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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como salvar a Amazônia: legado de Bruno e Dom vai ecoar por muito tempo

Dom Phillips e Bruno Pereira  - Reprodução
Dom Phillips e Bruno Pereira Imagem: Reprodução
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

17/06/2022 04h01

Tem um trecho na caminhada, numa curva sinuosa lá na altura da vida adulta com a rota da velhice, em que a gente vai perdendo um tanto de coragem. E começa a morrer.

Nessa virada, até a fé mais incrustada começa a se esgarçar.

A gente lembra a fila dos meninos em alguma igreja aprendendo desde cedo que alguém morreu na cruz para salvar o mundo. A cerimônia cristã tem a morte no centro de sua arquitetura.

Os adultos explicavam: "Foi por amor que ele se entregou".

Cravos perfuraram mãos e pés. A coroa era de espinhos e na cruz tinha acrônimo, Inri, afixado como deboche.

A fé pode mover montanhas, mas não está imune a abalos. Como é que uma pessoa pode morrer para salvar alguém? Quem é que, quase 2.000 anos depois, está realmente salvo neste mundo? As vítimas dos campos de concentração não estavam. Os alvos da bomba atômica também não. Menos ainda os povos originários, aqui derrotados pela pólvora, pelo vírus e pela mentira, como definiu Eduardo Galeano.

A certa altura da vida ninguém quer ser herói. Nem morrer pela causa nem pela ausência dela.

O que a vida quer da gente é coragem, escreveu Guimarães Rosa, mas o que a gente quer da vida é mesmo estar vivo. É contar os filhos, ficar perto de quem se ama, andar em linha reta e chegar num fim de tarde ao fim da vida e poder contar histórias — de preferência, se sobrar um tantinho de saúde, com uma taça de vinho e uma boa música ao fundo.

Nessa curva prolongada refutamos tanto a morte quanto a ideia de que precisamos dela para nos salvar ou salvar alguém. E isso também se torna, aos poucos, uma espécie de dogma.

No começo do mês, o jornalista britânico Dom Phillips e o indigenista Bruno Pereira estavam prestes a encerrar uma viagem como tantas outras pela região do Vale do Javari, no Amazonas. Pensavam em escrever uma história, ainda com "h" minúsculo, sobre os impactos da atividade humana, criminosa, na floresta. Não voltaram para suas casas. Desapareceram enquanto o país celebrava o Dia Nacional da Liberdade de Imprensa.

Phillips havia sido selecionado para uma bolsa da Alicia Patterson Foundation para escrever um livro-reportagem de título sugestivo: "Como Salvar a Amazônia".

Se tivesse chegado ao destino em companhia do mais brilhante indigenista de sua geração — como o definem seus colegas de trabalho —, o livro seria um entre tantos nas livrarias que ainda restam no país.

Talvez despertasse a atenção aqui e ali entre os interessados, em diferentes medidas, na causa. Mas, muito provavelmente, a obra desapareceria aos poucos entre títulos de causas individuais mais urgentes sobre como ligar o foda-se ou ser foda nessa vida de metas de curto prazo.

Hoje "Como Salvar a Amazônia" é a história de uma vida. É também o livro mais aguardado em muito tempo. Urge que seu relato, iniciado em 2021 e provavelmente salvo em nuvens digitais, seja organizado, ainda que incompleto, e lance ao mundo uma mensagem de salvação.

Bruno Pereira e Dom Phillips estão mortos. E, sim, precisamos ser salvos. Por isso suas histórias não podem se encerrar ao fim de inquéritos e elucidação do caso.

As trilhas pela mata fechada e pelos seus rios perenes percorridos por Dom e Bruno podem e devem ser reconstituídas. Ideias, fragmentos, relatos, testemunhos. Quem era o repórter estrangeiro que se tornou brasileiro ao se encantar com a Amazônia? E quem era, afinal, o indigenista que se acalmava e acalmava os amigos indígenas ao cantar seus mantras em sua língua?

Que mensagem eles podem ainda ecoar, agora em toda potência?

Bruno e Dom precisaram morrer para que o sentido de urgência sobre a floresta e os povos que lá habitam fosse compreendido.

Zuenir Ventura, em um trecho do livro-reportagem "Crime e Castigo", sobre Chico Mendes, líder seringueiro que organizou e desenvolveu táticas pacíficas de resistência contra o avanço acelerado da devastação na Amazônia a partir dos anos 1970, parece fazer um prognóstico sobre os dias atuais:

"A morte anunciada, o choque provocado no mundo, o sentimento de culpa do próprio país, em especial do governo por não ter feito nada para impedir o crime, a tomada de consciência da sociedade para a questão ambiental: tudo isso acabou apressando conquistas, obrigando a se fazer depois de sua morte o que ele não conseguiu que fosse feito enquanto vivia".

Chico Mendes provocou a ira de latifundiários, madeireiros e pecuaristas ao denunciar o desmatamento até na ONU. Costumava dizer que morreria assassinado até 30 de dezembro de 1988. Morreu oito dias antes.

No documentário "Sementes", as diretoras Éthel Oliveira e Júlia Mariano contam como as respostas à execução da vereadora Marielle Franco se converteram, no ano de seu assassinato, no maior levante político conduzido por mulheres negras, entre elas as deputadas eleitas Talíria Petrone e Renata Souza. O título do filme não poderia ser mais adequado.

A mensagem contida no percurso tragicamente interrompido de Bruno e Dom ganha, a partir de agora, a potência que seus executores planejavam abafar. Lança luzes e as atenções para territórios, e consequentemente seus habitantes, condenados ao esquecimento. Hoje o mundo sabe onde fica o Vale do Javari. E lá reside um mundo inteiro.

Nossa trava de segurança, aquela na qual nos apegamos para sobreviver a certa altura da vida, não explica a dimensão dos mártires na formatação das ideias e das mudanças embutidas em sua luta em nosso tempo.

Na tradição cristã, que tem na cruz um símbolo do sacrifício em vida, não é o nascimento nem o dia da paixão a data mais importante de seu calendário, lembra sempre minha mãe, que é catequista. É a Páscoa. Dia da ressurreição.