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OPINIÃO

Com Hamilton x Piquet, Brasil zerou contagem de dias sem vexame no exterior

Lewis Hamilton respondeu um termo racista usado por Nelson Piquet: 'Fui cercado por essas atitudes e alvo delas a minha vida toda' Imagem: Reprodução/Banco JC
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Matheus Pichonelli

Colunista do UOL

30/06/2022 04h01

Se você perguntar a uma pessoa racista se ela é racista, a chance de ela negar jurando no dedinho é quase tão alta quanto a probabilidade de dizer que "até tem amigos negros" e trata os empregados de casa ou do escritório como "pessoas da família".

A afirmação de uma posição hierárquica escancara o que se evita observar na estrutura. A coisa engrossa quando empregado vira patrão e patrão vira empregado.

"Patrão" é a forma como Lewis Hamilton, o maior piloto de todos os tempos, é chamado pelos fãs.

No ano passado, quando foi ultrapassado pelo holandês Max Verstappen e perdeu a chance de faturar seu oitavo título na Fórmula 1, o também piloto Nelsinho Piquet correu até as redes sociais para celebrar a corrida com uma camisa dizendo "Patrão é meuzovo". Nelsinho é cunhado de Verstappen.

O título daquele ano estava em casa. Nelson Piquet, o patriarca, possui três títulos mundiais e é inegavelmente um dos maiores (e mais controversos) pilotos brasileiros da história.

Desde sua última conquista, em 1987, ele foi ultrapassado por Ayrton Senna (com três títulos também e quase o dobro de vitórias), Alain Prost, Sebastian Vettel, Michael Schumacher e Lewis Hamilton.

Ficar para trás nunca é fácil. Mas ser ultrapassado por quem sempre foi observado de cima para baixo é um teste de sanidade. É preciso muita habilidade para fazer a curva da decepção sem se estourar.

Prova disso é que, em uma entrevista recente, Piquet pai se referiu mais de uma vez ao heptacampeão britânico como "neguinho".

A expressão, usada no diminutivo e no contexto da conversa, servia claramente ao propósito de reduzir de forma paternalista uma pessoa pessoa negra como se ela fosse intelectualmente inferior, conforme explicou o advogado Thiago Amparo em entrevista à BBC News Brasil.

O trecho da entrevista se referia a um erro cometido pelo britânico em uma prova. Para Piquet, Hamilton agiu com "sacanagem" ao tentar uma ultrapassagem.

A redução servia como um pretexto para supostamente vingar, pela linguagem do menosprezo, o atrevimento de Hamilton — que não apenas se destacou em um esporte de brancos endinheirados, como fez todos os demais comerem poeira, inclusive Piquet.

Não deve ser fácil para os ovos do tricampeão e os de seu herdeiro ver alguém como Hamilton ostentar o título de "Patrão".

Ao saber que tinha sido chamado de "neguinho", Hamilton usou suas redes para responder como um lorde. Disse que a expressão usada contra ele era mais do que linguagem: era a manifestação de uma mentalidade arcaica que precisa mudar e que já não tem mais lugar no esporte.

"Fui cercado por essas atitudes e alvo delas a minha vida toda. Houve muito tempo para aprender. Chegou a hora da ação", escreveu o mais brasileiro dos pilotos estrangeiros.

O episódio levou até os chefões da Fórmula 1 a se manifestarem. Em comunicado, a página oficial da categoria no Twitter afirmou que "linguagem discriminatória ou racista é inaceitável" e lembrou o fato de Hamilton ser um "embaixador incrível para nosso esporte" e que ele merece respeito. "Seus esforços incansáveis para aumentar a diversidade e a inclusão são uma lição para muitos".

Pois é. Quem sentia falta de um vexame internacional do Brasil lá fora não sente mais, como bem lembrou o perfil-paródia Coronel Silveira no Twitter.

Diante da repercussão, Piquet correu para dizer em inglês que usou uma expressão comum em português para se referir a qualquer pessoa. Jurou que o termo foi apenas mal traduzido. Disse também que não tinha a intenção de ofender — um insulto, em si, para quem sabe a diferença semântica entre pronome próprio, no singular, e pronome comum, como bem lembrou o colunista Fábio Seixas.

Piquet, embaixador do bolsonarismo entre esportistas aposentados, parece ter caído bem ao figurino usado pelo ídolo por quem jurou estar junto até a morte.

Nelson Piquet e Jair Bolsonaro estão no mesmo barco. Aliás, no mesmo carro — um Rolls-Royce tirado da garagem no último dia 7 de Setembro para o ex-campeão fazer cosplay de chofer do presidente que gosta de calcular o peso de pessoas negras em arrobas.

A condução do presidente até um evento onde os arautos do atraso, historicamente incomodados em dividir espaço com grupos ascendentes, manifestavam seus delírios golpistas já seria um desfecho incompatível com qualquer pretendente a ídolo. Mas Piquet, ao chamar Hamilton de "neguinho", mostrou que não há nada que não possa piorar.

Hamilton, que voltaria às redes para o último sprint ao perguntar a um fã "quem é Nelson Piquet", fez bem em se pronunciar — como sempre o faz diante da causa antirracista.

Mas talvez tenha sido otimista demais ao afirmar que a mentalidade arcaica de Piquet e companhia não tem mais lugar no esporte. Infelizmente ainda tem, e tem muito, como provam os torcedores do Boca Juniors que imitaram macacos e fizeram gestos neoazistas na Arena Corinthians na última quarta-feira (28).

Casos do tipo ainda são comuns nos estádios, assim como proliferam manifestações de teor homofóbico em arquibancadas com eco na direção dos clubes e até no jornalismo esportivo.

Na última semana, o ex-volante Richarlyson, um dos casos mais notáveis de perseguição a um atleta para além do que é capaz de apresentar em campo, se declarou bissexual. Ouviu muitas manifestações de apoio, mas também muito deboche.

Entre os apoiadores, o maior destaque talvez seja uma ausência: o time pelo qual se sagrou campeão da Libertadores e do tri brasileiro.

Em campo, nas pistas ou nas quadras, o esporte ainda é um território em disputa quando o jogo envolve respeito e diversidade. O atraso ainda vence com folga. Mas não vencerá sempre.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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