em disputa no entorno de Trump. Tinha a equipe "normal" e a equipe "louca".

Em algum momento a má-fé e a paranoia se encontraram na esquina e quando vimos havia até cover de soldado Viking, mais tarde conhecido como "Xamã Qanon", disposto a sitiar o Congresso e matar ou morrer por seu mito.

Não tem nada na tragédia ali que não encontre paralelos por aqui. Nem a estética nem os Vikings. Com a infeliz diferença de que, em Brasília, as Forças Armadas e de segurança talvez não atuem como barreira de contenção entre os furiosos alimentados por teorias da conspiração e os responsáveis por empossar o próximo presidente; não há quem não desconfie que eles estarão junto à multidão armada e furiosa na derrubada do portão.

O golpe ensaiado por Bolsonaro está em curso. É perigoso, é autoritário, é capaz de levar um país inteiro à cisão e ao conflito generalizado. Mas é sobretudo maçante, cansativo, rombudo, enfadonho, enfastiante — há uma lista de sinônimos para não dizer simplesmente chato.

Não tivesse na caneta uma vara de condão capaz de destruir tudo aquilo que toca, Bolsonaro não seria mais do que um representante da turma de maníacos, obsessivos, compulsivos, paranoicos e hipocondríacos que espalham rodas de amigos em qualquer encontro social desde que o mundo é mundo.

Seu superfoco na suposta fraude eleitoral que não aconteceu demonstra uma certa dificuldade em processar mais de um assunto por vez, semana ou meses. Como aquele meme do rapaz transtornado no ônibus, no trabalho e na cama que só pensa a mesma coisa, Bolsonaro tem um tríplex em forma de urna eletrônica na cabeça e não faz questão de passar seus dias sozinhos com ele. Quer falar sobre isso o tempo todo. Quer converter quem estiver ao seu alcance. Em qualquer chance e ocasião — seja em almoço com comerciantes ou em encontros bilaterais com o presidente dos EUA. Toda hora é sempre o mesmo assunto. Como é chato.

Torcida e retorcida, a retórica bolsonarista em quase nada difere da insistência de velhos conhecidos que não podem ver um holofote em forma de atenção para desfilar ladainhas repetidas diariamente durante boa parte de suas passagens pela Terra.

Há quem passe seus dias contando, sem que lhes fosse solicitado, suas experiências de abdução com extraterrestres, visões relacionadas ao Apocalipse, sintomas corporais de doenças misteriosas e não identificadas pelos médicos, suspeitas de traição ou perseguição por rastreamento com chips e suas fórmulas mágicas com soluções simples para problemas complexos, a começar pelo esporte. Um velho conhecido jurava que bastava acabar com a regra do impedimento para o menino futebol voltar aos tempos áureos. Outro passou todos os dias da vida adulta repetindo que o Brasil só seria uma potência educacional no dia em que separasse meninos e meninas nas salas de aula. Morreu frustrado, perto dos 80 anos, sem conseguir converter ninguém.

Outro conhecido jurava que o trânsito em São Paulo só teria jeito no dia em que a prefeitura invertesse os fluxos de duas ruas paralelas da capital. Sonhava com o dia em que subiria de carro pela Cardeal Arcoverde e desceria pela Teodoro Sampaio.

Antes de Bolsonaro, Quincas Borba e sua obsessão pelo humanitismo, a "única verdade", eram a expressão mais exata do chato de galocha que tem uma ideia fixa na cabeça e não consegue mudar a tecla nunca.

Se alguém criasse uma plataforma digital para contabilizar quantos dias o presidente passou seu mandato sem torrar nossa paciência, nosso tempo e nossa energia com suspeitas infundadas sobre fraudes em eleições, os curiosos descobririam que estamos há zero dias sem acidentes de trabalho do tipo.

Possivelmente a única trégua aconteceu quando a cabeça presidencial foi ocupada pela obsessão com a cloroquina. As duas juntas talvez não coubessem ali. Pobre nióbio, que frequentou as obsessões bolsonaristas em seu tempo de deputado, mas aparentemente, e a exemplo de outros soldados largados na estrada, não cruzou a rampa presidencial.

O presidente de uma nota só é há quase três anos e meio um desafio a quem tem o dever de reportar suas paranoias na imprensa que ele tanto detesta. Nada menos do que 56% dos brasileiros não dão o menor crédito para o que ele diz.

Ainda assim, ele segue dizendo e nós seguimos reportando, como um grande "Dia da Marmota", do filme "O Feitiço do Tempo", em que o personagem acorda e se descobre preso ao dia anterior, e também no dia seguinte, e no outro, e no outro.

Em cada novo dia há um imenso alerta de passado, golpe e ruptura no ar que precisa ser refeito e repetido como denúncia no dia seguinte. E no outro. E no outro. Cansa, não cansa?