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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não teve brasileiro que não sonhou um dia ser entrevistado por Jô Soares

Anitta entrevistada por Jô Soares no "Programa do Jô" em 2015 - Reinaldo Marques / Globo TV
Anitta entrevistada por Jô Soares no 'Programa do Jô' em 2015 Imagem: Reinaldo Marques / Globo TV
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

05/08/2022 13h08

Não teve brasileiro que não sonhou um dia sentar no sofá do "Programa do Jô", talk show de 15 temporadas da TV Globo por onde provavelmente passaram todas as personalidades — e anônimos célebres — que marcaram este e o último século. Contando os tempos de "Jô Soares Onze e Meia", do SBT, foram 25 anos, um quarto de século, de companhia diária (e noturna) para dois tipos de espectadores: os que estavam indo para cama e os que desistiam de lutar contra a insônia.

A geração Z talvez não saiba, mas houve um tempo em que, para um adolescente, era podre de chique chegar em casa depois algum evento social no meio da semana e preparar o Toddy enquanto botava o pijama ao som do baixo e do piano característicos da música de abertura. Parecia até que a vida adulta valia a pena ser vivida. Esqueçam as bandas de rock: o sexteto do Jô foi o grupo musical que mais ouvimos naquela época.

Quando souberam da morte de Jô Soares, amigos e fãs passaram a manhã de sexta-feira (5) compartilhando nas redes sociais memórias e momentos épicos com o ator, escritor, humorista, dramaturgo, pintor — um "eclético total", nas palavras de Millôr Fernandes, que só estaria realizado no dia em que interpretasse um personagem sem graça que não fizesse a plateia rir. Esse dia chegou.

No dia da despedida, usuários de boa alma desenterraram programas inesquecíveis, como o dia em que Deltan Dallagnol ficou no vácuo ao pedir para a plateia levantar a mão em apoio ao seu pacote anticorrupção. Ou quando Maurício Mattar disse que ninguém o assistiria àquela hora da madrugada e foi escorraçado pelo entrevistador (eu fico tenso de vergonha toda vez que revejo a cena).

Outro clássico lembrado por lá foi o dia em que Jô Soares recebeu no programa uma trinca estrelada e sem papas na língua formada por Hebe Camargo, Nair Belo e Lolita Rodrigues. Nem a seleção de 70 juntou tantos craques na mesma roda.

Foi pelo Twitter que a arroba de Emiliano Freitas resumiu a coisa toda: somos parte de uma geração inteira que dava entrevistas imaginárias para Jô Soares enquanto tomava banho.

Quem disser que nunca fez isso está mentindo.

Eu mesmo passei anos ensaiando o que diria a ele no dia em que, a exemplo de Fábio Porchat, finalmente fosse reconhecido e chamado para divulgar minha arte ao grande público. Eis o que ensaiava debaixo do chuveiro: "Olha Jô, talvez você não se lembre de mim, mas eu já estive aqui nesta plateia com meus amigos do cursinho em 2001. Fui eu o autor daquele desenho na cartolina em que você entrevistava o Albert Einstein. Era o nome da nossa escola. Tantos anos depois, agora estou aqui para dizer que..."

O que mesmo? Pois é, havia esse detalhe: eu nunca soube o que diria dali em diante, mas poderia discorrer por horas sobre como me tornei uma pessoa com uma rotina irritantemente normal, que acorda, toma banho, se veste, põe a meia, escova os dentes direitinho, ouve música, perde o ônibus e os compromissos do dia, mas nunca perdeu por completo a ilusão de um dia ouvir um sonoro "Ooooooohhhh" ao fim de uma entusiasmada conversa sobre o nada.

Sonhos sonhos são, mas chegamos perto dele toda vez que algum conhecido era chamado ao programa. Foi o que aconteceu com o meu amigo Jairo Marques quando lançou o livro "Malacabado: a História de um Jornalista Sobre Rodas". Durante dias, era o Jairo quem concedia entrevistas para nossa turma de jornalistas recém-formados. Como foi? Como ele é? Você ficou nervoso? Você falou da gente? Mandou aquele abraço para minha mãe?

Era como ter um amigo que foi para a Lua e voltou para contar se existe vida fora da Terra. O Jairo jurava que tudo foi tão rápido que não conseguia se lembrar de quase nada a não ser do vulto, como o de um urso branco e erudito, a quem deu oi e já se despediu em seguida.

Dos amigos em comum foi o mais perto de que cheguei do Jô Soares depois da excursão da nossa turma do cursinho.

Ao fim daquela viagem, não teve livro do Jô Soares que sobrou na estante da biblioteca da escola. Sua versão particular do Sherlock Holmes em "O Xangô de Baker Street" foi a porta de entrada para a literatura de uma galera que saiu realmente impressionada daquele estúdio. Não é todo dia que a gente chegava perto de um gênio — do teatro, sim (como previu o ator Robert Lamoureux, que se impressionou ao ver um jovem cara de pau de 16 anos ir até a sua mesa em um restaurante de Paris e apresentar um dança de dedos), mas sobretudo do humor, das tiradas rápidas e do sarcasmo afiado.

Somente um gênio do humor é capaz de lançar um livro de memórias e chamá-la de "Autobiografia desautorizada". A pena da galhofa veio de berço: quando o "interessante menino José Eugênio", como Jô foi descrito pelo jornal carioca "A Noite" no dia de seu batizado, nasceu, uma enfermeira imprudente correu afoita as escadas para mostrá-lo ao pai. E tudo o que o pai conseguia pensar era: "Essa enfermeira vai cair, e pronto, o bebê vai morrer. Catorze anos casado sem ter filhos e, quando nasce um, morre no dia em que nasceu".

Para sorte do pai (e nossa), aquela criança chegou ilesa ao último lance de escadas. Viveu, e bem, durante 84 anos, dos quais boa parte se dedicou a levar para nossas noites sem graça e insones (não nessa ordem) o que restava de vida inteligente na TV aberta.

Jô Soares não queria choro nem vela no dia em que morresse. Millôr garantia que ele pedia um enterro bem simples, com apenas um caixão de pinho com 800 bispos vestidos de púrpura em volta, 300 câmeras filmando e narração em 16 línguas. Igualzinho ao do papa.

Se pudesse dar uma espiada agora no Twitter, ele veria que conseguiu muito mais que isso.