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Cinquentões se queixam de preconceito de idade na indústria dos games

Veteranos da indústria dos games participam de painel no festival SXSW, que acontece todo ano no Texas - Jacqueline Lafloufa/UOL
Veteranos da indústria dos games participam de painel no festival SXSW, que acontece todo ano no Texas Imagem: Jacqueline Lafloufa/UOL

Jacqueline Lafloufa

Colaboração para o TAB, em Austin (EUA)

19/03/2019 04h02

No último horário do festival de inovação e tecnologia SXSW, uma sessão da trilha de games chamava a atenção. Os quatro participantes do painel somavam, juntos, poucos cabelos e muitos anos de experiência profissional. Jim Galis, vice-presidente de desenvolvimento de produto da Advanced Imagination, Sheri Ray, designer de game da Electronic Arts, e as cabeças literalmente brilhantes de Thomas Reid, também designer de games da Electronic Arts, e Gordon Walton, presidente da ArtCraft Entertainment, debateram os desafios de ter mais de 50 anos em uma indústria tão jovem quanto a dos jogos digitais.

"Existe essa percepção de que não vamos conseguir entender a audiência, que atualmente tem entre 18 e 35 anos", explica Ray, citando o caso de alguns de seus colegas da área que estão com dificuldades de se recolocar no mercado. Conhecido como idadismo (tradução do termo em inglês "ageism"), o preconceito com base na idade muitas vezes exclui do convívio pessoas que passaram de uma determinada faixa etária - nesse caso específico dentro do ambiente profissional.

Dentro do setor de games, o idadismo é tamanho que sites como o Game Advocacy chegaram a propor uma lista dos "50 acima dos 50" - lista da qual Ray e Gordon inclusive fazem parte - em uma clara paródia das listas "30 antes dos 30" ou "40 antes dos 40" que a revista de economia "Forbes" costuma lançar.

"O que acontece é que as pessoas tendem a querer trabalhar com pessoas que são como elas. É como se fosse um tribalismo", opinou Walton, de forma ácida. No entanto, para Ray, que há 20 anos fundou o grupo "Mulheres nos Games" para promever a inclusão feminina entre os profissionais da área, o idadismo é mais uma forma de se afastar de times diversos e inclusivos.

"Se os gestores forem formar as suas opiniões sobre contratar ou não um profissional baseados em raça, idade, gênero, estilo de vida ou identidade étnica, eles não estão se aprofundando o suficiente no que precisam encontrar [em um profissional]", sentenciou Ray, frisando que o foco das contratações em quaisquer empresas, inclusive as de games, deveria ser a busca por um grupo de habilidades ou a capacidade de resolução de problemas.

Senhores estagiários

Com base na sua ampla experiência com inclusão e diversidade, Ray lembrou que existem diversos estudos realizados nos últimos 35 anos com empresas listadas pela revista "Fortune" que indicam que times diversos têm uma melhor performance, e que essa diversidade também deve ser etária. "O efeito positivo da diversidade é especialmente maior em setores que lidam com criatividade, como a indústria de games, que parece ter dificuldade de entender que criatividade e inovação também pode surgir das pessoas acima dos 50 anos", opinou ela.

Além disso, os participantes do painel também ressaltaram a vantagem de a razoabilidade que o time ganha ao contar com um profissional veterano no time. "Sabemos quando é ou não hora de entrar em pânico", riu Reid.

Ele lembrou que os líderes da declaração da independência dos EUA (os clássicos "Founding Fathers") se preocuparam em estabelecer a idade mínima de 35 anos para participação no Congresso e até para se candidatar à presidência, o que na época seria equivalente a um profissional já maduro e experiente o suficiente para lidar com as complexas questões relativas ao governo do país. "O problema é que hoje vivemos muito mais", concluiu de forma cômica Reid.

A parte favorita de Ray sobre ser a veterana de um time é poder ajudar a evitar que a equipe caia nos mesmos erros que ela cometeu no passado. "Conheço esses erros, eles já são antigos, datados. O time pode falhar de uma forma diferente, cometer erros novos. Não cometam os meus erros, façam seus próprios", brincou.

E os profissionais mais maduros e experientes não estão apenas atrás de posições de liderança. Tanto Ray quanto Reid contaram casos pessoais de mudança de carreira para atuar em cargos com menor responsabilidade - ambos deixaram cargos de vice-presidência e diretoria para atuarem em funções que não envolvem liderança de times.

"Minhas habilidades de liderança e gestão continuam ali, mas eu reconheço que ainda tenho muito para aprender. Quando houver uma nova oportunidade, no futuro, depois que eu aprender o que preciso, essa experiência vai servir novamente", contextualizou Reid, que há menos de um ano migrou da área de jogos de RPG para atuar como designer de games digitais na EA. E quando há espaço ou a situação pede, esses veteranos estão sempre à disposição dos líderes dos times para ajudar a acalmar a equipe em momentos de tensão. "Os mais velhos são mais experientes nessas mentiras [de que tudo vai ficar bem]", caçoou Gordon, levando a audiência aos risos.

Contratar profissionais mais velhos ou mais jovens não é tão diferente, explicou Gordon, que disse buscar sempre compreender se o candidato está disposto a aprender e lidar com o processo de tentativa e erro que constrói os aprendizados. Segundo ele, não é a idade que faz bons ou maus profissionais, mas o momento de vida e a atitude que eles trazem para o time. "O principal desafio é saber se eles terão disposição para falhar, para serem iniciantes novamente. Quer dizer, existe esse monte de coisa que eles são muito bons em fazer. Agora, precisarão fazer algo similar, mas diferente. E vão ser primeiro uns idiotas, melhorar seus conhecimentos aos poucos, passar para 'só incompetentes', para depois se tornarem 'profissionais adequados' e, enfim, se tornarem especialistas novamente. É um caminho difícil, emocional ou mentalmente, para as pessoas passarem", detalhou Gordon.

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