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O fim da Buttman Brasil e a melancolia do ex-magnata do pornô

O empresário Stanlay Miranda conta a ascensão e a queda da Buttman Brasil, uma das maiories produtoras pornôs do país - Felipe Larozza/UOL
O empresário Stanlay Miranda conta a ascensão e a queda da Buttman Brasil, uma das maiories produtoras pornôs do país
Imagem: Felipe Larozza/UOL

Marie Declercq

Do TAB

23/03/2021 04h00

A porta se abre para uma sala abarrotada de caixas sobre mesas de escritório. Em meio à névoa de poeira, centenas de fitas master, identificadas com etiquetas com termos como "Bacanal", "Travesti Tour #6" e "O Comedor #13". Tanto pó acumulado perto de um material analógico e sensível inspira desespero até em quem não tem qualquer ligação emocional com aquilo. Notando minha agonia, Stanlay Miranda, fundador da finada Buttman Brasil, se antecipa. "É, precisa digitalizar tudo isso aqui."

Buttman Brasil não é mais um nome conhecido entre a juventude brasileira, mas quem cresceu antes dos anos 2000 sabe o trabalho que dava assistir a um filme pornô antes da internet, portanto, já deve ter visto pelo menos um filme da Buttman. "Eu trouxe os filmes da Cicciolina pra cá", conta, orgulhoso de ter apresentado a atriz pornô italiana ao público local.

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Pilhas de fitas master originais de centenas de filmes pornôs produzidos pela Buttman Brasil estão guardados em uma sala no seu atual escritório, na região do Pacaembu
Imagem: Felipe Larozza/UOL

Durante mais de três décadas, Stanlay comandou um império hardcore de bundas e filmes de orgias de Carnaval. Lançou também uma revista que vendia 40 mil exemplares por mês. No começo dos anos 2000, comprou uma hora da grade de madrugada na RedeTV! para Monique Evans entrevistar sub-celebridades, deitada em uma cama redonda.

Aos 63 anos, Stanlay Miranda (se pronuncia "Stanley") tem na conta cinco divórcios, sete filhas, um dedo do pé a menos por causa do diabetes e uma melancolia impregnada no rosto gentil, emoldurado por uma barba grisalha bem aparada. O império das bundas se desintegrou por volta de 2012, levando com ele a vida opulenta de carros, casas e um haras em Porto Feliz (SP). Resquícios dessa era dividem espaço na salinha com uma miscelânea de tralhas: um cone de trânsito, computadores antigos, dois pneus.

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Stanlay posa na salinha em que guarda as sobras do seu antigo império do pornô no seu atual escritório na região do Pacaembu
Imagem: Felipe Larozza/UOL

Do confisco da poupança à glória

O ex-presidente Fernando Collor (1990-1992) pode não se importar, mas foi indiretamente responsável pela entrada de Stanlay na indústria pornográfica. Em 1990, sem um centavo no bolso depois do confisco das poupanças, ele mergulhou na venda e distribuição de fitas VHS para locadoras de todo o país em uma empresa chamada Video Lips.

Em uma viagem de negócios, conheceu um gringo com cara de canastrão, fascinado pelo Carnaval brasileiro. Era o Homem das Bundas, o Buttman, também conhecido como John Stagliano. Um dos maiores diretores pornô da época, ele era dono da produtora norte-americana Evil Angel, que lançou performers como Belladonna, Rocco Sifredi e Nacho Vidal. Stagliano também gostava de estrelar filmes, segurando a câmera enquanto transava — tornando-se assim um dos precursores do estilo "gonzo".

A parceria de Stanlay com Stagliano começou com 20 mil dólares em espécie, entregues pelo norte-americano nas mãos do brasileiro. Sem contrato, sem testemunhas, sem firulas jurídicas. Era o pontapé para a abertura de uma filial brasileira da Buttman. "Era uma encruzilhada: dar um 'perdido' no gringo — e sumir do mapa com 20 mil contos na mão — ou abrir a empresa. Escolhi o segundo caminho", conta. "Em menos de dois anos, estávamos faturando mais de R$ 1 milhão por mês."

Por email, Stagliano confirma a história ao TAB. "Confiei nele, percebi que era muito bom em lidar com problemas de produção e sabia organizar uma empresa de vendas." No auge, a Buttman Filmes vendia 20 mil cópias de VHS por mês.

Nostalgia dos bastidores

"Ai, como era bom trabalhar com pornô nessa época", relembra entre goladas de café e comentários de bastidor Edson Strafite, jornalista curitibano que trabalhou na Buttman de 2003 a 2007.

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Além de editar a revista e fazer a produção, Strafite também legendava os filmes em inglês
Imagem: Edson Strafite/Acervo Pessoal

O salário inicial não era grande coisa, mas Strafite topou. "Imagina, eu era uma bicha do mato de Curitiba com oportunidade de morar em São Paulo", conta. Passou a escrever todos os textos da revista. Levava a sério a missão, incluindo até entrevistas com figuras como Supla e Núbia Óliiver. Strafite também legendava os filmes que vinham dos EUA e produziu grande parte dos nacionais, além de apresentar parte do programa da Buttman TV.

Foi demitido em 2007. Até hoje, segundo ele, não sabe ao certo o motivo — o que o magoou intensamente, já que fazia todo tipo de trabalho. Logo depois, entrou com um processo trabalhista contra Miranda e ganhou — ainda não recebeu o dinheiro e não parece preocupado. "Gosto do Stanlay e não quero que essa história se resuma a isso, sabe?"

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O jornalista Edson Strafite, editor da revista Buttman, posa com Supla após entrevistá-lo em 2005 no apartamento do cantor na República
Imagem: Edson Strafite/Acervo Pessoal

Ética de trabalho

Nos castings, Stanlay afirma que perguntava mais de uma vez às aspirantes a atriz pornô se realmente queriam aquilo. "Avisava que seriam reconhecidas, que a família ia saber, que o filme rodaria pela cidade delas. Aí uma hora me tiraram dos castings", conta, rindo.

O trato profissional e respeitoso era um traço da ética profissional de Stanlay. "Ele pagava até '14º' pra gente", relembra Strafite. "Mas tinha seus momentos de gritaria. Ninguém é perfeito, né?"

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Stanlay em 2005, em uma pause entre reuniões na cidade de Fortaleza (CE)
Imagem: Edson Strafite/Acervo Pessoal

Stanlay também dirigiu filmes com performers brasileiros e estrangeiros. Nenhum, porém, foi tão famoso quanto Fábio Scorpion. Um dos primeiros astros pornôs do Brasil, estrelou 400 filmes e era conhecido pelo fortíssimo sotaque carioca e por nunca ter perdido uma ereção.

"O Fabio era um dos meus melhores amigos, muito profissional. Não tratava as meninas como vagabundas, como muita gente julga que são as atrizes do meio", frisa Strafite. Scorpion faleceu em 2004, após complicações decorrentes de uma cirurgia plástica.

Pirataria e corações partidos

No auge da Buttman Brasil nos anos 2000, um espectro rondava a indústria pornô. Era a chegada da Blockbuster, rede que aos poucos foi quebrando as videolocadoras de bairro. Além de receber os lançamentos antes de todos, a rede estrangeira não oferecia pornografia para alugar. Não bastando a Blockbuster, veio também a pirataria.

"Foi um baque, porque mesmo ainda vendendo muitos DVDs, a gente via na rua banquinha vendendo cópias piratas dos nossos filmes", relembra Strafite.

Mas a crise de Stanlay foi outra. Nessa época ele passava por mais um divórcio, o quarto, litigioso e traumático. A ex-esposa era diretora comercial da Buttman Brasil. Por um período, ele chegou a perder o controle da empresa. Foi sua derrocada. A depressão veio e dominou. "Lembro que me falavam que era impossível falir a empresa, mesmo se eu quisesse. Mas consegui."

Hoje, em andamentos processuais, é possível encontrar migalhas do conglomerado de CNPJs que Stanlay manteve por décadas. Restou da Buttman Brasil apenas o site oficial, comprado pela produtora Brasileirinhas.

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O empresário e ex-magnata do pornô no seu escritório na região do Pacaembu: "Me deixa bonito nas fotos, hein?, pede Stanlay Miranda
Imagem: Felipe Larozza/UOL

Melancolia duradoura

A internet cresceu, e com ela vieram sites de streaming como Xvideos e PornHub. Todo filme feito pelas produtoras a custo de tempo, dinheiro e muito trabalho era logo publicado ilegalmente para consumo gratuito. Pagar para ver pornografia parou de fazer sentido, o que sucateou o segmento inteiro.

Os mesmos sites responsáveis pela falência da indústria pornô tradicional são agora a principal fonte de renda de inúmeros diretores, produtores, atrizes e atores. Em 2019, Stanlay abriu seu próprio canal no Xvideos, na esperança de faturar com a uberização da pornografia.

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Assim como muitos pornógrafos, Stanlay Miranda criou um canal verificado no Xvideos para monetizar suas produções mais recentes
Imagem: Felipe Larozza/UOL

A próxima aposta é o OnlyFans, plataforma em que o usuário paga para ter acesso a conteúdo exclusivo, diretamente dos produtores. O plano de Stanlay é produzir conteúdo para as modelos e administrar as contas em troca de uma comissão de 30%. Uma delas é Aritana Maroni, filha de Oscar Maroni, dono do Bahamas, casa de prostituição de luxo na zona sul de São Paulo.

Ao ser questionado sobre como vai competir com milhares de produtores numa plataforma em que basta ter um smartphone para começar, Stanlay desconversa. Também parece não se importar com a pandemia. O ex-magnata ironizou a máscara PFF2 que usei ao entrevistá-lo. "Você está com medo mesmo, né?", perguntou, em tom zombeteiro.

O pornô engessou por causa da covid-19, e Stanlay vive de trabalhos outros — no Dia Internacional da Mulher, fotografava a campanha de uma floricultura. Para um homem que esteve no topo, há uma estranha calma em seu tom de voz, tranquila como a poeira que aos poucos engole seu acervo da era dourada do pornô.